AGRICULTURA

Brasil perdeu 1,4 bilhão de toneladas de carbono em biomas

Brasil perdeu 1,4 bilhão de toneladas de carbono em biomas

A boa notícia é a estimativa dos pesquisadores de que “recarbonizar” cerca de um terço da área agrícola do país já seria suficiente para alcançar a Contribuição Nacionalmente Determinada.

O estudo realizado no âmbito do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado na Esalq-USP e coordenado por Carlos Eduardo Pellegrino Cerri foi publicado na revista Nature Communications por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), da Embrapa Agricultura Digital e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). O levantamento uma perda de mostrou 1,4 bilhão de toneladas de carbono do solo de biomas brasileiros em áreas de agricultura. Essa quantidade, calculada com base em dados coletados por estudos realizados nos últimos 30 anos, equivale à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, unidade de medida usada para padronizar a emissão de diferentes gases de efeito estufa.

A boa notícia é a estimativa dos pesquisadores de que “recarbonizar” cerca de um terço da área agrícola do país já seria suficiente para alcançar a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) do Brasil no Acordo de Paris, que tem como meta a redução de 59% a 67% das emissões de gases de efeito estufa (em relação a 2005) até 2035. A meta, em teoria, poderia ser alcançada utilizando técnicas sustentáveis, como rotação de cultura, plantio direto e sistemas integrados como ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta). Outro potencial se dá na reforma de pastos degradados, que somam 20 milhões de hectares apenas na Mata Atlântica. “O objetivo principal desse trabalho era estimar a dívida de carbono dos solos do Brasil. Além de chegar a esse número geral, calculamos quanto cada bioma acumula e quanto perde de carbono quando uma área natural é convertida em agricultura, além de quais práticas agrícolas conservam mais e menos carbono no solo”, resume João Marcos Villela, primeiro autor do estudo e pesquisador na Esalq-USP apoiado pela FAPESP.

As estimativas foram realizadas a partir da análise do maior banco de dados sobre carbono dos solos do Brasil, agrupado pelos pesquisadores e que reuniu 4.290 registros provenientes de 372 estudos publicados nos últimos 30 anos. Foram contemplados todos os biomas brasileiros e tantas áreas de vegetação natural quanto de agricultura. A expectativa dos pesquisadores é que os resultados do estudo ajudem a guiar políticas públicas e ações da iniciativa privada, tanto para direcionar práticas sustentáveis nas lavouras quanto para subsidiar o mercado de créditos de carbono com dados sobre os estoques brasileiros.

Para realizar cálculos de emissões de gases de efeito estufa, usa-se a métrica CO2 equivalente, a fim de padronizar diferentes gases em uma só unidade de medida. Neste caso, a quantidade aferida de carbono é multiplicada por 3,66, daí a diferença entre o 1,4 bilhão de toneladas de carbono e os 5,2 bilhões de dióxido de carbono equivalente. No estudo, a Mata Atlântica apresentou o maior acúmulo de carbono no solo em sua vegetação natural e em áreas de agricultura. Caatinga e Pantanal foram os que tiveram os menores estoques entre as medições realizadas. Os pesquisadores consideraram o carbono presente em quatro camadas de solo normalmente analisadas nesse tipo de estudo, 0 a 10 centímetros (cm), 0 a 20 cm, 0 a 30 cm e 0 a 100 cm. Na camada mais superficial, os estoques das áreas de vegetação nativa da Mata Atlântica foram 86% maiores do que na Caatinga e 36% maiores do que no Cerrado. Em áreas de agricultura, a Mata Atlântica superou Pantanal e Caatinga em 154% e 62%, respectivamente.

A grande quantidade de dados permitiu ainda estimar os tipos de conversão que mais retiram carbono do solo em cada bioma e quanto a transição da monocultura para outras práticas agrícolas pode aumentar o carbono estocado nos seis biomas analisados. Enquanto transformar vegetação nativa em monocultura na Mata Atlântica gera uma perda de 33% do carbono do solo, a mesma conversão no Cerrado causa um déficit de 15,8%. Por sua vez, converter uma área de monocultura em um sistema integrado no Cerrado gera um ganho de 15,3% de carbono no solo. Na Amazônia, estima-se que fazer a transição da monocultura para a rotação de culturas, ou para o cultivo de mais de uma cultura em consórcio, gera um incremento potencial de carbono de 14,1%. “Estes são potenciais teóricos, que ainda dependem de mais estudos para sabermos se podem se concretizar ou não. No entanto, agora temos uma base que nos dá boas perspectivas para a aplicação em novos estudos e mesmo em políticas públicas e no mercado de créditos de carbono no Brasil, ainda incipiente”, conclui Villela.

Em dezembro de 2025, a Shell, a Petrobras e o CCARBON lançaram o Carbon Countdown, que será o maior banco de dados de estoques de carbono do Brasil. Com metodologia padronizada, o projeto vai coletar e medir amostras em todo o país, a fim de refinar os resultados obtidos no estudo publicado agora. Outro centro que apoiou o estudo foi o Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI), um Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) sediado na USP e financiado pela FAPESP e pela Shell. O trabalho teve apoio da Fundação ainda por meio de Bolsa de Pós-Doutorado para Júnior Melo Damian na Embrapa Agricultura Digital, em Campinas. O artigo Soil carbon debt from land use change in Brazil pode ser lido em https://www.nature.com/articles/s41467-026-68340-4.

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