Segurança hídrica: o desafio de garantir água em um cenário de incertezas

ENTREVISTA

Segurança hídrica: o desafio de garantir água em um cenário de incertezas

Garantir água no futuro não significa apenas construir novas estruturas de abastecimento. Em um cenário marcado por incertezas climáticas, a segurança hídrica depende da capacidade de antecipar evento...

Por Samuel Barreto

Saneamento Ambiental 206Páginas 26-33
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Artigo

Garantir água no futuro não significa apenas construir novas estruturas de abastecimento. Em um cenário marcado por incertezas climáticas, a segurança hídrica depende da capacidade de antecipar eventos extremos, identificar pontos críticos e criar alternativas antes que uma crise aconteça.

Biólogo, com mestrado em Sustentabilidade, Samuel Barreto destaca que a redução de perdas, a proteção de mananciais, o reúso, o monitoramento, as Soluções Baseadas na Natureza e a integração institucional formam um conjunto de estratégias essenciais para tornar os sistemas de abastecimento mais resilientes e preparados para responder aos novos riscos.

vas, enfraquecendo a hipótese de estacionalidade hidrológica. Secas mais quentes elevam a evapotranspiração e a demanda, reduzem vazões, umidade do solo, recarga de aquíferos e volumes armazenados; chuvas intensas aumentam cheias, erosão, sedimentos, turbidez, matéria orgânica, patógenos e contaminantes. Projeções do IPCC e dados do INPE, Copernicus e NOAA devem ser utilizados como cenários com incertezas, e não como previsões determinísticas.

Eventos compostos como seca, calor, incêndios, cinzas, contaminação e falhas de energia ou logística podem produzir falhas em cascata. O risco envolve quantidade, qualidade, continuidade, custo, saúde e equidade, sendo maior em sistemas isolados, com perdas elevadas, baixa redundância ou dependência de um único manancial.

Revista Saneamento Ambiental: Como as companhias podem fortalecer a segurança hídrica?

Samuel: As companhias devem institucionalizar a adaptação climática como parte permanente da gestão, por meio de um Plano de Resiliência e Segurança Hídrica articulado ao Plano de Segurança da Água, aos planos de contingência e à continuidade de negócios. É necessário testar cenários de secas plurianuais, enchentes, contaminação, incêndios, falhas energéticas, interrupções logísticas e riscos cibernéticos. Os planos devem mapear ativos críticos, pontos únicos de falha, populações vulneráveis, níveis mínimos de serviço e prioridades para hospitais, escolas e abrigos.

OS PLANOS DEVEM MAPEAR ATIVOS CRÍTICOS, PONTOS ÚNICOS DE FALHA, POPULAÇÕES VULNERÁVEIS, NÍVEIS MÍNIMOS DE SERVIÇO E PRIORIDADES PARA HOSPITAIS, ESCOLAS E ABRIGOS

Devem ser priorizados o controle economicamente eficiente de perdas reais e aparentes, a setorização, o controle de pressão, a medição, a manutenção preditiva, os estoques estratégicos, a energia de emergência e a comunicação de risco.

A proteção de mananciais, o saneamento rural e o controle de erosão devem ser realizados em cooperação com municípios, comitês de bacia e órgãos ambientais, vinculando contratos e regulação a indicadores de resiliência, continuidade e equidade. E contando com o papel e participação do setor privado como corresponsável pela solução.

Revista Saneamento Ambiental: Quais estratégias de planejamento e gestão são prioritárias?

Samuel: O planejamento deve adotar gestão adaptativa sob incerteza, utilizando conjuntos de cenários climáticos e hidrológicos, testes de estresse e análise de robustez, em vez de depender de uma única previsão ou de períodos de retorno fixos.

Devem ser construídas trajetórias adaptativas, com medidas imediatas, opções futuras e gatilhos objetivos em que os níveis de reservatórios, vazões, demanda, qualidade da água ou interrupções, para antecipar investimentos. São prioritárias as medidas de baixo arrependimento, como redução de perdas, eficiência energética, monitoramento, conservação de mananciais, contingência e interoperabilidade de dados.

Planos de saneamento, planos de bacia, planejamento setorial de recursos hídricos, contratos, planos diretores e defesa civil devem utilizar premissas e mapas de risco compatíveis. O Plano Clima - Adaptação, o Plano Nacional de Adaptação, o PNRH, o PNSH e o Plansab devem orientar decisões integradas, com atenção à equidade territorial e às prioridades legais em situações de escassez.

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Revista Saneamento Ambiental: Como diversificar fontes de forma eficiente e sustentável?

Samuel: A diversificação deve formar um portfólio hídrico resiliente, começando pela redução de perdas e pela gestão da demanda, para evitar que novas fontes perpetuem sistemas ineficientes. Conforme as condições locais, podem ser avaliadas interligações regionais, águas superficiais, uso conjunto de águas superficiais e subterrâneas, reuso industrial e urbano, captação de chuva, recarga gerenciada de aquíferos e dessalinização, quando for o caso. Cada alternativa requer outorga, controle sanitário e avaliação de custo, energia, emissões, qualidade, impactos ecossistêmicos, disposição de salmoura e aceitação social. Aquíferos não são reservas ilimitadas e exigem monitoramento de níveis, recarga, qualidade, subsidência e intrusão salina; a captação de chuva deve diferenciar usos potáveis e não potáveis. O reuso deve distinguir aplicações não potáveis, potáveis indiretas e, quando regulamentadas, potáveis diretas, com barreiras múltiplas e rastreabilidade; o objetivo é evitar falhas simultâneas, e não simplesmente acumular fontes.

Revista Saneamento Ambiental: Qual é o papel da infraestrutura verde e das Soluções Baseadas na Natureza? ENTREVISTA AS SOLUÇÕES BASEADAS NA NATUREZA PROTEGEM, MANEJAM OU RESTAURAM ECOSSISTEMAS PARA REDUZIR RISCOS SOCIAIS E AMBIENTAIS, GERANDO BENEFÍCIOS PARA ÁGUA, BIODIVERSIDADE, CLIMA E SAÚDE

Samuel: As Soluções Baseadas na Natureza protegem, manejam ou restauram ecossistemas para reduzir riscos sociais e ambientais, gerando benefícios para água, biodiversidade, clima e saúde. A restauração de matas ciliares, nascentes, áreas úmidas e zonas de recarga, associada à conservação do solo, ao manejo de estradas rurais e a práticas agrícolas conservacionistas de acordo com a função da ecologia da paisagem, pode reduzir erosão, sedimentos e contaminantes.

Nas cidades, parques inundáveis, jardins de chuva, pavimentos permeáveis, bacias de retenção e corredores verde-azuis reduzem picos de escoamento, mas não substituem integralmente a drenagem convencional. Nas áreas periurbanas ou rurais a recuperação da função ecológica da paisagem com as bacias hidrográficas é indispensável e pode trazer múltiplos benefícios.

Essas medidas não garantem, no entanto, aumento de vazões em todos os contextos, pois os resultados dependem de solo, clima, escala, vegetação e evapotranspiração. É fundamental estabelecer linhas de base, metas hidrológicas, monitoramento de vazão, qualidade, sedimentos, biodiversidade e equidade, além de manutenção contínua e integração com infraestrutura cinza.

Revista Saneamento Ambiental: Como monitoramento, modelagem e inteligência artificial podem contribuir?

Samuel: O monitoramento deve integrar satélites, radares, sensores, telemetria e estações hidrometeorológicas para acompanhar chuva, vazão, umidade (inclusive do solo), reservatórios, aquíferos, qualidade da água, pressão e consumo. Dados do Copernicus e da NOAA são valiosos para análises globais e regionais, mas precisam ser combinados e calibrados com informações do INPE, Cemaden, ANA, INMET, estados, municípios e operadores. Modelos climáticos e hidrológicos podem estimar probabilidades de escassez, cheias, turbidez, contaminação e falhas de captação, sempre explicitando suas incertezas.

A inteligência artificial pode apoiar detecção de vazamentos, previsão de demanda, manutenção preditiva, identificação de anomalias e otimização de bombeamento e reservação. A aplicação deve observar qualidade dos dados, metadados, calibração, validação local, auditabilidade, vieses e segurança cibernética onde todo alerta gerado precisa estar ligado a um protocolo decisório claro e à supervisão técnica.

Revista Saneamento Ambiental: Como a integração entre saneamento, recursos hídricos, defesa civil e território fortalece a resposta?

Samuel: A integração deve ocorrer antes dos eventos, porque inundações e secas podem afetar simultaneamente água, energia, transporte, saúde, produção, irrigação e segurança alimentar. É necessário compartilhar mapas de risco, protocolos, dados, salas de situação, exercícios simulados, sistemas de alerta, cadeia de comando e procedimentos de comunicação pública.

Legenda identificando a pessoa na fotografia
Samuel Barreto

O saneamento deve informar sua capacidade operacional. Os órgãos de recursos hídricos, a disponibilidade e as regras de alocação. A defesa civil, os riscos e a logística. A saúde, a vigilância epidemiológica. E os municípios, o uso do solo e a proteção da população. Planos de contingência devem prever fontes alternativas e prioridades para hospitais, escolas, abrigos, unidades de saúde e comunidades vulneráveis, considerando a prioridade legal do consumo humano e da dessedentação animal em escassez.

A bacia é a unidade de análise, enquanto municípios e regiões metropolitanas são escalas de implementação, em articulação com o Plano Clima, o PNA, o AdaptaSUS e os planos de saúde e desenvolvimento territorial.

Revista Saneamento Ambiental: Quais investimentos e políticas públicas devem ser priorizados?

Samuel: A prioridade deve ser a universalização do saneamento, seguida da redução de perdas, modernização de redes, medição, automação, manutenção e eficiência energética. Também são necessários investimentos em redundância e flexibilidade, como interligações, reservação, fontes complementares, reuso, proteção de aquíferos e infraestrutura natural, incluindo saneamento rural e controle de erosão.

Sistemas de dados, pesquisa, previsão, alerta e comunicação devem receber recursos permanentes, e não apenas financiamento emergencial após desastres. A seleção de projetos deve combinar risco climático, exposição, vulnerabilidade social, criticidade dos ativos, população atendida, custo do ciclo de vida e capacidade de recuperação, evitando medidas de maladaptação. Financiamentos, concessões e regulação devem exigir análise de risco climático, metas verificáveis e monitoramento de resultados, alinhados ao Plano Clima, Plansab, PNRH, PNSH, à agenda de Transformação Ecológica e à Taxonomia Sustentável Brasileira.

Revista Saneamento Ambiental: Quais experiências merecem destaque?

Samuel: No Brasil, o Atlas Águas, o PNSH, as Salas de Crise e a alocação negociada oferecem referências para diagnóstico, prevenção e pactuação. Entre experiências territoriais, destacam-se o Conservador das Águas, em Extrema-MG, que articulou PSA e restauração de mananciais; o Cultivando Água Boa, da Itaipu Binacional, pela integração entre conservação, produção e mobilização comunitária; o AquaPolo, em São Paulo, pelo reuso de efluentes em escala industrial; e a recuperação da Lagoa de Araruama, no Rio de Janeiro, que combinou saneamento, governança e continuidade institucional, promovendo a revitalização da região com a retomada da cadeia da atividade do turismo.

Internacionalmente, Nova York demonstrou que proteger as bacias de Catskill e Delaware pode ser mais eficiente do que depender exclusivamente de infraestrutura de tratamento. Singapura e Orange County evidenciam o valor da diversificação e do reuso. Na Holanda, com o Room for the River, integra-se ordenamento territorial e redução de cheias e a Cidade do Cabo reforça a importância da gestão da demanda. Em todos os casos, tecnologia, confiança social, financiamento estável e governança de longo prazo foram decisivos.

Revista Saneamento Ambiental: Quais recomendações devem orientar gestores e formuladores de políticas?

Samuel: A segurança hídrica deve ser política de Estado, integrada à saúde, proteção social, energia, alimentos, biodiversidade, desenvolvimento econômico e ordenamento territorial. Todo investimento novo ou existente deve ser testado contra cenários futuros, incertezas, eventos compostos, falhas em cascata e riscos de obsolescência climática, com revisão periódica dos planos. Devem ser priorizadas a eficiência, a proteção dos mananciais e a redução da demanda antes da expansão indiscriminada da oferta, além da diversificação ambientalmente, sanitariamente e energeticamente adequada.

É essencial criar redundâncias, níveis mínimos de serviço, dados interoperáveis e integração entre planos, orçamentos, reguladores, operadores, municípios, estados e União. Financiamento e regulação devem utilizar indicadores de perdas, continuidade, qualidade, acessibilidade econômica, vulnerabilidade, recuperação e equidade, garantindo adaptação justa: o custo de não adaptar não pode ser transferido principalmente às populações com menor capacidade de proteção.

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