Infraestrutura verde: quando a natureza passa a integrar a engenharia das cidades

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Infraestrutura verde: quando a natureza passa a integrar a engenharia das cidades

As cidades brasileiras enfrentam um cenário cada vez mais desafiador. Enchentes, alagamentos, ondas de calor, impermeabilização do solo e degradação ambiental evidenciam os limites de modelos urbanos...

Por Daiane Ferreira Campos; Hugo Marques da Rosa

Saneamento Ambiental 206Páginas 21-25Ver na versão PDF flip

As cidades brasileiras enfrentam um cenário cada vez mais desafiador. Enchentes, alagamentos, ondas de calor, impermeabilização do solo e degradação ambiental evidenciam os limites de modelos urbanos tradicionalmente estruturados sobre soluções convencionais de infraestrutura. Nesse contexto, a infraestrutura verde surge como uma estratégia capaz de aproximar engenharia e natureza, incorporando aos projetos urbanos mecanismos que contribuem para o manejo das águas, a melhoria do microclima e a qualidade ambiental.

Para compreender os avanços, desafios e perspectivas desse conceito, Daiane Ferreira Campos, engenheira ambiental, e Hugo Marques da Rosa, engenheiro civil e arquiteto e CEO da Método Engenharia, comentaram que a infraestrutura verde não deve ser compreendida apenas como uma alternativa ambiental, mas como uma ferramenta técnica para tornar empreendimentos e cidades mais preparados para os efeitos das mudanças climáticas.

Segundo os especialistas, as soluções que incorporam elementos naturais podem gerar benefícios tanto para o ambiente urbano quanto para os ecossistemas. Entre eles estão o controle do microclima, a valorização paisagística, a infiltração da água no solo, o amortecimento do escoamento superficial e o tratamento das águas urbanas.

Um dos principais potenciais da infraestrutura verde está justamente na capacidade de atuar sobre problemas que se tornaram recorrentes nas cidades. Jardins de chuva, pavimentos permeáveis, bacias vegetadas, parques inundáveis, arborização e coberturas verdes são exemplos de soluções que podem contribuir para reduzir o volume e a velocidade do escoamento superficial.

Na avaliação apresentada na entrevista, dispositivos de drenagem caracterizados como Soluções baseadas na Natureza (SbN) podem auxiliar no amortecimento de vazões e, consequentemente, no enfrentamento de enchentes e alagamentos. Ao mesmo tempo, a presença da vegetação amplia os benefícios para outras dimensões urbanas, como redução das ilhas de calor, melhoria do microclima, qualidade da água e biodiversidade.

A lógica é sistêmica. A evapotranspiração da vegetação, por exemplo, pode contribuir para reduzir temperaturas locais e melhorar a umidade e a qualidade do ar, enquanto a sombra proporciona maior conforto aos usuários dos espaços urbanos.

Apesar do potencial, a infraestrutura verde não pode ser aplicada de maneira padronizada. O sucesso de um projeto depende de sua adequação às características do território. Clima, relevo, tipo de solo e regime de chuvas influenciam diretamente as vazões de projeto, a seleção das espécies vegetais e a composição dos sistemas drenantes e filtrantes.

Outro ponto fundamental é a integração entre infraestrutura verde e infraestrutura cinza. Em vez de estabelecer uma oposição entre os dois modelos, a engenharia pode buscar a combinação mais eficiente para cada realidade. A proposta é compreender o problema, avaliar as alternativas disponíveis e definir um sistema capaz de responder às necessidades técnicas, ambientais e operacionais do local.

O reaproveitamento de água e o aproveitamento da iluminação natural, quando incorporados desde as etapas iniciais do projeto, deixam de ser elementos isolados e passam a integrar o desempenho global do edifício, contribuindo para reduzir o consumo de água e energia durante a operação.

A expansão da infraestrutura verde, entretanto, ainda encontra obstáculos. Um dos principais é a ausência de referências técnicas consolidadas e integradas. Embora existam normas e exigências relacionadas a temas específicos, ainda há espaço para o desenvolvimento de diretrizes mais claras em normas técnicas, manuais de órgãos públicos, planos diretores, códigos de obras e contratos de concessão.

A operação e a manutenção também precisam receber atenção. Diferentemente de estruturas convencionais, muitas soluções verdes envolvem vegetação e outros sistemas vivos, cujo desempenho depende de cuidados contínuos e planejamento adequado ao longo do tempo.

Mais do que uma rejeição ao conceito, o que existe atualmente é uma familiaridade maior do mercado com soluções tradicionais de infraestrutura cinza, que são mais conhecidas e, portanto, percebidas como mais simples de especificar, contratar e manter. A consequência é uma percepção de risco diante de alternativas menos convencionais.

A consolidação desse modelo passa, portanto, pela capacidade de demonstrar resultados. Quanto mais claros forem os benefícios ambientais, sociais e econômicos, maior tende a ser a confiança de investidores, gestores públicos, projetistas e clientes.

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A infraestrutura verde pode representar uma oportunidade econômica além dos ganhos ambientais. Para os proprietários, sua adoção pode aumentar a atratividade e o valor comercial dos empreendimentos, melhorar o conforto dos usuários e contribuir para a redução dos custos operacionais relacionados à água, energia e climatização. Também pode tornar os ativos mais resilientes diante de eventos climáticos extremos.

Em escala urbana, os benefícios se ampliam. A redução do escoamento superficial, o alívio sobre os sistemas de drenagem, a mitigação das ilhas de calor e a melhoria da qualidade ambiental podem reduzir impactos e custos que, em outras circunstâncias, seriam absorvidos pela própria cidade e pela sociedade.

Ainda assim, o reconhecimento econômico dessas soluções é desigual. Enquanto alguns investidores e clientes já incorporam atributos ambientais e de resiliência à avaliação dos ativos, outros ainda enxergam predominantemente seu valor paisagístico. Um dos desafios, portanto, está em mensurar de maneira mais objetiva o retorno direto para o proprietário e o valor econômico produzido para a cidade.

Nesse cenário, a engenharia assume uma função decisiva. A infraestrutura verde precisa deixar de ser percebida como uma escolha exclusivamente ambiental e passar a ser avaliada também sob critérios de desempenho, viabilidade econômica, operação e manutenção.

A perspectiva apresentada na entrevista é clara: cabe à engenharia transformar conceitos em parâmetros de projeto, custos, indicadores de desempenho e resultados mensuráveis. Essa tradução técnica é fundamental para ampliar a confiança de clientes, gestores públicos e legisladores e permitir que as soluções baseadas na natureza sejam incorporadas de maneira mais ampla ao desenvolvimento urbano.

A mudança de paradigma, portanto, não significa abandonar a infraestrutura convencional. O caminho apontado é justamente a integração entre diferentes soluções, considerando as características e necessidades de cada território.

Uma agenda urbana orientada pela adaptação climática

Para os próximos anos, a tendência é que a resiliência climática passe a ocupar posição cada vez mais estratégica no planejamento urbano e nos projetos de engenharia. A agenda climática, antes fortemente associada à redução das emissões, precisa também responder aos impactos que já fazem parte da realidade das cidades, como enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos.

Nesse processo, as soluções baseadas na natureza tendem a ganhar espaço. Jardins de chuva, pavimentos permeáveis, bacias vegetadas, parques inundáveis, arborização e coberturas verdes poderão integrar uma rede de intervenções distribuídas pelo território – dos edifícios e lotes aos sistemas de drenagem de bairros e bacias hidrográficas.

Também deverá crescer a utilização de ferramentas de modelagem, monitoramento e mensuração. Para alcançar escala, será necessário comprovar quanto cada solução consegue reter, infiltrar ou retardar a água, qual impacto produz sobre a temperatura, quanto custa e quais são as necessidades de manutenção.

A infraestrutura verde, dessa forma, começa a ocupar um espaço que vai muito além do paisagismo, apresentando-se como parte de uma estratégia de adaptação, proteção e eficiência urbana. "Um projeto de infraestrutura verde bem-sucedido precisa combinar viabilidade de implantação e eficiência no desempenho. Desde o planejamento, é fundamental conhecer bem o território, porque essas soluções não podem ser simplesmente replicadas de uma região para outra. Clima, relevo, tipo de solo e regime de chuvas influenciam diretamente as vazões de projeto, a escolha das espécies vegetais e a composição das camadas drenantes e filtrantes, entre outros aspectos", afirma Hugo.

O futuro das cidades resilientes pode estar justamente nessa convergência: uma engenharia capaz de utilizar a tecnologia sem se afastar da natureza e que compreenda que, diante de um clima em transformação, preservar e recuperar os processos naturais também pode ser uma forma inteligente de construir infraestrutura.

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