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TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

Suape Energia implanta primeira termelétrica movida a etanol em Pernambuco

Suape Energia implanta primeira termelétrica movida a etanol em Pernambuco

Motor pioneiro da parceria com a finlandesa Wärtsilä inicia em junho uma fase de 4 mil horas de testes; projeto de R$ 60 milhões mira viabilizar geração térmica renovável e complementar a intermitência de solar e eólica

A Suape Energia realizou em 28 de maio a cerimônia de finalização da implantação do Projeto Etanol, iniciativa pioneira que contempla o primeiro motor do mundo movido quase exclusivamente a etanol voltado à geração térmica de energia em larga escala. Desenvolvido em parceria com a Wärtsilä Energy, o projeto representa um avanço estratégico para a transição energética brasileira e posiciona Pernambuco e o Brasil no centro das discussões sobre inovação, descarbonização e segurança energética.

Instalado na UTE Suape II, em Cabo de Santo Agostinho, a cerca de 40 km do Recife, o equipamento deve iniciar a fase operacional em junho. O motogerador tem 4 MW de potência e será abastecido com uma mistura de aproximadamente 97% de etanol e 3% de biodiesel. Durante a etapa de validação, o motor passará por cerca de 4.000 horas de testes de desempenho e eficiência — o equivalente a aproximadamente cinco meses e meio de operação contínua — período em que poderá gerar energia suficiente para abastecer cerca de 16,5 mil residências, consumindo em torno de 6 milhões de litros de combustível.

Um investimento de R$ 60 milhões e tecnologia inédita

O Projeto Etanol envolveu um investimento inicial de R$ 60 milhões. A Wärtsilä, multinacional finlandesa que adaptou o motor (da família W32) para operar com o biocombustível brasileiro, forneceu cerca de metade dos equipamentos, enquanto a Suape Energia assumiu os custos de montagem e infraestrutura. Embora a fabricante já tivesse realizado testes laboratoriais com combustíveis alternativos como metanol, amônia e hidrogênio, esta é a primeira vez que uma usina termelétrica movida a etanol entra em operação em ambiente real.

O projeto nasceu de uma provocação. Segundo José Faustino Cândido, diretor técnico da Suape Energia, executivos da empresa visitaram a Finlândia em 2024 para conhecer alternativas energéticas de baixo carbono. "Durante as discussões sobre motores movidos a metanol, amônia e outros combustíveis, surgiu a provocação: por que não utilizar etanol no Brasil, um dos maiores produtores mundiais do biocombustível?", relembrou o diretor.

"Não temos dúvida de que o motor a etanol já é uma realidade. Nosso objetivo agora é realizar os testes, validar a geração de energia com ele, demonstrar sua viabilidade econômico-financeira e trabalhar pela sua consolidação como uma solução estratégica", afirmou Cândido durante a cerimônia.

Desempenho e ganhos ambientais

Os primeiros resultados indicam eficiência térmica em torno de 42% a 44%, ligeiramente abaixo dos motores a óleo combustível ou diesel, que alcançam de 46% a 48%. A diferença, contudo, é compensada pelos ganhos ambientais e pelo custo do combustível.

De acordo com Adriano Marcolino, gerente-geral de Contratos & Upgrades da Wärtsilä Energy, uma usina movida a etanol emitiria cerca de 80% menos gases de efeito estufa do que uma planta abastecida com óleo combustível, com reduções significativas também de dióxido de enxofre, óxido nitroso e material particulado. Em comparação com motores a diesel, as emissões de CO₂ podem cair a cerca de 10% do nível original.

Complemento à intermitência das renováveis

A iniciativa ganha relevância no contexto da crescente participação das fontes solar e eólica na matriz elétrica brasileira. Por operarem de forma intermitente, essas fontes demandam soluções de geração firme — capazes de fornecer energia de forma contínua e despachável — para garantir a estabilidade do sistema. Tradicionalmente, esse papel cabe às termelétricas a combustíveis fósseis.

"Para suprir a intermitência das fontes renováveis, uma usina a etanol vem com uma complementaridade perfeita", destacou Marcolino. Ele acrescenta que parte da reserva técnica das produtoras brasileiras de etanol seria suficiente para atender à demanda nos períodos de acionamento das térmicas, sem pressionar a produção de alimentos: "Você não teria que plantar mais ou tirar terra de outras produções."

Outro benefício apontado é logístico. O transporte do etanol depende apenas de caminhões, dispensando dutos, o que permitiria instalar usinas no interior do país e estocar combustível junto às plantas. "Colocar pequenas centrais a etanol perto da carga vai ajudar muito o Operador Nacional do Sistema Elétrico a desafogar os grandes centros em linha de transmissão", observou o executivo da Wärtsilä.

A estratégia também mira o crescimento da demanda por energia firme e limpa impulsionado pela expansão dos data centers no Brasil.

Potencial de expansão para 600 MW

A UTE Suape II opera desde 2012 e conta atualmente com 17 motores movidos a óleo combustível, totalizando uma potência instalada de cerca de 381 MW — uma das maiores termelétricas a óleo combustível do país. O novo motor a etanol funciona, neste momento, como um laboratório de testes em escala real, sem alterar a operação das demais unidades.

A meta da empresa é expandir a geração com etanol para até 600 MW nos próximos anos, capacidade suficiente para abastecer cerca de 2,4 milhões de residências. A concretização dessa expansão, no entanto, depende do êxito nos testes de desempenho e da habilitação da usina em futuros leilões de capacidade. A usina está contratada para operar até o fim de 2026, sendo acionada conforme a necessidade do sistema.

A composição societária do empreendimento reúne a Savana Holding (Grupo 4M), com 80% de participação, e a Petrobras, com os 20% restantes, atuando também como uma das financiadoras. A Wärtsilä não detém participação acionária, atuando como fornecedora da tecnologia e parceira no projeto de testes.

Articulação entre os setores energético e sucroenergético

Além dos ganhos de inovação e descarbonização, o projeto reforça o potencial de integração entre os setores energético e sucroenergético, ampliando oportunidades para a indústria nacional e o desenvolvimento regional.

"Estamos diante de um marco para a transição energética brasileira. O desenvolvimento do primeiro motor do mundo movido quase exclusivamente a etanol para geração termelétrica reforça o papel do Complexo Industrial Portuário de Suape na construção de soluções energéticas mais limpas e sustentáveis. A iniciativa fortalece o Hub de Transição Energética do complexo, consolidando Suape como ambiente estratégico para inovação e descarbonização", declarou o diretor-presidente de Suape, Armando Monteiro Bisneto.

Para Giane Ferreira Moreira, diretora administrativa e representante da Petrobras (acionista minoritária), o desafio está em difundir as vantagens da tecnologia. "O desafio não está na produção ou na logística, pois nisso o Brasil já é referência, mas em tornar cada vez mais conhecidas as vantagens da geração elétrica a etanol como uma energia limpa, estável, de baixo impacto ambiental e grande contribuição para a geração de empregos, desenvolvimento econômico e independência energética do país", pontuou.

O evento reuniu representantes do setor sucroalcooleiro, autoridades públicas, integrantes do Governo de Pernambuco, do Porto de Suape e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), além de executivos e especialistas do setor elétrico. Entre os presentes estavam Guilherme Sá, secretário-executivo de Energia de Pernambuco; Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar; e Reive Barros, especialista do setor elétrico.

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