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TECNOLOGIA

Data centers no Brasil: eficiência energética, energias limpas e o desafio da água

Data centers no Brasil: eficiência energética, energias limpas e o desafio da água

Data centers em expansão bilionária no Brasil enfrentam desafio crítico de gestão hídrica. Com matriz energética limpa como vantagem, setor avança em tecnologias de resfriamento inovadoras para reduzir consumo de água.

Expansão bilionária da infraestrutura digital exige soluções de resfriamento inovadoras e gestão responsável dos recursos hídricos
O Brasil detém 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e 71% das instalações em construção na região, com investimentos projetados em cerca de R$ 500 bilhões até 2030. A expansão, impulsionada pela inteligência artificial e pela computação em nuvem, coloca o país numa posição privilegiada — mas também pressiona a gestão de dois recursos estratégicos: energia e água.

Matriz limpa como vantagem competitiva

O grande trunfo brasileiro é a matriz elétrica: cerca de 88% da eletricidade gerada em 2024 veio de fontes renováveis. Enquanto operadores globais investem bilhões para descarbonizar suas operações, o Brasil já parte dessa posição. Um relatório da XP sobre tendências ESG em 2026 coloca os data centers no topo da lista de investimentos, com big techs buscando energia limpa para sustentar o crescimento da IA.
No Nordeste, essa equação ganha contornos estratégicos. A região concentra grande parte da geração eólica e solar, mas em 2025 cerca de 20% da energia renovável gerada no país foi desperdiçada por limitações de transmissão — o chamado curtailment. Data centers instalados próximos a parques de geração funcionam como âncoras de consumo, absorvendo o excedente. Projetos como o do TikTok no Complexo do Pecém (CE), com parque eólico dedicado e previsão de operação em 2027, e os R$ 50 bilhões que a Casa dos Ventos planeja investir em renováveis e hidrogênio verde na mesma região, ilustram essa convergência.

Resfriamento: onde energia e água se encontram

Se a energia limpa é o trunfo, o resfriamento é o principal desafio ambiental. Servidores de IA geram calor intenso, e sistemas tradicionais de torres evaporativas consomem grandes volumes de água. A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo global de água por data centers pode saltar de 560 bilhões para 1,2 trilhão de litros anuais até 2030.

O setor, porém, avança em alternativas. Projeções indicam que cerca de 90% do parque brasileiro utilizará sistemas de resfriamento em circuito fechado até o fim da década, modelo que requer apenas abastecimento inicial e reposições anuais de 10%. Tecnologias como o resfriamento direct-to-chip reduzem o consumo de água em mais de 40%, enquanto o resfriamento por imersão — em que servidores são submersos em fluidos dielétricos — praticamente elimina o uso hídrico, com PUE de 1,03 frente à média convencional de 1,5 a 2,5.

O reúso de água industrial também já é realidade. Empresas especializadas operam sistemas de tratamento em data centers de grandes provedores de nuvem em São Paulo, desde a entrada da concessionária até os pontos de resfriamento.

Regulação e inovação

O Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter), que tramita como PL 278/2026, estabelece contrapartidas ambientais para acesso a benefícios fiscais: WUE máximo de 0,05 L/kWh, uso de energia renovável e sistemas de resfriamento em circuito fechado. O patamar de eficiência hídrica exigido é ambicioso — a Microsoft reportou 0,3 L/kWh em 2025 e a Amazon, 0,15 L/kWh em 2024.

No campo da inovação, o recém-lançado Projeto ECOS, do CPQD em parceria com a ABDI, investirá R$ 3 milhões para apoiar até seis startups no desenvolvimento de soluções em eficiência energética, redução do consumo de água, integração de renováveis e descarbonização, com testes em ambientes reais de data centers.

Oportunidades para o setor

Para empresas e profissionais de saneamento ambiental, a expansão dos data centers representa um mercado emergente em tratamento e reúso de água industrial, monitoramento hídrico, engenharia de sistemas de resfriamento e consultoria regulatória ambiental. Com incentivos adicionais do Redata para instalações no Norte, Nordeste e Centro-Oeste — regiões onde a infraestrutura de saneamento é mais deficitária —, a demanda por planejamento integrado de abastecimento e tratamento de efluentes tende a crescer. A convergência entre infraestrutura digital, energias limpas e gestão de recursos hídricos configura um dos campos mais dinâmicos para o setor nos próximos anos.

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Artigo por Márcio Martin * Atualmente, cerca de 35 milhões de brasileiros não têm acesso algum à água tratada, e mais de 100 milhões vivem sem coleta de esgoto – de acordo com dados do Instituto Trata Brasil. A situação é obviamente preocupante, mas a aprovação do Novo Marco Legal de Saneamento, de 2020, trouxe novas oportunidades tanto para as pessoas que dependem de saneamento básico quanto para companhias dispostas a inovar e utilizar suas ferramentas digitais para mudar esse panorama. A meta é ousada: até 2033, mais de 90% da população precisa ser atendida com esses serviços que são fundamentais para a qualidade de vida das pessoas. Não se trata de um desafio simples, mas a tendência é que ele atraia a atenção do mercado para a realização de novos projetos onde as tecnologias e ferramentas digitais serão essenciais para elevar a eficiência dos sistemas de água e esgoto. Só em 2021, o segmento de saneamento básico recebeu investimentos na ordem de R$ 35 bilhões, o que representa 10 vezes o valor destinado ao setor em 2020, segundo o Governo federal. Isso prova que a iniciativa privada está atenta à demanda e pronta para atuar em projetos. Projetos para todo o território nacional Dados da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon) apontam que 23 licitações devem ser realizadas no país até o fim de 2023, sendo que 12 delas ocorrerão para cidades com população igual ou inferior a 50 mil habitantes. No total, os investimentos voltados para municípios pequenos podem somar R$ 22 bilhões em projetos realizados por meio das Parcerias Público-Privadas (PPPs). Embora alto, ainda há mais oportunidades para o desenvolvimento de projetos, pois, para atingir as metas do marco regulatório até 2033, seria necessária uma média de R$ 63 bilhões de aportes por ano para chegar à projeção de R$ 700 bilhões para garantir as melhorias. Muita inovação e tecnologia O crescimento projetado da demanda de água para os próximos anos em todo o mundo está acelerando a tendência de inovações e tecnologias voltadas ao saneamento. Além de sistemas mais sustentáveis, o uso de dados e a implementação de ferramentas inteligentes no setor passam a ser fundamentais. Entre as vantagens, estão: Melhor gestão de perdas no sistema de saneamento; Melhora do fluxo de distribuição de água; Facilidade no monitoramento para adoção de ações preditivas; Aumento da capacidade de identificação de ações clandestinas; Respostas mais rápidas a crises com informações em tempo real. O levantamento Barômetro da Infraestrutura Brasileira , que é feito semestralmente pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústria de Base (Abdib), em parceria com a consultoria EY, destaca justamente que as empresas têm investido em tecnologia e inovação no saneamento para tornar o atendimento à população mais eficiente e eficaz ao obter mais dados, antecipar problemas e automatizar sistemas. Um exemplo citado é o acompanhamento online de todo o ciclo de processos de tratamento e abastecimento a partir da combinação de dispositivos IoT (Internet das Coisas) com análise de dados baseada em inteligência artificial para gerar informações e possibilitar o monitoramento dos sistemas de água e esgoto à distância. O estudo ainda aponta que a grande necessidade de modernizar os sistemas de água e esgoto e as aberturas para a realização de projetos na área com a nova legislação aprovada em 2020 são o grande fator pelo qual o saneamento desponta como o setor foco para a realização de projetos nos próximos anos. Considerando esse cenário, é possível dizer que o uso de tecnologias no saneamento será fundamental para conseguirmos conter a escassez desse bem tão essencial em nosso planeta. E as empresas estão prontas para desenvolver projetos cada vez mais inovadores e necessários à sociedade. * Márcio Martin é Vice-Presidente Comercial, Soluções e Marketing para América Latina da green4T.

26 de setembro, 2022
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Artigo por Patrick Baudon Por Patrick Baudon * O saneamento básico é um dos principais assuntos relacionados ao desenvolvimento social e econômico do País e existe grande pressão de seu alinhamento com foco nos resultados ambientais, sociais e de governança (ESG). E, embora o setor ainda tenha um relativo atraso em evolução tecnológica quando comparado a outros setores da economia, a projeção é de que o saneamento receba nos próximos anos um montante de recursos em um ritmo nunca observado, aponta pesquisa realizada pela EY e a Abdib. A necessidade de investimentos rápidos e certeiros é puxada pelo Marco Legal do Saneamento Básico, que prevê redução do nível de perda de água de 51% para 33% até 2033. Além disso, atualmente apenas 55% da população brasileira é coberta com rede de esgoto e 84,1% com abastecimento de água por rede. Pelo Marco Legal, empresas do setor precisam atender 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgotos até 31 de dezembro de 2033. Outro ponto que traz uma revolução no setor é que, desde 2021, empresas privadas podem concorrer em leilões de concessões de empresas de saneamento, o que gera a necessidade de grandes investimentos para que exista uma governança completa em termos de sistemas e dados, e a possibilidade de escalonamento, já pensando na entrada de novas concessões na operação. Com isso, grandes investimentos serão feitos e a tecnologia será a habilitadora para atingir esses objetivos desafiadores. O uso da de tecnologias como Inteligência Artificial, Big Data e de dispositivos IoT (Internet das Coisas) entram como artifício fundamental na gestão de perdas, tanto técnicas quanto comerciais, e trazem a possibilidade de rastrear e coletar dados para apoiar na tomada de decisão, na predição de eventos, no combate aos vazamentos, nas falhas nos sistemas de medição e nas ligações clandestinas entre outros indicadores. Com a IA, é possível agilizar processos que antes demoravam de 30 a 45 dias para se gerar uma informação e, agora, passamos a tê-la em tempo real, assim como é possível obter insights preditivos de ações, como o volume de água que um bairro vai consumir em determinado horário para monitorar padrões suspeitos de consumo. Além de possibilitar uma gestão mais eficiente para as empresas de saneamento, a IA gera diversos ganhos como a economia direta em energia, que corresponde a 40% dos custos do tratamento de água, produtos químicos, uso de equipamentos, diminuição de atividades sobrepostas e melhor direcionamento de seus investimentos, entre outros aspectos. Já para o consumidor, o uso de tecnologias promove a melhoria no serviço prestado e no atendimento pelos canais de comunicação. É possível, por exemplo, desenvolver soluções que apoiem o usuário a ter mais entendimento da sua fatura, além de promover a autoleitura do seu consumo de água e fornecer informações sobre interrupções de fornecimento em sua região, entre outros serviços. Para atingir as metas do Novo Marco Legal, as empresas precisam reduzir o nível nacional de perdas de água, assim como se alinhar à agenda ESG e fazer uma gestão com visão globalizada. Estes desafios só serão possíveis com a mudança de gestão, objetivando a melhoria de processos e o investimento em infraestrutura e inovação. O investimento em tecnologia permitirá às empresas terem uma maior assertividade em todos esses processos, possibilitando uma tomada de decisão baseada em fatos e a melhoria contínua do atendimento ao cliente. * Patrick Baudon é Diretor comercial de Energy & Utilities da Engineering. companhia global de Tecnologia da Informação e consultoria especializada em Transformação Digital.

15 de fevereiro, 2022
Como empresas podem poupar energia em meio à crise hídrica
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Artigo por Leandro Solarenco Por Leandro Solarenco* Enfrentar uma crise hídrica em meio a uma recuperação econômica pós-pandemia é um grande desafio para as empresas. O governo aumentou pela terceira vez consecutiva as tarifas de energia para todo o país e, desta vez, cerca de mais 6,78%, alcançando R$ 17 a cada 100 kWh (quilowatt hora), o que implicará aumento prático de 17 centavos por kWh. Ainda hoje, muitos sistemas de climatização de grandes estruturas, como edifícios comerciais, hospitais, shoppings e afins, são efetuados por ar-condicionado com instalações, muitas vezes antigas ou sem meios eficientes de manutenção e operação. A maioria dessas máquinas ainda usa a água como meio de dissipação do calor, chegando a gastar 80% da água de todo o condomínio para fazer a troca de calor necessária para manter a temperatura menor. Felizmente já existe tecnologia capaz de reduzir o consumo de água e energia em até 50%, além de aumentar tanto a eficiência quanto o tempo de vida útil dos equipamentos de climatização. Para a redução do consumo água, a solução inteligente atua em três pilares: 1-Faz a medição online do consumo de água de torneiras e chuveiros e determina pontos de fuga; 2-controla a vazão de água para que seja agradável aos usuários e efetivo em relação ao uso, controlando a pressão de água; 3-utiliza sistema de ar-condicionado com mais inteligência, reduzindo o consumo com água. Já em relação à redução do consumo de energia, os sistemas inteligentes de ar-condicionado podem atuar nas seguintes frentes: 1-reduz o consumo de ar-condicionado em áreas não produtivas, mapeando pontos de fuga, como frestas de portas e janelas, evitando circulação de ar externo; 2-identifica baixa produtividade do aparelho por sujeira, obstrução ou defeitos técnicos. É comum encontrar crostas e entupimento na parte de trás da serpentina e isso reduz a eficiência da máquina, gerando até 30% a mais de gasto com energia. O mau cheiro é um dos sintomas mais comuns de identificação de sujeira. Outro fator é a má regulagem, que pode fazer o equipamento gastar energia e entregar pouco desempenho, elevando em até 40% o consumo; 3- elimina desperdício ligando apenas as máquinas suficientes para gerar temperatura adequada no ambiente. Muitas vezes, o sistema é projetado para funcionar considerando temperaturas extremas com a maior quantidade de pessoas. Isso gera gastos enormes e diminui a vida útil do aparelho. O ideal é usar um sistema inteligente que controla esse conforto térmico de acordo com a temperatura externa e a quantidade de pessoas, determinando a configuração de temperatura ambiente de acordo com cada tipo de negócio, automaticamente; 4-controla renovação de ar principalmente nesse momento da contaminação pela variante Delta do coronavírus, com taxa de transmissão maior. O sistema consegue projetar o funcionamento das máquinas inteligentes de acordo com a medição de CO2, temperatura e umidade do ar, baseado na quantidade de pessoas no ambiente e na condição externa do clima. Isso pode gerar até 25% de otimização. Também é importante substituir máquinas antigas por novas para aumentar a eficiência térmica com menos potência, gerando ainda mais economia. Por exemplo, uma máquina faz a modulação automática de ar, potencializando a troca de calor e pode ser interligada a sistema inteligente para gestão e eficiência ligando apenas quantidade de máquinas necessárias, garantindo temperatura com menor custo de energia. Portanto, o sistema inteligente de ar aliado a alguns cuidados básicos são essenciais para o momento atual e imprescindíveis nos próximos anos. * Leandro Solarenco é Engenheiro, especialista em projetos e master coach, CEO da Vetor Frio & Clima.

27 de setembro, 2021
Ciclo virtuoso do uso eficiente da água e da energia
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Artigo por Julio Molinari Por Julio Molinari * No último mês de junho, a Organização das Nações Unidas divulgou um relatório com alerta de que o aquecimento global está aumentando e pode fazer com que diversos lugares do planeta sofram com escassez de água e a seca. Para dar uma ideia mais concreta da criticidade da situação, Mami Mizutori, representante especial da ONU para redução de risco de desastres, alertou em entrevista que “a seca está prestes a se tornar a próxima pandemia e não existe vacina para curá-la”. O relatório da ONU traz números impactantes. Um deles é o de que secas causaram perdas econômicas de pelo menos US$ 124 bilhões e atingiram mais de 1,5 bilhão de pessoas entre 1998 e 2017. Além disso, cerca de 130 países podem enfrentar um risco maior de seca neste século, outras 23 nações correm riscos de ter escassez de água por causa do crescimento populacional e 38 países poderão ser afetados pelos dois problemas. Outras entidades trazem dados sobre este quadro. De acordo com o World Economic Outlook, pesquisa realizada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), a "crise da água" é classificada como o quinto maior risco que o mundo enfrentará nos próximos 10 anos. Além disso, estima-se que, em 2025, um terço da população mundial viverá em áreas de escassez e com problemas hídricos e que em cerca de metade de todos os estados-membros da União Europeia, mais de 20% da água potável é perdida devido a vazamentos. A preocupação com escassez de água no mundo não é uma questão nova, mas, como não poderia deixar de ser, segue recebendo muita atenção, ainda mais quando são divulgados dados como estes. Até mesmo em regiões onde a disponibilidade de água é maior, o assunto é muito sensível e relevante. Isso porque a falta de recursos hídricos poderia não apenas representar um gargalo para a rotina da população em termos de consumo, mas também comprometer o funcionamento das atividades econômicas se a matriz energética estiver baseada em usinas hidrelétricas. Este seria um cenário possível no Brasil, já que, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), 64,9% da energia elétrica gerada no País é hidráulica. Outro levantamento que a EPE mantém sobre consumo nacional de energia elétrica aponta que dentre os segmentos residencial, industrial, comercial e outros (rural, serviço público e iluminação pública), entre 1995 e 2018, a indústria sempre foi a que mais consumiu energia no Brasil. Neste contexto, a utilização de tecnologias já existentes, como equipamentos que controlam motores elétricos, se torna ainda mais estratégica e mesmo necessária. Um exemplo disso é a estimativa de redução em 8% do consumo de energia até 2040, com a adoção em larga escala de motores controlados por drives no setor industrial. Sendo a matriz energética brasileira baseada em geração hidrelétrica, fica claro que utilizar água e energia com mais eficiência não só indica um ciclo que se retroalimenta, mas também que é essencial para que a nossa economia possa produzir com a máxima competitividade possível. Isso porque, como se sabe, é mais dispendioso quando há necessidade de se aumentar o consumo de energia proveniente de termelétricas, repassando um custo operacional mais alto para o que é produzido e, portanto, para a população que consome. Outra situação que mostra um forte vínculo entre água e energia se dá justamente no setor de saneamento. A dependência mútua entre estes dois recursos e a crescente demanda global por eles têm um impacto enorme no crescimento econômico, na sustentabilidade global e no nosso futuro. Felizmente, já estão disponibilizadas a digitalização e tecnologias desenvolvidas para criar um setor de água neutro em energia, atuando em todos os estágios do ciclo da água, da produção e distribuição até o tratamento e bombeamento de efluentes. Um sistema de distribuição hídrica mais eficiente permite reduzir vazamentos de água automaticamente, o consumo energético e o desperdício. Dispor destas soluções é um trunfo muito importante ao se analisar números do setor. Ele é responsável por 4% do consumo energético global e acredita-se que esse número dobrará até 2040. Além disso, instalações de água e saneamento são as maiores consumidoras de energia de um município, representando de 30 a 50% da conta de eletricidade total das autoridades locais. Por fim, ao contornar o problema de escassez de água reduzindo o seu desperdício, um setor de saneamento neutro em energia também pode contribuir para reduzir as emissões de CO2 e, consequentemente, para evitar o agravamento das mudanças climáticas que, por sua vez, interferem nos ciclos de chuva e hídricos no mundo inteiro. Assim, vemos como, novamente, o uso eficiente de água e energia pode formar um ciclo virtuoso que se retroalimenta continuamente. * Julio Molinari é Presidente da Danfoss na América Latina

4 de agosto, 2021
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FONTES RENOVÁVEIS
As vantagens da integração de energias

O Brasil conta com uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com 83% de sua fonte advinda de energias renováveis. A hidrelétrica tem maior participação, com 63,8%, seguida pela eólica (9,3%), biomassa e biogás (8,9%) e solar centralizada (1,4%). Os dados são do Ministério de Minas e Energia. Segundo o relatório do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa), os três últimos tipos de geração de energia, somados, ultrapassam a geração de energia térmica a combustíveis fósseis. Como resultado, o Brasil tem alcançado uma diminuição da emissão de gases de efeito estufa (GEE) oriundos da geração de energia elétrica. Em 2019, o segmento reduziu em 5% essa emissão, com o avanço, principalmente, das energias eólicas e solar na matriz. Isso significa que existe uma oportunidade de crescimento para essas duas fontes. “As tecnologias solar e eólica se desenvolveram muito na última década, apresentando reduções de custos continuadas e tornando-se, naturalmente, competitivas em relação às fontes convencionais, como o gás natural e o carvão mineral”, avalia o engenheiro, físico e doutor em energia, Demóstenes Barbosa da Silva, presidente da BASE Energia Sustentável. A projeção é que a eólica pode responder por 11% da matriz elétrica em 2024, enquanto que a solar pode chegar a 2,4%. “Esses crescimentos podem se tornar vertiginosos assim que a economia brasileira voltar a crescer, pois os planos de expansão da oferta de energia no Brasil consideram essas duas fontes de energia como as mais vantajosas, tanto sob o ponto de vista econômico como no ambiental”, acrescentou. Contudo existem desafios, como a intermitência e a sazonalidade dessas duas fontes energéticas. Por outro lado, o mercado tem trazido tecnologias de armazenamento de energia por longo período. Um desses casos, por exemplo, é converter a energia em hidrogênio por meio da eletrólise de água, para ser armazenado e produzir eletricidade posteriormente. Pelo fato de o hidrogênio ser uma fonte limpa, não haveria emissões de GEE. O presidente da BASE Energia Sustentável recorda que a Agência Nacional de Energia Elétrica lançou, em 2016, a Chamada Pública 21 para projetos de Pesquisa & Desenvolvimento sobre a possibilidade de armazenamento no Brasil. “Os projetos aprovados para implantação estão próximos de suas conclusões e a expectativa é que, em 2021, sejam apresentadas várias respostas sobre como fazer armazenamento de energia em escala comercial no Brasil”, destaca. Uma estratégia para ampliar essa participação é a integração entre as energias renováveis, com o objetivo de ganhar eficiência e trazer benefícios ao meio ambiente, à economia e à vida das pessoas. “A diversidade de fontes energéticas renováveis abundantes e a evidente complementaridade entre suas características de sazonalidade e intermitência indicam um enorme potencial de aproveitamento sinérgico entre algumas delas, como a hidreletricidade e a solar”, explica Silva. Nesse sentido, seria possível operar duas plantas, uma hidrelétrica e outra solar, de forma conjugada, aumentando a energia garantida do conjunto, comparativamente ao modelo atual de operação, cuja otimização é feita no conjunto de todas as fontes conectadas no Sistema Interligado Nacional (SIN). Segundo o engenheiro, essa integração é perfeitamente viável, técnica e economicamente, e esses arranjos têm sido demonstrados em alguns projetos de empresas do setor. A integração pode ser feita aproveitando-se, por exemplo, áreas remanescentes da construção de barragens e reservatórios das usinas hidrelétricas, bem como áreas sobre as próprias superfícies dos reservatórios, para instalar-se plantas solares, sobre o solo e flutuantes. “A energia solar, que está invariavelmente disponível durante as horas de incidência solar durante o dia, pode ser priorizada para o atendimento da geração do conjunto formado com a hidrelétrica, enquanto se preserva água em seu reservatório, invertendo-se a prioridade nos períodos noturnos”, detalha o presidente da BASE Energia Sustentável. Desse modo, o armazenamento de energia resguarda o sistema ante a intermitência e, até mesmo, pode disponibilizar volumes maiores de energia a custos menores, uma vez que sob a forma de hidrogênio, essa energia pode ser armazenada a longos prazos. Por fim, Silva espera que, em futuro próximo, arranjos entre duas ou mais fontes de energia se tornem comuns no Brasil. Porém, será preciso, antes, vencer o desafio de se ter fabricantes aptos a fornecer equipamentos para implantar essa sinergia em larga escala.

13 de julho, 2020