Publicidade
ENERGIA

Bioeletricidade da cana abastece 300 mil residências na Paraíba

Bioeletricidade da cana abastece 300 mil residências na Paraíba

Usinas sucroenergéticas da Paraíba geram 102 MW de bioeletricidade a partir do bagaço de cana, abastecendo 300 mil residências. O setor projeta expansão de 25% até 2030 e contribui significativamente para economia e sustentabilidade estadual.

Além da energia solar e eólica, a Paraíba vem ampliando outra fonte renovável com uma característica que as duas anteriores não oferecem: a bioeletricidade gerada a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar. Diferentemente das fontes que dependem das condições climáticas, a bioeletricidade é considerada uma fonte firme e despachável — pode ser gerada de forma contínua e acionada conforme a necessidade do sistema, contribuindo diretamente para a segurança e a estabilidade do fornecimento de energia.

Atualmente, as usinas sucroenergéticas associadas ao Sindicato da Indústria de Fabricação de Álcool no Estado da Paraíba (Sindalcool) somam cerca de 102 MW de capacidade instalada em bioeletricidade, o que representa aproximadamente 2% do consumo elétrico estadual — suficiente para abastecer cerca de 300 mil residências. O volume posiciona a Paraíba como polo relevante na produção de bioenergia no Nordeste.

A produção está concentrada na Zona da Mata paraibana, onde operam as usinas Giasa II, Japungu, Monte Alegre, Tabu e Miriri. Essas unidades aproveitam integralmente os resíduos da cana: cada tonelada processada gera cerca de 280 kg de bagaço, biomassa que alimenta o ciclo de cogeração de energia elétrica e térmica.

Impacto econômico e desafios da safra

O setor sucroenergético paraibano vai muito além da geração de energia. As usinas associadas ao Sindalcool geram cerca de 20 mil empregos diretos e aproximadamente 60 mil indiretos em mais de 30 municípios, respondendo por cerca de 3% do PIB da Paraíba e movimentando aproximadamente R$ 1,5 bilhão por ano.

A integração entre indústria e produtores rurais é um traço marcante do setor no estado. Na safra 2025/2026, as usinas moeram 4,81 milhões de toneladas de cana, das quais 69% tiveram origem em fornecedores terceiros. A safra, porém, enfrentou adversidades: a moagem caiu pouco mais de 7% e a produção de açúcar recuou cerca de 24%, reflexo de um ciclo climático irregular que combinou seca nas fases iniciais do canavial com chuvas excessivas durante a colheita. Diante desse cenário, as usinas redirecionaram mais cana para a produção de etanol anidro, que conta com demanda garantida pela mistura obrigatória na gasolina. O Decreto Estadual nº 47.764/2025 reforçou essa estratégia ao instituir incentivo de ICMS para o AEAC no estado.
Contribuição ambiental

A bioeletricidade contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa ao substituir fontes fósseis. Dados do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR/CNPEM) mostram que, enquanto o gás natural emite 551 g de CO₂ equivalente por kWh gerado, a biomassa de cana emite apenas 69 g CO₂ eq — uma diferença de 482 g por kWh produzido.
Em paralelo, o uso do etanol produzido no estado evitou a emissão de cerca de 505 mil toneladas de CO₂ em 2025, reforçando o papel do setor na transição energética.

Retrofit: o caminho para a expansão

A projeção do Sindalcool é de expansão de até 25% na capacidade instalada até 2030, podendo alcançar cerca de 127 MW. Boa parte desse avanço depende do retrofit de caldeiras e turbinas já existentes nas usinas — a rota mais eficiente para ampliar a geração sem necessidade de novas plantas.
O processo envolve a substituição de caldeiras antigas de baixa pressão (21 bar) por equipamentos de alta pressão (65, 90 ou 100 bar), aumentando o volume de vapor gerado por tonelada de cana. A modernização das turbinas de contrapressão também permite maior conversão em energia elétrica, tanto para consumo próprio da usina quanto para exportação à rede. A transição tecnológica pode dobrar a geração de eletricidade a partir do bagaço, com a produção podendo superar 98 kWh por tonelada de cana processada em caldeiras de 100 bar.

"As usinas geram energia e empregos, contudo, a remuneração do megawatt é considerada muito baixa, em vista dos custos de produção. Outras formas de geração termelétricas têm volume de emissões de gases de efeito estufa elevado. A cogeração de energia baseada no bagaço e palha de cana-de-açúcar é uma tecnologia consolidada no Brasil, essencial para a bioeletricidade. Quando você abastece com etanol, está também contribuindo para a geração de energia elétrica do bagaço", destaca Edmundo Barbosa, presidente-executivo do Sindalcool.

Bioeletricidade no cenário nacional

O contexto da Paraíba se insere num cenário nacional de protagonismo crescente da biomassa. O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com cerca de 85% da capacidade instalada proveniente de fontes renováveis. A biomassa totaliza 17.856 MW instalados no país — a 4ª fonte da matriz elétrica — e a cana-de-açúcar responde por cerca de 12.700 MW desse total, com 428 unidades em operação, uma capacidade superior à da usina hidrelétrica de Belo Monte (11.233 MW).

Um diferencial estratégico da bioeletricidade da cana é a complementaridade sazonal: a geração se concentra entre maio e novembro, justamente o período seco e crítico do sistema elétrico brasileiro, quando os reservatórios das hidrelétricas estão em seus níveis mais baixos. Segundo a Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen), a bioeletricidade da cana ajuda a poupar até 14 pontos percentuais do nível dos reservatórios do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, onde está o principal mercado consumidor do país.

Em 2023, a geração de bioeletricidade para a rede nacional bateu recorde, com 29.285 GWh — volume equivalente a abastecer toda a região Centro-Oeste por mais de oito meses ou a atender o consumo de 10,8 milhões de residências. A biomassa da cana representou cerca de 75% desse total.
Para o setor, no entanto, há gargalos a superar. A reivindicação é por maior remuneração pela energia gerada, participação em leilões de reserva de capacidade com reconhecimento dos atributos ambientais e geoelétricos da bioeletricidade, e renovação de contratos que vêm vencendo desde 2023.

Fonte: Sindalcool

Artigos Relacionados

Saneamento Ambiental Logo
EMISSÕES
Etanol evita 515 milhões t de CO2

Com base na Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), a União da Indústria de Cana de Açúcar (UNICA) afirma que, entre março de 2003 (lançamento da tecnologia flex) e maio de 2020, o consumo de etanol anidro e hidratado no Brasil evitou a emissão de mais de 515 milhões de toneladas de CO2 – volume equivalente às emissões anuais somadas de Argentina, Venezuela, Chile, Colômbia, Uruguai e Paraguai. Para se chegar a esse número, a área técnica da UNICA usou como base o cálculo fornecido pela RenovaCalc – calculadora que determina a eficiência energética do processo produtivo no âmbito do RenovaBio – com os parâmetros delimitados pela ANP para uma usina típica brasileira. “A comemoração do Dia Mundial do Meio Ambiente em meio à pandemia da COVID-19 tornou-se um momento de analisar as ações humanas e seus reflexos nos ecossistemas. Muito se debate sobre revisão de condutas, mudança de hábitos e a sociedade que queremos quando tudo isso acabar. No Brasil, como em nenhuma parte do mundo, temos a construção sólida de uma indústria de combustíveis renováveis, podendo dar essa significativa contribuição de redução de gases de efeito estufa para o mundo”, analisa Evandro Gussi, presidente da UNICA. O ciclo de vida completo do etanol proporciona redução de até 90% na emissão de GEE em relação à gasolina e, quando comparado com a gasolina e o diesel, praticamente zera a dispersão de material particulado e reduz significativamente a emissão de vários poluentes, como os óxidos de enxofre. “O Brasil tem dado contribuições significativas, pois, apesar de ter uma matriz energética com 45% de fontes renováveis, tem políticas já estabelecidas para ampliar essa participação, como o RenovaBio”, explica Gussi. A cana-de-açúcar responde por 17,4% de toda a oferta primária de energia no País, levando em conta etanol e bioeletricidade. Além do aquecimento global, a poluição do ar é uma das grandes vilãs da saúde pública em megalópoles, relacionada com 4,2 milhões de mortes ao ano no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estudo de Harvard concluiu que o aumento de apenas 1% na concentração de material particulado fino (MP 2.5) no ar resulta em um incremento de 8% das mortes pela COVID-19. As medidas de restrição de circulação adotadas por causa da COVID-19 provocaram redução de poluentes e a melhoria da qualidade do ar de cidades notoriamente poluídas, como Nova Déli, na Índia, que viu o MP 2.5 cair 60%, ficando em 32,8 µg/m³, segundo o iQAir. Na Região Metropolitana de São Paulo, a média de 17 µg/m³ de MP 2.5, registrada em 2019, caiu para 13 µg/m³ nos primeiros cinco meses de 2020, segundo dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). Os índices estão dentro do recomendado pela OMS, de 20 µg/m³ de MP 2.5. “Apesar de ser uma megalópole, São Paulo desfruta de melhor qualidade do ar do que outras capitais, graças ao uso de biocombustíveis, o que tem reflexos diretos na saúde da população. No futuro, podemos ampliar esses benefícios para outras capitais e países”, prevê Gussi.

8 de junho, 2020
Saneamento Ambiental Logo
BIOELETRICIDADE
Mercado Livre beneficia consumidor

Com a implementação do programa RenovaBio, o Governo Federal pretende fomentar a produção de biocombustíveis e promover a bioeletricidade, uma fonte de energia limpa, de origem da biomassa da cana-de-açúcar, restos de madeira, carvão vegetal, casca de arroz e outras. No último ano, a bioeletricidade fornecida ao Sistema Interligado Nacional (SIN) teve origem em 82% do setor sucroenergético. Em capacidade instalada, a bioeletricidade sucroenergética é a 4ª fonte de geração mais importante da matriz brasileira, atrás da fonte hídrica, das termelétricas a gás natural e das eólicas. A comercialização da bioeletricidade é feita com a celebração de contratos de compra e venda no ambiente de contratação regulada (ACR) e no ambiente de contratação livre (ACL). De toda a energia consumida no Brasil, 30% do montante foram no Mercado Livre, sendo que em fevereiro deste ano, 80% do consumo industrial foram atendidos pelo Mercado Livre. Com a modernização do setor, a abertura de mercado beneficiará o consumidor que poderá optar pelo melhor fornecedor de energia e àquele que atenda suas necessidades, além de expandir as formas de produção de energia, priorizando eficiência energética, fontes renováveis e melhor aproveitamento, estimulando novos projetos de bioeletricidade. Por enquanto, o potencial de bioeletricidade aproveitado é de apenas 15%. Se houvesse melhor aproveitamento da biomassa dos canaviais, a bioeletricidade teria potencial técnico para chegar a 146 mil GWh, o que representa quase sete vezes o volume a ser ofertado neste ano, ou seja, atendimento de mais 30% do consumo de energia do mercado brasileiro.

23 de agosto, 2019
Saneamento Ambiental Logo
SÃO PAULO
Cesp investe em biogás

A Companhia Energética de São Paulo (Cesp), empresa vinculada à Secretaria Estadual de Energia e Mineração, lançou projeto de P&D para implantar uma unidade de geração a biogás no campus da Unesp em Jaboticabal, além da produção de um Atlas Estadual da Bioenergia e uma modelagem para a comercialização da energia gerada. A empresa investirá R$ 3,9 milhões no projeto, que tem ainda a participação na produção das pesquisas a USP e a Unesp, além do apoio da Secretaria de Energia e Mineração. “Estamos fazendo com que a universidade, com apoio da Cesp, leve a prática das diversas formas de uso das energias renováveis ao mercado. É preciso que se garanta energia para o futuro, por isso temos que trabalhar intensamente para incentivar novas fontes e essa parceria indicará caminhos a serem seguidos“, destacou o secretário de Energia e Mineração do Estado de São Paulo, João Carlos Meirelles. Será instalada na Faculdade de Ciências Agronômicas e Veterinárias da Unesp, em Jaboticabal, uma planta de geração a biogás com alimentação a partir de biodigestor anaeróbio. O campus foi escolhido por contar com dejetos animais e uma plantação de batata doce, que servirá como insumo experimental, além de vinhaça proveniente de plantas de cogeração de grande porte localizadas próximo à faculdade. O projeto de P&D da Cesp produzirá o Atlas de Bioenergia do Estado de São Paulo. Serão produzidos mapas temáticos que apresentarão o potencial da biomassa e a respectiva capacidade de geração elétrica e a produção de biogás, de cada biomassa analisada (resíduos da agricultura, agroindústria, silvicultura, resíduos sólidos urbanos, dejetos animais e esgoto). São Paulo tem potência instalada de 5,7 GW de biomassa de cana-de-açúcar. “Será fundamental identificar o potencial paulista em outras biomassas como resíduos sólidos, cavaco de madeira, vinhaça, entre outros. Isso dará um novo horizonte para o setor energético paulista”, destaca o subsecretário de Energias Renováveis, Antonio Celso de Abreu Junior. Para o cálculo do potencial e sua representação nos mapas serão consideradas a infraestrutura disponível com rodovias, hidrovias, ferrovias, linhas de transmissão, redes de transporte e distribuição de gás canalizado.

2 de março, 2018