RESÍDUOS

Brasil reaproveita 12% dos resíduos sólidos para gerar energia limpa

Brasil reaproveita 12% dos resíduos sólidos para gerar energia limpa

Em 2024, do total de resíduos gerados no Brasil, 11,7% foram reaproveitados para geração de insumos energéticos, o que mostra que o Brasil tem potencial para expandir exponencialmente a geração de energia limpa e renovável.

A Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA) lançou o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, uma radiografia da geração e gestão de resíduos sólidos urbanos (RSU) no Brasil. O documento traz novidades sobre a reciclagem brasileira e uma inédita análise sobre reaproveitamento bioenergético de resíduos orgânicos coletados. A chamada reciclagem bioenergética é uma das categorias de reciclagem contempladas no estudo e considera a utilização de resíduos com origem animal ou vegetal, como restos de alimentos e cortes de árvores, para geração de energia e combustíveis renováveis. Em 2024, do total de resíduos gerados no Brasil, 11,7% foram reaproveitados para geração de insumos energéticos, o que mostra que o Brasil tem potencial para expandir exponencialmente a geração de energia limpa e renovável.

Em 2024, a população brasileira gerou 81,6 milhões de toneladas de RSU, 0,75% superior que a registrada no ano anterior. O número representa uma média de 384 kg de lixo gerados por pessoa ao longo do ano, um quilo por dia. No Brasil, em 2024, 6,57 milhões de toneladas de resíduos orgânicos foram utilizados na geração de eletricidade, principalmente a partir do reaproveitamento do biogás gerado naturalmente pela decomposição do material. O número representa 8% do total de resíduos produzidos no período. Outros 2,6 milhões de toneladas, 3,2% do total gerado, foram usadas para produção do biometano, combustível limpo e renovável que pode ser um dos principais ativos globais para a transição para uma economia de baixo carbono. O biometano pode substituir combustíveis fósseis no abastecimento veicular, processos industriais, utilização residencial e até ser utilizado como insumo para cogeração de energia elétrica.

Se todas as cidades com mais de 320 mil habitantes destinassem seus resíduos para aterros sanitários com planta de biometano, o Brasil alcançaria uma produção diária de, no mínimo, 2,86 milhões de Nm³/dia, volume 525,45% superior à capacidade autorizada atual.Com o melhor aproveitamento da estrutura já existente, o Brasil teria capacidade para suprir cerca de 5% da atual demanda nacional por gás natural, hoje estimada em 58,4 milhões de Nm³/dia pelo Ministério de Minas e Energia (MME). Esse mercado é formado por diferentes setores econômicos, como industrial, automotivo, residencial, comercial, geração elétrica, cogeração etc. Há ainda 285 mil toneladas (0,35%) que são reaproveitadas na compostagem e geração de adubos e 43 mil toneladas na fabricação de CDRU. “Os dados mostram o quanto o Brasil ainda tem espaço para aumentar a geração de energia sustentável. Cada aterro sanitário é como um poço de petróleo verde e ecológico, com quantidades inesgotáveis para geração do que já é chamado como combustível do futuro. O Brasil pode ser para a geração de energia sustentável o que a Arábia Saudita é hoje para o combustível fóssil”, declara Pedro Maranhão, presidente da ABREMA.

No último ano, o Brasil coletou 93,7% dos resíduos produzidos, mas ainda destina 28,1 milhões de toneladas para lixões e outros destinos ambientalmente inadequados, 40,3% do total. Em 2024, 41,6 milhões de resíduos coletados (59,7%) foram enviados corretamente para aterros sanitários, locais com instalações adequadas para a reciclagem bioenergética de orgânicos. Houve leve melhora em relação aos percentuais observados no ano anterior, quando 41% dos resíduos coletados iam para lixões e 58,5% para aterros sanitários, o equivalente a quase 1 milhão de toneladas a mais encaminhadas para a disposição adequada. No ano analisado, 85,6% dos resíduos gerados foram enviados para alguma forma de destinação final, seja adequada, como aterros sanitários licenciados, ou inadequadas, como aterros controlados, valas sanitários e lixões a céu aberto, instalações que estão totalmente proibidas no Brasil desde agosto de 2024. “No ano em que o Brasil proibiu todas as formas de destinação irregular dos resíduos coletados nos municípios, ainda estimamos a existência de quase 3 mil lixões que recebem passivos ambientais que colocam a saúde pública em risco, mas que poderiam se tornar ativos econômicos para o país”, pontua Maranhão. Embora, o estudo mostre resultados melhores, mesmo que tímidos em todas as regiões, a distribuição de destinos regulares e irregulares para o lixo coletado reflete a desigualdade econômica brasileira, com as regiões Sudeste e Sul apresentando os melhores indicadores. Nessas áreas, os aterros sanitários são o destino de 71,3% e 69% dos resíduos encaminhados para disposição final, respectivamente. As outras regiões ficaram com desempenho abaixo da média nacional, com o pior resultado observado na região Norte, onde os aterros sanitários foram o destino de somente 38,7% dos resíduos recolhidos.

A reciclagem mecânica de resíduos secos, principalmente metais, papeis, vidros e plásticos, avançou timidamente em um ano. Em 2024, 7,1 milhões de toneladas desses resíduos foram efetivamente recicladas, o que representa 8,7% do total gerado no Brasil. O índice é 0,4 ponto percentual superior ao registrado em 2023.

Do total enviado para reciclagem, 4,6 milhões de toneladas (64,8% do total) foram coletadas por trabalhadores informais e sem ligação com os serviços oficiais. Já 2,5 milhões (35,2%) são resultado do sistema de coleta seletiva dos municípios. “Novamente se repete a realidade em que quase dois terços dos resíduos enviados para reciclagem no Brasil são coletados por catadores autônomos, enquanto apenas um terço é encaminhado por serviços públicos regulares. Isso mostra o tamanho do trabalho informal no cenário de reciclagem brasileiro e a importância de incluir esses trabalhadores nas discussões sobre políticas públicas a respeito do tema”, destaca o presidente da ABREMA.

A queima de resíduos especialmente em regiões rurais sem serviço regular de coleta ainda é uma realidade em parte significativa do Brasil. Em 2024, cerca de 5,4% dos resíduos gerados, aproximadamente 4,4 milhões de toneladas, foram queimados a céu aberto na mesma propriedade de sua geração ou ambientes próximos. Em 2023, esse índice havia sido de 5,7% na mesma base de comparação. A prática é ilegal, mesmo em pequenas quantidades, e pode impactar negativamente o meio ambiente e a saúde de pessoas submetidas à fumaça tóxica. Além do risco de incêndios, a queima irregular de lixo doméstico também contamina o solo e os lençóis freáticos durante a decomposição dos resíduos, e possibilita a proliferação de animais e insetos vetores de doenças. “A ABREMA, com o apoio dos Ministérios Públicos Federal e dos estados e dos Tribunais de Contas de todo o país, está avançando nas negociações com prefeituras para o encerramento de lixões. Mas, como mostram os dados do Panorama 2025, apesar de avanços, há um longo caminho a percorrer. Não vamos eliminar essa chaga medieval da nossa sociedade sem o amplo apoio de gestores públicos de todo o país e da própria sociedade civil. Leis e diretrizes para isso já existem, o que precisamos é cumprimento daquilo que é direito de toda a sociedade”, conclui Pedro Maranhão.

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