Primeira usina de biometano de dejetos suínos da América Latina expõe potencial bilionário do setor

Santa Catarina inaugura primeira usina de biometano da América Latina certificada pela ANP, processando dejetos suínos para gerar combustível renovável com inv…
Planta da H2A Bioenergia em parceria com a Copercampos, em Campos Novos (SC), transforma um dos maiores passivos ambientais da suinocultura brasileira em combustível renovável certificado pela ANP. Empreendimento de R$ 65 milhões inaugura modelo replicável que pode ajudar o Brasil a destravar um mercado estimado em R$ 180 bilhões — e que, hoje, opera com apenas 1,5% do potencial técnico explorado.
O Brasil acaba de ganhar um marco regulatório e tecnológico no setor de bioenergia. A Copercampos e a H2A Bioenergia inauguraram, em Campos Novos (SC), a primeira usina da América Latina certificada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) dedicada à produção de biometano a partir de dejetos suínos. Instalada na Granja dos Pinheiros, a planta consumiu cerca de R$ 65 milhões em investimentos e tem capacidade diária de 16 mil m³ de biometano certificado, 23 mil m³ de biogás e 12 toneladas de CO₂ de grau alimentício — utilizado pela indústria de bebidas e por processos industriais que demandam alta pureza.
A escolha de Santa Catarina para sediar o empreendimento não é casual. O Oeste catarinense concentra um dos maiores rebanhos suínos do país, com mais de 5,5 milhões de cabeças distribuídas em cerca de 60 mil propriedades, e arrasta há décadas um passivo ambiental crônico ligado ao manejo inadequado de dejetos — tema recorrente em ações civis públicas e em pesquisas da Embrapa Suínos e Aves, em Concórdia. A planta de Campos Novos opera, na prática, como uma resposta industrial a esse passivo: o que antes representava risco de contaminação de cursos d'água superficiais e subterrâneos passa a ser convertido em combustível, fertilizante e crédito de descarbonização.
Um mercado que ainda engatinha — e por que isso pode mudarOs números do setor de biogás e biometano no Brasil sugerem um segmento em transição estrutural. Levantamento do Panorama do Biogás 2024, do CIBiogás, registrou 1.633 plantas cadastradas no país — crescimento de 18% em relação ao ano anterior — e capacidade instalada de 4,7 bilhões de Nm³/ano, o equivalente a 9,4 bilhões de kWh em geração elétrica, suficiente para abastecer cerca de 4,9 milhões de residências de consumo médio. Mesmo assim, o aproveitamento permanece muito aquém do potencial técnico estimado pela Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), que aponta uma capacidade teórica de 120 milhões de m³ por dia de biometano — volume capaz de substituir até 62% do diesel consumido no transporte de cargas brasileiro, hoje majoritariamente rodoviário.
Esse potencial está distribuído em três grandes blocos de matéria-prima: o setor sucroenergético responde por aproximadamente 56% do total estimado, a pecuária por 38% e o saneamento — aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto — por cerca de 6%. Apesar da maior fatia teórica vir do agronegócio canavieiro, é o saneamento que oferece a base mais previsível e estável de oferta, característica especialmente valorizada por consumidores industriais e pelo transporte pesado.
A virada de chave regulatória veio com a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024) e com o subsequente Decreto nº 12.614/2026, que estabeleceu metas progressivas de descarbonização do mercado de gás natural via consumo obrigatório de biometano. A partir de 2026, distribuidoras precisam incorporar percentual mínimo de biometano em suas vendas — meta que, segundo projeções da ABiogás, pode escalar até 10% em 2034. Para 2026, a ANP estima necessidade de cerca de 500 mil m³/dia de biometano para atender ao mandato. O Brasil já tem capacidade autorizada próxima de 989 mil m³/dia, com mais de 1,7 milhão de m³/dia em processo de autorização — folga suficiente para metas mais ambiciosas em ciclos seguintes.
Como funciona a planta: do dejeto ao gás de qualidade industrialO processo segue o padrão consagrado da rota anaeróbia, mas com refinamento técnico exigido pela certificação da ANP. Os dejetos das matrizes suínas são conduzidos a biodigestores, onde microrganismos decompõem a matéria orgânica em ambiente sem oxigênio, gerando biogás bruto — uma mistura predominantemente composta por metano (CH₄) e dióxido de carbono (CO₂), com traços de sulfeto de hidrogênio e umidade.
O salto de qualidade ocorre na etapa seguinte: o biogás passa por separação por membranas de alta seletividade, tecnologia que isola o metano dos demais gases até atingir pureza superior a 96% — o piso técnico exigido pela ANP para que o produto seja comercializado como biometano e injetado na malha de gás natural. O CO₂ extraído nesse processo, quando purificado a grau alimentício, vira coproduto comercializável, atendendo principalmente fabricantes de refrigerantes, cervejas e gases industriais. Já o digestato — resíduo sólido e líquido remanescente da biodigestão — pode ser utilizado como biofertilizante, fechando o ciclo de aproveitamento integral.
Modelo de negócio: produtor entra com matéria-prima, empresa entra com tecnologiaO arranjo comercial adotado pela H2A é parte importante da equação de viabilidade. O produtor rural cede o espaço físico e fornece os dejetos, e recebe em contrapartida participação na receita da comercialização. A empresa assume tecnologia, operação, manutenção e a interlocução regulatória — incluindo a obtenção e manutenção da certificação ANP, as auditorias de origem do gás e a emissão dos Créditos de Descarbonização (CBios) previstos no programa RenovaBio.
A certificação ANP é o que diferencia este projeto de outras iniciativas de biogás agropecuário no país. Sem ela, o gás produzido só pode ser usado em autoconsumo ou em mercados de nicho. Com a certificação, o biometano entra no mercado regulado, pode ser comercializado em contratos de longo prazo com distribuidoras, e gera Certificados de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) — instrumento criado pela Lei do Combustível do Futuro para organizar a comercialização do atributo ambiental do gás renovável.
A logística de escoamento começa com transporte rodoviário em carretas até Lages (SC), onde o gás é entregue ao sistema da Companhia de Gás de Santa Catarina (SCGás). "Inicialmente o biometano será transportado até Lages, mas estamos avaliando projetos para ampliação da rede e até a implantação de gasodutos no futuro. Isso abre espaço para o desenvolvimento industrial e para o uso do gás em diferentes aplicações, inclusive no transporte", afirma Otmar Josef Müller, presidente da H2A Bioenergia.
Pipeline de expansão: 22 plantas em quatro estadosA unidade catarinense é o primeiro elo de um plano de expansão que prevê 22 novas plantas em Santa Catarina, Goiás, Rio Grande do Sul e São Paulo. Em território catarinense, cinco unidades já estão em fase de licenciamento na ANP, com previsão de operação até o fim de 2027 nos municípios de Papanduva, Videira e uma segunda planta em Campos Novos. A próxima unidade fora de SC entra em operação ainda neste ano em Rio Verde (GO), polo do agronegócio do Centro-Oeste, e o terceiro projeto está previsto para Ponta Grossa (PR).
"Estamos estruturando a empresa para levar esse modelo a países como Paraguai, Colômbia e Equador", projeta o diretor-presidente da H2A Bioenergia, Adilson Teixeira Lima. "A tecnologia que utilizamos permite expandir a geração para outros tipos de resíduos, adaptando-se à economia local de cada região onde as plantas serão instaladas." A possibilidade de adaptação para resíduos urbanos é especialmente relevante diante do passivo brasileiro nessa frente: segundo dados da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (Abren), mais de 40% dos resíduos sólidos urbanos ainda têm como destino final lixões e aterros, mesmo após 15 anos de vigência da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010).
Diversificação energética da CopercamposPara a Copercampos, sócia local do empreendimento, o projeto consolida uma trajetória de diversificação para além da agricultura tradicional. "Buscamos inovar acompanhando as transformações do setor e investindo em soluções que agreguem valor ao negócio dos nossos associados", afirma Luiz Carlos Chiocca, diretor-presidente da cooperativa. Hoje, a Copercampos é sócia de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), opera usina fotovoltaica e prepara o início de operação de uma usina de etanol — desenho de portfólio energético que se alinha à tendência de cooperativas agroindustriais brasileiras transformarem seus subprodutos em ativos de receita recorrente.










