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LODO BIOLÓGICO

Estudo levanta preocupações quanto ao uso de biofertilizante

Estudo levanta preocupações quanto ao uso de biofertilizante

O uso de FSBs levanta preocupações quanto à segurança sanitária, já que o contato com o líquido pode abrir vias de exposição a doenças transmitidas pela água.

As pequenas propriedades rurais brasileiras e de países vizinhos, por meio de fossas sépticas biodigestoras (FSBs), têm adotado o sistema de reutilização da água que sai dos sanitários para produzir biofertilizante. O método consiste em três caixas d’água de mil litros cada uma, dispostas em sequência. As duas primeiras são responsáveis pela digestão anaeróbica, enquanto a última serve para o armazenamento do efluente final. O reservatório é utilizado de acordo com a frequência de irrigação das culturas pelo produtor rural. O tempo de detenção do líquido no sistema varia entre 25 e 35 dias. Entretanto, o uso de FSBs levanta preocupações quanto à segurança sanitária, já que o contato com o líquido pode abrir vias de exposição a doenças transmitidas pela água – sobretudo durante a aplicação, frequentemente realizada com baldes, regadores ou mangueiras, diretamente no solo, sem o uso de equipamentos de proteção individual ou isolamento da área irrigada. Para lidar com o líquido, recomenda-se o uso de sapatos fechados, luvas de borracha, máscara e óculos. Também é recomendável isolar a área do sistema, para evitar que pessoas e animais pisem nas tampas das caixas, o que pode rompê-las. “No Brasil existem milhares de sistemas instalados, havendo também a expansão de seu uso em toda a América Latina. E vemos com bons olhos uma tecnologia social fácil de ser construída”, afirma Adriano Luiz Tonetti, professor da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas (Fecfau-Unicamp) e coautor de artigo publicado na Environmental Monitoring and Assessment. “O que questionamos é a ideia de que o efluente seja considerado um biofertilizante que pode ser aplicado superficialmente, com um regador ou uma mangueira, ou incorporado ao solo sendo simplesmente espalhado sobre ele”.

“Fizemos uma visita nos arredores de Campinas e eu vi um agricultor aplicando o efluente em um pé de goiaba. Circulamos pela propriedade e voltamos para o mesmo lugar, e lá estava um cachorro deitado no solo no pé da goiabeira. Ele deve ter bebido aquela água, se espojado ali, e depois pode ser que tenha entrado na casa e feito contato com uma criança. Se naquela água houver um patógeno, foram criadas todas as condições para fechar seu ciclo”, adverte o pesquisador. Pensando em minimizar os riscos da prática, a engenheira ambiental Caroline Kimie Miyazaki, da Fecfau-Unicamp, fez em seu mestrado uma avaliação quantitativa de risco microbiológico para estimar a probabilidade de infecção a partir de determinados cenários de exposição ao uso do sistema. Orientada por Tonetti, ela também sugeriu modificar a saída da última caixa d’água: em vez de entregar o líquido em uma torneira, a engenheira sugeriu que ele fosse distribuído por um cano enterrado abaixo do nível do solo. Outra sugestão é eliminar uma das etapas do método preconizado juntamente com o sistema: a adição de fezes bovinas com água na primeira caixa, a cada 30 dias. De acordo com os testes realizados pelo grupo de pesquisa de Tonetti, a prática não altera a eficiência do biofertilizante ao final do processo – e o manuseio do material é a principal via de contaminação dos agricultores.

Uma última proposta dos autores se refere ao tamanho das caixas usadas no sistema – e, consequentemente, ao tempo que o efluente leva para chegar da primeira à última caixa. “Em teoria, o líquido fica mais ou menos um mês nesse conjunto de três tanques, tendo em vista que uma pessoa consome por dia, dando descarga, de 10 a 15 litros de água. Quatro pessoas numa família são mais ou menos 60 litros por dia. Mas as caixas são de mil litros, e isso é outra coisa que estamos contestando: será que precisa ficar um mês? Já estamos trabalhando com caixas de 500 litros, que são muito mais baratas, e reduzimos o tempo que o líquido fica no sistema”. A FAPESP deu suporte ao trabalho por meio de Auxílio à Pesquisa-Regular.

O estudo de caso foi realizado em Campinas, onde um programa social municipal implementou 136 unidades FSBs para famílias rurais. Paralelamente, a Unicamp iniciou um programa de monitoramento envolvendo a coleta e análise de Escherichia Coli, com o objetivo de identificar potenciais riscos de contaminação e propor melhorias. Para avaliar os riscos, os grupos expostos foram definidos com base nas seguintes categorias: trabalhadores, crianças, comunidade local e família. Também foi adotado um parâmetro de ocupação de 3,5 pessoas por domicílio. As vias de exposição dos cenários basearam-se na ingestão acidental do efluente, do solo ou de fezes. O cálculo da dose ingerida foi adaptado para cada cenário, considerando suas especificidades. Os cientistas mapearam seis cenários de exposição ao uso do sistema: ingestão durante atividades de manutenção da FSB (incluindo a adição de fezes bovinas frescas); ingestão durante atividades de irrigação superficial com o efluente; ingestão durante atividades recreativas após irrigação com o efluente; contato indireto por meio de objetos após irrigação com o efluente; atividades recreativas ou de uso da água após o escoamento do efluente da FSB atingir um corpo d'água superficial e consumo de água subterrânea após contaminação causada pela aplicação do efluente da FSB na superfície do solo. Para cada cenário, foram realizadas simulações com base em 19 parâmetros, como a fração de transferência mão-boca, o volume de solo ingerido por uma criança, a fração de cepas patogênicas infecciosas, a frequência de realização das atividades e a presença de E. coli efluente final.

De acordo com organizações internacionais, existem dois critérios muito utilizados para avaliar a aceitabilidade do risco à saúde de tais atividades: um é o nível de risco anual de infecção e o outro é o DALY (sigla de Disability-Adjusted Life Year), que combina, em um único número, os anos de vida perdidos por morte prematura e os anos vividos com uma condição que reduz a qualidade de vida, representando um "ano de vida saudável perdido" para uma pessoa ou população. Os cenários “adição de fezes bovinas” e “irrigação superficial” excederam o valor mínimo para o risco médio anual de infecção (por pessoa, por ano) utilizado como limite de risco aceitável. Em 95% das simulações, o primeiro cenário excedeu o valor de referência, correspondendo a 44 ocorrências de infecção por pessoa a cada cem anos. Os resultados indicam que a exposição dos trabalhadores a fezes frescas por meio de contato direto constitui uma via de contaminação potencialmente perigosa. Quanto ao número de DALYs, esse cenário foi novamente o mais crítico: apenas um dos casos estaria dentro do valor recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No segundo cenário, 99% dos casos excedem o valor de referência.

De acordo com os cientistas, a ideia do trabalho foi tornar o método mais seguro sanitariamente. “Propusemos que saia um tubo da última caixa, um tubo todo perfurado, enterrado a uns 30 cm abaixo do nível do solo, cercado de brita. O líquido vai infiltrar no solo sem contato com o agricultor ou com as crianças que eventualmente circularem pelo terreno ou com os animais”, resume Tonetti. Segundo ele, sua orientanda Miyazaki conseguiu comprovar que, se a irrigação for colocada abaixo do nível do terreno, será possível alcançar um risco de contaminação aceitável por qualquer entidade nacional ou internacional. Além da segurança do trabalhador e sua família há também a questão da segurança microbiológica do alimento. “A pergunta que todo mundo faz é se o patógeno que porventura estiver nessa água não vai parar na planta. Já investigamos isso. A relação do tamanho do patógeno com o poro da raiz da planta é bem desproporcional: é como estar tomando um refrigerante de canudinho e, de repente, engolir um elefante. O patógeno não passa pela raiz. É muito grande. Também por isso, desaconselhamos totalmente o uso de regadores e mangueiras na aplicação do fertilizante. Para que seja segura, ela deve ser feita pelo subsolo”, afirma Tonetti. O artigo Risk assessment of a septic tank variant used for the blackwater treatment pode ser lido em https://link.springer.com/article/10.1007/s10661-025-14530-4. (Fonte: Fapesp)

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