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RIOS

Análise sobre o Tietê encontra até cocaína em mais de 1.100 km

Análise sobre o Tietê encontra até cocaína em mais de 1.100 km

A Expedição Tietê 2025 revelou que o rio Tietê sofre com múltiplas formas de contaminação, incluindo microplásticos, agrotóxicos, fármacos e drogas ilícitas em…

Uma equipe multidisciplinar percorreu mais de 1.100 km do rio Tietê, desde nascente em Salesópolis à foz no rio Paraná, em Itapura, durante a Expedição Tietê 2025, realizada pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com universidades e centros de pesquisa para verificar a qualidade da água do rio. Foram identificados microplásticos em todos os 14 pontos analisados, além de 25 tipos de agrotóxicos e 16 substâncias entre fármacos e drogas ilícitas. A principal conclusão é que o Tietê apresenta múltiplas camadas simultâneas de contaminação: microbiológica, química, farmacológica, plástica, agrícola e orgânica. Essas pressões variam ao longo do percurso e refletem diretamente a urbanização, o saneamento insuficiente, o uso agrícola do solo, a presença de reservatórios e as mudanças na ocupação da bacia.

O relatório será lançado hoje, 25 de junho, às 14h, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em um evento dividido em três momentos: apresentação dos resultados da pesquisa, com participação dos pesquisadores envolvidos na expedição; falas de parlamentares e autoridades; e debate aberto com o público sobre os desafios e caminhos para a recuperação do principal rio paulista. O conteúdo pode ser acessado no site da Fundação SOS Mata Atlântica.

“O rio reflete as marcas do esgoto, dos padrões de consumo cotidiano, dos resíduos plásticos, das atividades agrícolas e do uso e ocupação do solo na bacia hidrográfica. Quando encontramos microplásticos em todos os pontos, agrotóxicos ao longo do percurso e substâncias como fármacos e drogas ilícitas na água, não estamos olhando para problemas separados, mas de um conjunto de pressões que atuam de forma simultânea e cumulativa. Por isso, a recuperação do Tietê exige uma abordagem integrada, que combine ampliação do saneamento, fiscalização efetiva, planejamento territorial e monitoramento contínuo da qualidade ambiental, envolvendo Estado, municípios, comitês de bacias hidrográficas, indústrias, comércio, agricultores e população”, diz Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da organização. O coordenador ressalta também que os impactos não atuam de forma isolada. “Microplásticos podem transportar agrotóxicos e fármacos, o excesso de matéria orgânica favorece a proliferação de microrganismos e, consequentemente, reduz a oxigenação da água, dificultando a decomposição natural de parte dos poluentes”, completa.

Os microplásticos estão presentes em todos os pontos e variaram de 330 a 23.587 partículas por metro cúbico, enquanto a predominância de fibras aponta para fontes como efluentes domésticos e industriais, drenagem urbana, lavagem de roupas sintéticas e descarte inadequado de resíduos. As maiores concentrações foram registradas em trechos urbanos, como Osasco, e em reservatórios do interior, como Promissão, onde se registrou o pico, já que as barragens funcionam como zonas de retenção e chegam a acumular de 10 a 17 vezes mais partículas do que os trechos de correnteza. Na comparação internacional, os níveis observados no Tietê ficam abaixo dos de alguns rios asiáticos e acima dos de regiões europeias, o que leva os pesquisadores a classificarem o sistema como de impacto moderado a forte. As 16 substâncias identificadas entre fármacos e drogas ilícitas – incluindo cocaína e seu metabólito, a benzoilecgonina, além de carbamazepina, diclofenaco e losartana – são sinais químicos da presença humana no rio. A cafeína, detectada em todos os pontos, consolida-se como marcador da poluição por esgoto doméstico. O conjunto revela hábitos de consumo, uso de medicamentos, circulação de substâncias ilícitas e a insuficiência do tratamento de esgoto para impedir que esses resíduos cheguem aos corpos d'água.

Já os 25 tipos de agrotóxicos, de um total de 46 compostos investigados, mostram que a poluição do Tietê não se restringe às áreas urbanas. Nos trechos do Médio e Baixo Tietê, os resultados indicam maior influência agrícola, associada ao cultivo de cana-de-açúcar, soja e citros. Chama atenção a presença de atrazina, herbicida proibido na União Europeia desde 2004 e ainda amplamente usado no Brasil, detectado no Tietê acima dos limites legais em alguns trechos. O achado reforça a importância de ampliar o monitoramento de substâncias usadas na atividade agrícola e seus impactos sobre os recursos hídricos. As análises físico-químicas também apontaram metais acima dos limites legais. O cobre foi detectado em concentrações além do permitido em todos os pontos analisados (associado a fungicidas agrícolas, descargas industriais e corrosão de tubulações), enquanto o alumínio excedeu o limite em vários trechos. Em excesso, esses metais podem ser tóxicos para a vida aquática e reforçam a necessidade de monitoramento contínuo da qualidade da água. Os parâmetros de carbono, nitrogênio e oxigênio dissolvido, por sua vez, ajudam a explicar o funcionamento ambiental do rio. Quando há muita matéria orgânica e nutrientes na água, a atividade de bactérias decompositoras aumenta e consome oxigênio, piorando as condições para a vida aquática. As menores concentrações de oxigênio dissolvido foram registradas em Guarulhos e Osasco, com 0,37 mg/L e 0,49 mg/L. Na nascente, em Salesópolis, o valor foi de 6 mg/L; na foz, em Itapura, chegou a 8,6 mg/L – uma recuperação parcial da oxigenação no trecho final, que não elimina a presença de contaminantes químicos, farmacológicos, plásticos, metálicos e agrícolas.

Os contaminantes encontrados refletem hábitos e padrões de consumo da população, e funcionam como um verdadeiro “diagnóstico bioquímico coletivo” da sociedade paulista. Os dados microbiológicos indicam presença de bactérias fecais, patógenos, parasitas e organismos associados a doenças gastrointestinais. Já nas amostras coletadas na nascente, alguns indicadores ficaram acima dos limites legais para rios de melhor qualidade, chegando, em determinados casos, a até 40 vezes o permitido. Somada à detecção de fármacos e drogas ilícitas, essa condição faz do rio um indicador indireto das condições sanitárias e do modelo de ocupação dos territórios que atravessa. “O Tietê não pode ser entendido apenas a partir daquilo que é visível, como cor, odor, espuma ou lixo. A expedição mostra uma camada menos evidente da poluição, formada por contaminantes que expõem as condições sanitárias, os hábitos de consumo e a forma como ocupamos a bacia. Esses dados são essenciais para orientar políticas públicas e cobrar ações concretas de recuperação do rio”, afirma Malu Ribeiro, diretora de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica. Para Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da organização, o diagnóstico aponta para o caminho da solução. “A poluição do Tietê não nasce de uma única fonte e não será resolvida por uma única medida. Recuperar o rio exige saneamento, fiscalização, planejamento territorial, mudanças nas práticas agropecuárias, recuperação florestal e monitoramento contínuo, avançando de forma articulada ao longo de toda a bacia e no longo prazo”.

A Expedição Tietê 2025 aconteceu entre 9 e 14 de junho de 2025 e marca uma nova frente técnico-científica da Fundação SOS Mata Atlântica – vinculada à causa Água Limpa e ao programa Observando os Rios, que monitora a qualidade da água do Tietê desde 1993. A iniciativa foi desenvolvida em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal do ABC (UFABC), Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (CENA/USP) e Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), com participação de especialistas do Instituto do Mar da Unifesp, da Unifesp Baixada Santista, do Laboratório de Ecotoxicologia do CENA/USP e do Projeto Índice de Poluentes Hídricos da USCS. Com apoio da Itausa, a Expedição Tietê 2025 amplia o alcance do monitoramento histórico realizado pela SOS Mata Atlântica e coloca o Tietê no centro de debates nacionais e internacionais sobre qualidade da água. Ao reunir, em um mesmo percurso, análises microbiológicas, parasitológicas, físico-químicas, biogeoquímicas, de microplásticos, agrotóxicos, fármacos e drogas ilícitas, a iniciativa permite observar como diferentes pressões ambientais se combinam em uma grande bacia hidrográfica.

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