Publicidade
RÚSSIA x UCRÂNIA

Fertilizantes orgânicos podem ser alternativa no Brasil

Fertilizantes orgânicos podem ser alternativa no Brasil

E, em 2020, as vendas dos fertilizantes orgânicos, cuja maior parte é obtida na compostagem de resíduos, já haviam se expandido em 44,5%.

O que já era ruim, pode piorar – a grande dependência da agricultura brasileira por fertilizantes importados ganha mais uma preocupação neste momento: o conflito entre Rússia e Ucrânia, uma vez que os russos são nossos maiores fornecedores de potássio para fertilizantes. Antes, o abastecimento de fertilizantes minerais já vinha enfrentando dificuldades devido à crise logística desencadeada pela pandemia, com a falta de contêineres e atrasos operacionais nos portos e também com a proibição, pela Lituânia, do transporte em seu território de produtos da Bielorrússia, uma das maiores fontes mundiais de potássio.

Nesse cenário, surgem como alternativa os fertilizantes orgânicos, “que potencializam e aumentam a eficiência no aproveitamento dos nutrientes contidos nos minerais, ganhando importância ímpar no mercado”, salienta o engenheiro agrônomo Fernando Carvalho Oliveira, da Tera Ambiental.

Os fertilizantes orgânicos são produzidos pela Tera Nutrição Vegetal, por meio da compostagem de resíduos orgânicos em escala industrial. Nos últimos quatro anos, a empresa produziu e comercializou a totalidade de sua produção, ou seja, 196 mil toneladas de fertilizantes orgânicos compostos.

Os números estão em linha com os dados gerais do segmento. Estimativa da Associação Brasileira de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo) indica que o mercado de fertilizantes especiais do Brasil deve ter crescido 24% no ano passado, na comparação com o anterior. E, em 2020, as vendas dos fertilizantes orgânicos, cuja maior parte é obtida na compostagem de resíduos, já haviam se expandido em 44,5% na comparação com 2019, passando de R$ 231 milhões para R$ 334 milhões.

Considerando a dinâmica da agricultura brasileira, a demanda por fertilizantes em geral deverá continuar elevada, avalia Oliveira: “o País importa cerca de 85% dos adubos de origem mineral, apresentando forte dependência externa. Assim, dado o cenário que tem dificultado as compras internacionais e o câmbio, com a moeda nacional desvalorizada, há espaço crescente para os fertilizantes orgânicos. Estes não substituem, mas potencializam os efeitos dos minerais, propiciando maior aproveitamento de seu uso”.

Artigos Relacionados

Saneamento Ambiental Logo
COMPOSTAGEM
Mineradoras processam resíduos de operações

Com duas minas de caulim no município de Ipixuna do Pará (PA), a mineradora Imerys utiliza o processo da PPSA, replicado para outra mina da empresa, a RCC, onde aproximadamente 60% de todo o resíduo orgânico gerado é aproveitado. “São muitas possibilidades, porque também podemos compostar cascas, grãos e sementes em geral, a borra e o filtro do café, o saquinho do chá, o hashi da comida japonesa”, conta o técnico Ambiental da Imerys, Mauro Cunha. Segundo a Abrelpe, cerca de 51% de todos os resíduos produzidos no Brasil são orgânicos, o que significa 36,5 milhões de toneladas por ano, sendo que apenas 1% é tratado de forma adequada. Na mina PPSA, a Imerys constata média mensal de aproximadamente duas toneladas de resíduos orgânicos geradas no restaurante, que são 100% reaproveitados na compostagem. “No ano passado, colocamos a máquina de compostagem em operação. Os custos com toda a destinação final para empresas que recolhiam os resíduos orgânicos para incineração praticamente foram zerados. Além do ganho econômico, temos o ganho ambiental, utilizando o material processado na compostagem como adubo nas áreas de recuperação”, afirma Rafael Ferreira, biólogo da Imerys. O processo de compostagem reaproveita a matéria orgânica contida em restos de origem animal ou vegetal, que por meio de um processo biológico de decomposição formam um composto orgânico que pode ser aplicado no Programa de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD) para ajudar no enriquecimento da matéria orgânica. “Entre os principais benefícios da compostagem estão a destinação mais adequada dos resíduos orgânicos para natureza; a substituição do uso de adubos químicos por compostos orgânicos no meio ambiente e a redução da quantidade de resíduos a serem enviados para aterros sanitários”, conclui Mauro Cunha. Já a Mineração Rio do Norte (MRN), que opera a mineração de bauxita no distrito de Porto Trombetas, em Oriximiná (PA) reaproveita em média cinco toneladas mensais de resíduos orgânicos através da compostagem, realizada desde 2002 pela Gerência de Administração de Infraestrutura da empresa, atendendo às legislações ambientais vigentes. “Ao realizar o reaproveitamento desse tipo de resíduos, o produto da compostagem, que é o adubo orgânico, é utilizado em jardinagem das residências da vila de Porto Trombetas”, comenta Carlisson Alves Romano, Engenheiro Sanitarista e Ambiental da MRN. A compostagem é realizada na Central de Tratamento de Resíduos Sólidos Urbanos (CTR) e visa reduzir a quantidade de resíduos descartados no aterro sanitário do distrito. Esta etapa faz parte do programa de coleta seletiva de resíduos sólidos, feita pelos moradores. “Para que o processo de compostagem dê certo, é necessário que a coleta seletiva de resíduos sólidos seja atendida. Os resíduos orgânicos coletados são direcionados para a CTR. Lá, acontece a mistura com resíduo vegetal (capim/grama) oriundos do serviço de roçagem das áreas verdes da vila residencial. O processo de mistura de orgânicos com vegetal ocorre numa área específica da CTR. O tempo de processo é de 90 a 110 dias”, relata Carlisson. Entre os benefícios da compostagem para a MRN está à redução de resíduos destinados para o aterro sanitário e, consequentemente, o aumento da vida útil do aterro, a doação do adubo orgânico para moradores da vila residencial, que o utilizam em jardinagem, e o valor ambiental desta boa prática.

16 de março, 2020
Saneamento Ambiental Logo
FAO
Degradação atinge 30% dos solos no mundo

Um estudo coordenado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) envolvendo 600 pesquisadores de 60 países revelou que ameaças como erosão, compactação, desequilíbrio de nutrientes e perda de matéria orgânica atingem mais de 30% dos solos em todo o mundo. O levantamento pode ser conferido no livro “Estado da Arte do Recurso Solo no Mundo” ( Status of the world´s soil resources ). A pesquisa traz uma perspectiva global sobre as condições atuais do solo, seu papel na prestação de serviços ecossistêmicos, como produção de água e sequestro de carbono, bem como sobre as ameaças à sua contribuição para a produção desses serviços. Segundo a pesquisadora da Embrapa Solos Maria de Lourdes Mendonça Santos Brefin, membro do comitê editorial e coordenadora da publicação para a América Latina e Caribe, a perspectiva é de que a situação possa piorar se não houver ações concretas que envolvam indivíduos, setor privado, governos e organizações internacionais. "A principal conclusão do livro não é boa. O índice de degradação no mundo é alto e provocado principalmente por erosão, compactação, perda de matéria orgânica e desequilíbrio de nutrientes", revela a pesquisadora. Caso o problema erosivo continue neste ritmo, a expectativa é que ocorra perda total de 10% até 2050. A erosão em solo agrícola e de pastagem intensiva varia entre cem a mil vezes a taxa de erosão natural e o custo anual de fertilizantes para substituir os nutrientes perdidos pela erosão chega a US$ 150 bilhões. Já a compactação pode reduzir em até 60% os rendimentos mundiais das culturas agrícolas. "No mundo, a compactação tem degradado uma área estimada de 680 mil km2 de solo, ou cerca de 4% da área total de terras", revela Lourdes, que também compôs o grupo de 27 especialistas do Painel Técnico Intergovernamental do Solo (ITPS) da Organização das Nações Unidas. O pisoteio dos rebanhos e a cobertura insuficiente do solo pela vegetação natural ou pelas culturas são responsáveis pela compactação de 280 mil km2 na África e Ásia, uma área maior do que o território da Nova Zelândia. Os danos causados pela compactação do solo podem ser de longa duração ou permanentes. Uma compactação que aconteça hoje pode levar à redução da produtividade das culturas até 12 anos mais tarde. No entanto, o estudo revela que o principal problema para melhorar a produção de alimentos e as funções do solo em muitas paisagens degradadas é a falta de nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo, bem como insumos orgânicos. Quase todo o continente africano – com exceção de três países - retira mais nutrientes do solo a cada ano do que é devolvido por meio do uso de fertilizantes, resíduos da produção, estrume e outras matérias orgânicas. Em outras regiões a oferta excessiva de nutrientes contamina o solo e os recursos hídricos e contribui para as emissões de gases de efeito estufa. Em 2010, as emissões de óxido nitroso dos solos agrícolas provocadas pela adição de fertilizantes sintéticos foram equivalentes a 683 milhões de toneladas de CO2. O livro não aponta só os problemas. O relatório mostra caminhos sobre como lidar com essas ameaças ao solo. Para interromper a degradação do solo é necessário focar em quatro pilares definidos pela União Europeia: aumento do conhecimento, pesquisa, integração da proteção do solo na legislação existente e um novo instrumento legal (lei). A publicação recomenda oito técnicas para evitar a degradação do solo: minimizar o revolvimento, evitando a colheita mecanizada; aumentar e manter uma camada protetora orgânica na superfície do solo, usando grãos de cobertura e resíduos desses grãos; cultivo de uma grande variedade de espécies de plantas – anuais e perenes − em associações, sequências e rotações que podem incluir árvores, arbustos, pastos e grãos; usar espécies bem adaptadas para resistir aos estresses bióticos e abióticos e com boa qualidade nutricional, plantadas no período apropriado; aumentar a nutrição dos grãos e a função do solo, usando rotação de grãos e uso criterioso de fertilizantes; assegurar o manejo integrado de pestes, doenças e sementes usando práticas apropriadas e pesticidas de baixo risco quando necessário; gerenciamento correto do uso da água e, por último, controlar as máquinas e o tráfego nas propriedades a fim de evitar a compactação. No Brasil em 2012, a Embrapa, ao lado do Tribunal de Conta da União (TCU), reuniu autoridades brasileiras e mundiais durante três dias de debates sobre solos. Na ocasião foi elaborada a Carta de Brasília , com recomendações aos tomadores de decisão sobre o manejo e conservação da terra. Outra ação importante foi a implementação do Programa Nacional de Solos do Brasil (Pronasolos), que reúne um grupo de especialistas a fim de criar instrumentos para a governança dos solos no Brasil. Capitaneado pela Embrapa Solos envolve dez centros de pesquisa da Embrapa, quatro universidades, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

20 de julho, 2016