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CLIMA

O impacto do El Niño na gestão hídrica brasileira

O impacto do El Niño na gestão hídrica brasileira

Fenômeno climático pode intensificar eventos extremos e desafiar o equilíbrio entre abastecimento, geração de energia e produção agrícola.

A provável formação do fenômeno climático El Niño ao longo de 2026 acende um alerta estratégico para setores diretamente dependentes do regime hídrico no Brasil, como o saneamento, a energia e o agronegócio. De acordo com o mais recente boletim do Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA, publicado em março de 2026, há 62% de probabilidade de configuração do fenômeno no trimestre junho-julho-agosto, percentual que ultrapassa 80% a partir de agosto. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) acompanha as projeções e confirma a transição em curso da La Niña para uma condição de neutralidade, com tendência de aquecimento progressivo das águas do Pacífico Equatorial.

Os efeitos do El Niño — componente quente do sistema ENOS (El Niño-Oscilação Sul), caracterizado por temperaturas da superfície do mar ao menos 0,5°C acima da média — são historicamente desiguais sobre o território brasileiro. Segundo o CPTEC/INPE, o Norte e o Nordeste tendem a enfrentar redução nos volumes de precipitação, com risco de estiagens prolongadas e queda na vazão dos rios, enquanto a região Sul registra chuvas mais abundantes e frequentes, com risco elevado de enchentes e eventos extremos. A Climatempo alerta que o padrão pode ser semelhante ao de 2023, quando o El Niño de forte intensidade provocou ondas de calor prolongadas e, no Rio Grande do Sul, uma sucessão de enchentes catastróficas que configuraram o maior desastre climático da história do estado.

Para o setor de saneamento, esse desequilíbrio representa um desafio duplo: lidar com a escassez hídrica em bacias do Norte e Nordeste, comprometendo a segurança do abastecimento e a operação de reservatórios, e, simultaneamente, enfrentar o excesso de precipitação no Sul, que pode sobrecarregar sistemas de drenagem e estações de tratamento. Analistas da CNN Brasil apontam que um cenário de El Niño tende a melhorar a hidrologia no Sul, mas pode pressionar os níveis de armazenamento no Sudeste e no Nordeste — regiões-chave para o sistema elétrico nacional —, evidenciando que a localização e distribuição das chuvas são mais determinantes do que o volume total.

No agronegócio, a variabilidade climática tende a impactar diretamente o calendário agrícola, a produtividade e a logística. A Climatempo indica que o início da próxima estação chuvosa pode ser irregular e insuficiente para repor a umidade do solo e dos reservatórios, gerando problemas de abastecimento e geração de energia hidrelétrica. Diante desse cenário, especialistas recomendam a antecipação de estratégias de contingência, incluindo monitoramento climático contínuo, revisão dos planos de emergência para abastecimento e reforço da resiliência das infraestruturas hídricas e de saneamento frente às mudanças climáticas em curso.

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Seca pode agravar situação do Acre

Segundo o Grupo de Trabalho em Previsão Climática Sazonal (GTPCS) do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), a seca que atinge a região da Amazônia, em especial o estado do Acre, deve agravar-se nos próximos meses. O rio Acre atingiu, no último dia 28 de julho, um de seus índices mais críticos da história. Foi verificado volume entre 1,20 m e 1,30 m, o que pode prejudicar a navegação e o abastecimento de comunidades ribeirinhas da região. O levantamento é válido para os meses de agosto, setembro e outubro deste ano. Desde março, o volume de chuvas é deficitário na região, em parte por conta do El Niño, que começou no outono do ano passado. O fenômeno está associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial, alterando os ventos em boa parte do planeta e o regime de chuvas. Na região Norte, leva à seca. A partir de junho, o La Niña, fenômeno oposto, começou a se desenvolver de forma fraca. "Esta estiagem é fruto de uma interação de vários fenômenos, notadamente o El Niño e a La Niña. Ela já se estende há quase seis meses, e não temos uma noção exata de quando vai normalizar. Estamos acompanhando a situação mensalmente para avaliar como ela se comporta", afirmou o chefe da Divisão de Pesquisas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), José Marengo. O documento alerta ainda para o alto risco de queimadas e incêndios florestais, especialmente na área central do Brasil e no sul e no leste da Amazônia. O número de focos de incêndio pode atingir máximas históricas. A estiagem constatada também deve afetar o Nordeste. De acordo com o grupo de previsão climática do MCTIC, tradicionalmente agosto é o último mês da estação chuvosa na parte leste da região, mas tem chovido pouco desde abril, início do período de precipitações na região. Com a baixa incidência de chuvas nos últimos anos, a tendência é que a situação se repita na zona da mata, que já apresenta valores abaixo da média para a época do ano. "O panorama de poucas chuvas nessa área vem se arrastando desde 2012, e os níveis dos reservatórios e dos rios estão muito baixos, mesmo na zona da mata. E isso gera problemas para a população, porque pode haver desabastecimento", destacou José Marengo. O GTPCS é formado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

18 de agosto, 2016