A divulgação dos resultados anuais da Aegea Saneamento, ocorrida no último sábado (10), pôs fim a semanas de expectativa e desconfiança no mercado financeiro. A maior empresa privada de saneamento do Brasil havia adiado repetidamente a publicação do balanço de 2025, inicialmente prevista para o final de março, e depois remarcada para 8 e 9 de abril — sem que nenhuma dessas datas fosse cumprida. O atraso levou as agências S&P Global e Fitch Ratings a rebaixarem a nota de crédito da companhia e a colocarem seus ratings em observação negativa, citando preocupações com governança e transparência. Os títulos de dívida da Aegea chegaram a sofrer forte desvalorização no mercado secundário, com bonds de vencimento em 2036 registrando queda de 14 centavos de dólar em um único dia.
A empresa atribuiu os atrasos à complexidade do processo de revisão contábil, que exigiu a reapresentação dos resultados de 2024 e o reprocessamento de grande volume de dados. Segundo a Aegea, os ajustes são de natureza estritamente contábil e não afetam a geração de caixa, a liquidez ou o cumprimento de obrigações financeiras. O episódio, no entanto, ocorre num momento delicado: a companhia vinha sendo avaliada para um IPO bilionário, estimado em mais de R$ 40 bilhões pelo acionista Itaúsa, com perspectiva de lançamento no primeiro semestre de 2026.
Os números: receita e EBITDA em alta, lucro em queda
Passado o ruído, os números do ecossistema Aegea — que inclui as controladas, as coligadas Águas do Rio e o veículo de investimento Parsan — mostram crescimento expressivo na linha de receita e na geração operacional. A receita líquida proforma atingiu R$ 18,3 bilhões, alta de 20,6% sobre 2024. O EBITDA proforma avançou 23,5%, para R$ 10,3 bilhões, com margem de 56,3% — 1,3 ponto percentual acima do ano anterior.
O lucro líquido, contudo, caiu 31%, de R$ 1,2 bilhão para R$ 856 milhões, pressionado pelo forte aumento das despesas financeiras, que subiram 46,5% e consumiram boa parte do resultado operacional. Num cenário de juros elevados e dívida crescente, o custo do endividamento foi o principal fator de pressão sobre o resultado final.
No perímetro societário (sem as coligadas), a receita líquida cresceu 28,1%, para R$ 12,3 bilhões, e o EBITDA avançou 29,2%, para R$ 7,9 bilhões. O lucro líquido societário também recuou, de R$ 1,8 bilhão para R$ 1,3 bilhão — queda de 29%.
Um fator não recorrente influenciou positivamente os números: um crédito tributário de PIS/COFINS no valor de R$ 591 milhões, reconhecido pela Corsan no primeiro trimestre de 2025. Sem esse efeito, o crescimento do EBITDA proforma teria sido de 16,4%.
População atendida e expansão da cobertura
A Aegea encerrou 2025 presente em 893 municípios, atendendo a uma população superior a 39 milhões de pessoas. A base total chegou a 14,1 milhões de economias — unidades individuais de atendimento de água ou esgoto —, um crescimento de 14% sobre as 12,4 milhões de 2024.
Esse avanço veio de duas frentes: a expansão orgânica das redes, que conectou 722 mil novas economias (beneficiando cerca de 2 milhões de pessoas), e a incorporação de 988 mil economias por meio de três novas concessões — Águas do Piauí, Águas do Pará (blocos A, B e D) e a PPP Ambiental Paraná 2. Em fevereiro de 2026, a empresa venceu ainda o leilão da concessão de esgoto em Brusque (SC), município com 138 mil habitantes.
A companhia informou ter realizado 131 milhões de serviços no ano, entre atendimentos, leituras e serviços de campo. O volume total de água e esgoto faturado cresceu 8,4%, atingindo 2 bilhões de metros cúbicos.
Desempenho das concessionárias
As seis principais operações do ecossistema apresentaram trajetórias distintas. A Corsan, no Rio Grande do Sul, foi o destaque do ano, com EBITDA de R$ 3,7 bilhões — salto de 63%, impulsionado pelo crédito de PIS/COFINS, pela expansão de economias e por ganhos de eficiência. A Águas de Manaus registrou o maior crescimento de receita entre as subsidiárias (+19%) e multiplicou o lucro por quase três. Na outra ponta, a Águas do Rio — maior operação em receita — viu seu EBITDA cair 15% e sua margem encolher de 38% para 29%, impactada pelo aumento de provisões para inadimplência.
| Concessionária | Economias (mil) | Receita (R$ mi) | Var. receita | EBITDA (R$ mi) | Var. EBITDA | Margem | Lucro (R$ mi) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Águas do Rio (RJ) | 3.352 | 5.829 | +10% | 1.706 | -15% | 29% | -584 |
| Corsan (RS) | 3.773 | 4.837 | +14% | 3.682 | +63% | 76% | 2.441 |
| Águas Guariroba (MS) | 727 | 1.025 | +7% | 784 | +4% | 77% | 366 |
| Águas de Manaus (AM) | 663 | 930 | +19% | 485 | +13% | 52% | 108 |
| Prolagos (RJ) | 505 | 650 | +17% | 455 | +14% | 70% | 158 |
| Águas de Teresina (PI) | 487 | 458 | +0,4% | 283 | +1% | 62% | 97 |
A Águas do Rio, que opera em 27 municípios fluminenses incluindo parte da capital, registrou prejuízo de R$ 584 milhões — contra resultado negativo de R$ 288 milhões em 2024. A concessão, iniciada em 2021, ainda está em processo de amadurecimento comercial. Após revisão de critérios contábeis, a inadimplência reportada saltou de 1% para 12%, refletindo uma mudança no reconhecimento de receita para clientes com cadastro incompleto ou atraso superior a seis meses. Sua alavancagem subiu de 6,7x para 8,5x. A Aegea argumenta que a estratégia de conversão desses clientes se baseia na experiência de concessões mais maduras, como Manaus, onde a inadimplência caiu de 9% para 6% no mesmo período.
Investimentos: R$ 7,3 bilhões em obras de água e esgoto
O capex do ecossistema cresceu 35%, de R$ 5,4 bilhões para R$ 7,3 bilhões, com foco predominante na ampliação da cobertura de esgotamento sanitário e na mobilização de novas operações. Somando-se o pagamento de outorgas (R$ 1,3 bilhão), os investimentos totais atingiram R$ 8,6 bilhões.
| Concessionária | Capex 2025 (R$ mi) | Capex 2024 (R$ mi) | Variação |
|---|---|---|---|
| Corsan (RS) | 1.822 | 1.733 | +5% |
| Águas do Rio (RJ) | 1.331 | 1.448 | -8% |
| Demais concessões | 2.716 | 1.321 | +106% |
| Novas operações (PA, PI, PR) | 510 | — | N/A |
| Águas de Manaus (AM) | 451 | 356 | +27% |
| Águas de Teresina (PI) | 167 | 237 | -30% |
| Águas Guariroba (MS) | 164 | 202 | -19% |
| Prolagos (RJ) | 144 | 113 | +28% |
| Total Ecossistema | 7.304 | 5.409 | +35% |
Esgoto tratado e redução de perdas
A companhia coletou e tratou 730 bilhões de litros de esgoto em 2025 — volume que compara a cerca de 300 mil piscinas olímpicas —, evitando o despejo in natura em rios e mananciais. O programa de redução de perdas na distribuição resultou em economia de 29 bilhões de litros de água, suficiente para abastecer 725 mil pessoas por um ano. O índice consolidado de perdas caiu de 42,6% para 40,1%.
A dispersão entre operações, contudo, é grande. A Águas Guariroba (MS) opera com índice de perdas de apenas 19,7%, enquanto a Águas de Manaus ainda registra 61% — embora tenha reduzido 1 ponto percentual no ano.
| Concessionária | Perdas 2025 | Perdas 2024 | Variação |
|---|---|---|---|
| Águas Guariroba (MS) | 19,7% | 19,9% | -0,2 p.p. |
| Águas de Teresina (PI) | 28,0% | 30,1% | -2,1 p.p. |
| Prolagos (RJ) | 29,4% | 27,4% | +1,9 p.p. |
| Corsan (RS) | 42,0% | 42,8% | -0,8 p.p. |
| Águas do Rio (RJ) | 46,6% | 48,0% | -1,4 p.p. |
| Águas de Manaus (AM) | 61,0% | 62,0% | -1,0 p.p. |
Endividamento e captações
A dívida líquida proforma encerrou 2025 em R$ 47 bilhões, alta de 36,7% sobre os R$ 34,4 bilhões de 2024. A dívida bruta saltou 40,7%, para R$ 59,2 bilhões, enquanto o caixa cresceu 59%, para R$ 12,1 bilhões. A relação dívida líquida/EBITDA subiu de 4,13x para 4,51x, refletindo o ciclo pesado de investimentos e a incorporação da Regenera Rio.
Para financiar essa expansão, a Aegea captou R$ 22,3 bilhões ao longo do ano, dos quais R$ 10,3 bilhões foram usados para gestão de passivos — o que permitiu alongar o prazo médio da dívida de 7,4 para 7,6 anos e reduzir o custo médio de CDI + 1,8% para CDI + 1,4%. No mercado internacional, o destaque foi a emissão de Blue Bonds de US$ 750 milhões (R$ 4 bilhões), títulos vinculados a investimentos em infraestrutura hídrica.
A geração de caixa operacional proforma cresceu 45%, de R$ 4,6 bilhões para R$ 6,7 bilhões, beneficiada pelo aumento da arrecadação e pela compensação de créditos tributários na Corsan.
Movimentos recentes: No primeiro trimestre de 2026, a empresa captou mais R$ 3,2 bilhões em debêntures e empréstimos. Em março, recebeu um aporte de capital de R$ 1,2 bilhão dos acionistas. Em fevereiro, havia convertido seu registro na CVM para a categoria "A" — passo considerado preparatório para o IPO que vinha sendo planejado para o primeiro semestre deste ano.
Resíduos sólidos e novas frentes
A aquisição da Regenera Rio (antiga Ciclus Rio), concluída em dezembro de 2025, marca a entrada da Aegea no segmento de resíduos sólidos. A operação, no Rio de Janeiro, adiciona uma frente complementar ao portfólio de água e esgoto e reforça o posicionamento da empresa como plataforma integrada de serviços ambientais.
O que mudou nos critérios contábeis
Os ajustes que motivaram o atraso na divulgação envolvem principalmente dois pontos. O primeiro é a forma de reconhecimento de receita: a Aegea passou a registrar a receita de clientes inadimplentes há mais de seis meses ou com cadastro incompleto apenas quando o pagamento é efetivado — o que aproxima a receita reportada da arrecadação real. A concessão mais afetada por essa mudança foi a Águas do Rio. O segundo ponto diz respeito à metodologia de provisão para perdas com clientes, que agora utiliza uma matriz baseada no histórico de inadimplência dos últimos 36 meses.
A companhia reapresentou os resultados de 2024 incorporando esses critérios, e afirma que nenhum dos ajustes afeta o caixa, a liquidez ou o cumprimento de covenants. Os números de 2025 publicados no release já refletem as novas práticas. Vale lembrar que não é a primeira vez que a Aegea reapresenta demonstrações: em 2024, a empresa já havia corrigido balanços de anos anteriores para ajustar a contabilização de transações entre partes relacionadas.
Diversidade e metas ESG
Ao final de 2025, mulheres representavam 30,7% dos empregados e 34,9% dos cargos de liderança. A meta vinculada à emissão de títulos sustentáveis é alcançar 45% de mulheres na liderança até 2030, além de ampliar a representatividade racial.
Perspectivas
A conversão para categoria "A" na CVM e o aporte dos acionistas sinalizam que a Aegea segue na trajetória de preparação para o mercado de capitais, embora o episódio do atraso contábil e os rebaixamentos de rating adicionem incerteza sobre o cronograma de um eventual IPO. A companhia afirma seguir avaliando alternativas para apoiar sua estratégia de crescimento, ao mesmo tempo em que se compromete com o aprimoramento de processos e da qualidade das informações financeiras — um compromisso que o mercado agora acompanha com atenção redobrada.
Fonte: Release de Resultados Aegea Saneamento — Exercício 2025, publicado em 10/04/2026.






