ECONOMIA CIRCULAR

Reciclagem de veículos ganha escala com nova planta no Brasil

Reciclagem de veículos ganha escala com nova planta no Brasil

Com investimento de R$ 200 milhões, nova planta em Minas Gerais foca na logística reversa e no fornecimento de matéria-prima processada para o setor siderúrgico.

Anualmente, mais de 2,5 milhões de veículos leves entram em circulação. Como todo bem de consumo, eles possuem uma vida útil. Em um cenário industrial onde problemáticas como descarte correto e reaproveitamento de materiais são cada vez mais pertinentes, é urgente repensar como a indústria pode lidar com a gestão dos automóveis no fim de sua vida.

Nesse sentido, a gestão de Veículos em Fim de Vida (ELV, na sigla em inglês) no Brasil dá um passo importante em direção ao modelo de economia circular industrial com a inauguração da Igarapé Reciclagem (IGAR), na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O empreendimento, que demandou um aporte de R$ 200 milhões do Grupo SADA, surge como uma resposta técnica ao envelhecimento da frota nacional — cuja idade média já supera os 10 anos, segundo o Sindipeças — e à pressão por processos produtivos com menor pegada de carbono.

Diferente dos modelos convencionais de desmonte, que priorizam a revenda de peças usadas, a unidade foca no processamento de larga escala e na transformação de carcaças em insumo siderúrgico de alta qualidade. Com capacidade para processar até 300 mil veículos por ano, a planta utiliza um sistema de trituração (shredder) capaz de entregar entre 100 e 120 toneladas de sucata por hora.

O ponto de maior interesse ambiental da operação reside na parceria estratégica já firmada com a ArcelorMittal. A unidade funcionará como um entreposto de preparação de matéria-prima: ao transformar veículos em sucata metálica processada, o projeto oferece uma alternativa ao uso de minério de ferro na produção de aço.

Do ponto de vista técnico, a utilização de sucata metálica no forno siderúrgico reduz drasticamente o consumo de energia e a emissão de CO₂ em comparação à produção de aço virgem. Esse movimento alinha a operação ao Programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação) do governo federal, que incentiva a sustentabilidade em todo o ciclo de vida do produto automotivo.

A reciclagem de veículos exige etapas rigorosas de segregação de resíduos perigosos para evitar impacto ambiental:

  1. Neutralização: Retirada controlada de gases (ar-condicionado) e fluidos (freio, óleos) antes da trituração.
  2. Segregação Crítica: Extração de baterias, airbags e catalisadores (materiais de difícil manejo/metais pesados) para destinação especializada.
  3. Não-metálicos: Pneus e vidros são triturados e segregados na unidade, evitando aterros e permitindo a reinserção industrial.

A localização estratégica, anexa a um dos maiores pátios de veículos do país, indica uma mudança na lógica do setor: a reciclagem deixa de ser um subproduto do descarte e passa a ser integrada à logística automotiva.

Embora o setor de logística de veículos zero-quilômetro seja a origem do investimento, a criação de um "hub de reciclagem" sinaliza que a indústria brasileira está começando a fechar o ciclo de vida dos automóveis com o mesmo rigor técnico aplicado na linha de montagem. (Por Lucas Slater)

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