Rompimentos em série na Copasa expõem tensões no primeiro trimestre após privatização

Série de rompimentos em Belo Horizonte e região metropolitana reacende debate sobre privatização da Copasa. Empresa suspeita de sabotagem e alega problemas estruturais preexistentes à venda.
A sequência de rompimentos de tubulações registrada em Belo Horizonte e na Região Metropolitana entre agosto e setembro reacendeu o debate sobre os efeitos da privatização da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), concluída havia menos de três meses. Em pouco mais de três semanas, ao menos quatro rompimentos de adutoras e um vazamento de grandes proporções atingiram bairros de Belo Horizonte, Contagem e Nova Lima, deixando dezenas de milhares de pessoas sem abastecimento em diferentes momentos.
A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) levou ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) a hipótese de que a série de rompimentos de adutoras registrada em Belo Horizonte e na Região Metropolitana entre agosto e setembro tenha sido provocada de forma deliberada. A suspeita foi apresentada pela presidente da empresa, Marília Carvalho de Melo, em reunião realizada na segunda-feira (14) na sede da Unidade de Combate ao Crime e à Corrupção (UCC), na capital mineira, e se apoia em levantamentos preliminares conduzidos pela própria companhia.
A tese ainda não foi confirmada por nenhuma apuração oficial. Do outro lado, o sindicato dos trabalhadores da Copasa sustenta que as falhas são consequência de anos de redução de pessoal, terceirização e investimentos insuficientes em manutenção, em um processo que teria culminado na privatização concluída em junho.
A hipótese levada ao Ministério Público
Participaram do encontro o coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), promotor Giovani Avelar Oliveira, e o promotor Thiago Augusto Vale Lauria, da Coordenadoria Estadual de Investigação Criminal e Articulação Policial (Coeic), vinculada ao Centro de Apoio Operacional de Defesa da Segurança Pública. A Copasa se comprometeu a entregar ao MPMG todo o material reunido até agora. Com base nessa análise, o órgão poderá instaurar investigação criminal sobre os episódios.
Segundo a companhia, quatro rompimentos consecutivos em adutoras de grande porte, somados a danos ao sistema antiodor da Lagoa da Pampulha, podem ter origem intencional. Em nota, a empresa afirmou ter procurado a Procuradoria-Geral de Justiça por iniciativa própria, sobretudo depois do vandalismo na Pampulha, e se apresentou como a principal interessada na preservação de suas estruturas e na segurança do abastecimento. O objetivo, de acordo com a Copasa, é esclarecer se as ocorrências decorrem de fatores operacionais ou de interferência externa.
No sistema antiodor, localizado perto do Aeroporto da Pampulha, cabos foram furtados e peças essenciais foram danificadas, o que comprometeu o funcionamento do equipamento. A companhia situa o ataque em 4 de setembro; a constatação ocorreu em vistoria técnica no dia 8. A Polícia Civil abriu inquérito para identificar os autores.
Três semanas de falhas na rede
O primeiro e mais grave episódio ocorreu na madrugada de 19 de agosto, na Rua Xapuri, no bairro Nova Granada, região Oeste da capital. A água alagou vias, invadiu imóveis e provocou erosão na base de um sobrado onde viviam duas famílias, interditado pela Defesa Civil. O desabastecimento chegou a atingir cerca de 120 mil imóveis, e no início de setembro ainda havia perto de 44 mil casas sem água nas regiões Oeste e Barreiro. À época, a Copasa atribuiu a demora no reparo à ocupação irregular sobre a faixa da adutora, o que obrigou a companhia a construir uma nova tubulação. A interligação do primeiro trecho só foi concluída em 5 de setembro.
Em 1º de setembro, uma tubulação se rompeu dentro da Estação de Tratamento de Água do Barreiro e derrubou parte de um muro, com escolas suspendendo atividades por falta de água. Dias depois, uma rede de distribuição estourou no bairro Cidade Nova, na região Nordeste. Na madrugada do feriado de 7 de setembro, uma nova adutora se rompeu no bairro Milionários, no Barreiro, abrindo uma cratera e comprometendo o abastecimento de 65 bairros. No dia seguinte, um vazamento em rede de 300 milímetros às margens da BR-040, no bairro Kennedy, em Contagem, lançou água sobre a rodovia e deixou cerca de 2.600 clientes de 13 bairros sem fornecimento.
No início de setembro, o prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião, cobrou publicamente uma solução, afirmando que moradores da região Oeste enfrentavam falta de água havia ao menos 12 dias. A Agência Reguladora de Saneamento e Energia de Minas Gerais (Arsae-MG) informou ter feito fiscalização emergencial entre 19 de agosto e 3 de setembro, depois do aumento das reclamações. Além do rompimento na Rua Xapuri, a agência identificou manutenções programadas ligadas a intervenções da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade e da Cemig entre os fatores com potencial de afetar o abastecimento naquelas regiões.
Da explicação técnica à suspeita de crime
A hipótese de sabotagem surgiu menos de uma semana depois de a Copasa ter oferecido uma explicação de natureza operacional. Em nota de 8 de setembro, a companhia afirmou que as ocorrências estavam dentro dos patamares esperados para uma rede de seu porte, que cada episódio tinha causa técnica específica e que não havia aumento generalizado de falhas.
Na ocasião, a empresa informou operar mais de 65 milhões de metros de redes subterrâneas no estado, cerca de 20 milhões deles na Região Metropolitana, parte com mais de seis décadas de uso. Citou ainda diferenças de altitude de até 400 metros na Grande BH, que exigem bombeamento contínuo e controle rigoroso de pressão. A companhia também relacionou parte dos episódios ao frio: as baixas temperaturas provocam retração dos materiais, deixando as tubulações mais rígidas e sujeitas a trincas, enquanto a queda no consumo eleva a pressão interna e força pontos mais frágeis. Segundo a Copasa, são realizadas em média cerca de 130 intervenções diárias em vazamentos de pequeno e grande porte.
O que diz o Sindágua
O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Estado de Minas Gerais (Sindágua-MG) divulgou nota em que atribui a sequência de ocorrências a problemas estruturais denunciados antes mesmo da venda da companhia. Para a entidade, os rompimentos em série “refletem diretamente a falta de investimentos estruturais no sistema”, somada a graves falhas de gestão nos processos de manutenção.
A nota sustenta que a privatização completa um processo deliberado de sucateamento da Copasa, iniciado em 2019 no governo Romeu Zema (Novo) e mantido na gestão de Mateus Simões (PSD), com prioridade à remuneração de acionistas e ao corte de custos em detrimento dos investimentos em manutenção. O sindicato acusa a administração de afastar de forma sistemática profissionais concursados e qualificados, substituindo-os por terceirização precária, e afirma que tratar a água como mercadoria repete um modelo que fracassou em outros países, citando mais de 800 casos de reestatização de serviços de água e esgoto em 38 nações, entre elas Alemanha e França.
O presidente do Sindágua-MG, Milton Costa, detalhou os números por trás da crítica. Segundo o sindicato, o quadro próprio da companhia caiu de cerca de 12,5 mil empregados em 2019 para aproximadamente 9,5 mil hoje, com saída de profissionais experientes sem reposição. Costa afirma que a situação se agravou com a transferência de técnicos das atividades de campo para estações de tratamento de água e esgoto e com a terceirização de tarefas antes executadas por funcionários da própria Copasa.
Para o dirigente, “a empresa vai perdendo gradativamente sua capacidade de executar, acompanhar, fiscalizar e planejar” atividades essenciais. Na avaliação de Costa, menos pessoal próprio significa menos conhecimento acumulado sobre as particularidades da rede, e a terceirização reduz o controle direto sobre a execução dos serviços, o que aumenta a vulnerabilidade da operação. Ele descreve uma relação estrutural indireta entre esse cenário e a privatização.
O sindicato já havia levado à Assembleia Legislativa, em julho, denúncias de transferências compulsórias. Segundo a entidade, cerca de 3 mil empregados, aproximadamente um terço do quadro, estariam sendo removidos para outras unidades, em alguns casos a quase 900 quilômetros de distância, o que, na visão dos trabalhadores, serviria para pressionar pedidos de demissão e contornar a estabilidade de 18 meses prevista na lei que autorizou a privatização. Até a publicação desta reportagem, o Sindágua não havia se manifestado publicamente sobre a hipótese de sabotagem levantada pela companhia.
A resposta da Copasa ao sindicato
A Copasa afirma respeitar as manifestações de parlamentares e sindicatos e considera legítimo o debate sobre a prestação dos serviços, mas nega ter promovido corte deliberado de pessoal que reduzisse sua capacidade operacional. Segundo a empresa, o Projeto Gestão Competitiva revisou a estrutura organizacional e o dimensionamento da força de trabalho, própria e terceirizada, com apoio de consultoria especializada e levando em conta a demanda e a complexidade de cada atividade e localidade. As transferências, de acordo com a companhia, fazem parte de uma reestruturação planejada desde 2024 com base em estudos técnicos.
A companhia também rejeita a ligação entre a redução do quadro próprio e os rompimentos, argumentando que cada ocorrência tem causas técnicas próprias e deve ser apurada individualmente, e informa manter equipes de plantão 24 horas. A presidente Marília Carvalho de Melo declarou não haver relação entre a mudança societária e os problemas registrados.
Para rebater a acusação de desinvestimento, a Copasa diz ter aplicado cerca de R$ 350 milhões na modernização do sistema de Belo Horizonte nos últimos cinco anos, média de R$ 70 milhões por ano. Os recursos teriam permitido a substituição de aproximadamente 50 quilômetros de redes por método não destrutivo, o reforço e a implantação de cerca de 15 quilômetros de adutoras, a instalação de perto de 47 quilômetros de redes de distribuição e o acréscimo de aproximadamente 2 mil metros cúbicos na capacidade de reservação. Somente no primeiro semestre de 2026, a companhia afirma ter investido cerca de R$ 1,5 bilhão no estado.
Governo e regulador acompanham
O governo de Minas informou acompanhar os desdobramentos das informações apresentadas pela Copasa às autoridades. Segundo o Executivo, a Arsae-MG monitora as ocorrências desde o início, com vistorias nos locais afetados e acompanhamento da normalização do abastecimento. O governo afirma que eventual ação criminosa deverá ser apurada pelos órgãos competentes e que novas informações serão divulgadas conforme o avanço das investigações.
Privatização recente e contratos em jogo
A crise ocorre três meses após o fim do controle estatal. A desestatização foi concluída em 16 de junho, com a liquidação da oferta subsequente de ações na B3. A Equatorial Energia, por meio da Gerais Saneamento, tornou-se investidora de referência ao adquirir 30% do capital por R$ 5,59 bilhões, a R$ 49,03 por ação, prêmio de 3,8% sobre o preço mínimo de R$ 47,23. Somadas as duas etapas, a operação movimentou cerca de R$ 8,4 bilhões, a segunda maior privatização de saneamento feita em bolsa no país, atrás da Sabesp. A participação do Estado caiu de 50,03% para 5,03% das ações ordinárias, e a companhia passou a operar como corporation, sem controlador definido.
O processo continua sendo contestado. O Sindágua apresentou embargos ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) contra a decisão que aprovou sem restrições a entrada da Equatorial, depois que o tribunal do órgão rejeitou, em 5 de agosto, recurso da entidade. Ao mesmo tempo, o governo estadual fixou 28 de setembro como prazo para que os municípios assinem os novos contratos com a companhia, que podem se estender até 2073. O governador Mateus Simões, candidato à reeleição, tem pressionado prefeitos a aderir, alertando que cidades fora do novo modelo podem ter dificuldade para garantir os serviços de água e esgoto.
Até que o Ministério Público conclua a análise do material entregue pela Copasa, as duas versões seguem em disputa: a da empresa, que enxerga indícios de ação deliberada contra sua infraestrutura, e a dos trabalhadores, que veem nos rompimentos o reflexo de uma rede envelhecida operada por equipes cada vez menores.












