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SANEAMENTO

Governo investe R$ 187 milhões em Programa Nacional de Saneamento e reforça ações de saúde indígena

Governo investe R$ 187 milhões em Programa Nacional de Saneamento e reforça ações de saúde indígena

Governo investe R$ 187 milhões em Programa Nacional de Saneamento, ampliando abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto. Iniciativa também reforça ações de saúde e saneamento em territórios indígenas.

O saneamento básico nas aldeias brasileiras — uma das carências mais antigas e graves enfrentadas pelos povos indígenas — ganhou um programa próprio. O Programa Nacional de Saneamento Indígena (PNSI), lançado nesta quinta-feira (9) em Brasília durante encontro com lideranças de todo o país, prevê R$ 187 milhões em investimentos para 2026. Desse total, R$ 132 milhões serão destinados ao abastecimento de água, R$ 36 milhões ao esgotamento sanitário e R$ 19 milhões ao manejo de resíduos sólidos.

A criação de um programa específico para o saneamento em territórios indígenas é considerada uma mudança de abordagem na execução dessas políticas. Até então, as ações eram fragmentadas e nem sempre levavam em conta as particularidades de cada território. O PNSI propõe soluções construídas a partir da escuta das comunidades, com tecnologias adequadas à realidade local. Segundo a secretária de Saúde Indígena (SESAI), Lucinha Tremembé, o saneamento sempre esteve entre as maiores demandas históricas dos povos indígenas, e o programa nasce justamente dessa escuta direta.

Resultados recentes mostram avanço expressivo

Os números dos últimos três anos já indicam uma aceleração significativa nas obras de saneamento em territórios indígenas. Entre 2022 e 2025, 738 aldeias passaram a contar com sistemas de água potável. No mesmo período, o volume de obras de saneamento concluídas saltou de 96 para 278 — um crescimento de 189%. Esse avanço tem impacto direto na redução de doenças de veiculação hídrica, que historicamente figuram entre as principais causas de internação e mortalidade nas aldeias, especialmente entre crianças.

Com o PNSI, a expectativa é que esse ritmo se intensifique. O programa organiza as ações em três eixos claros — água, esgoto e resíduos — e estabelece metas e orçamento dedicados, o que facilita o acompanhamento da execução e a cobrança por resultados.

Saneamento como parte de um investimento recorde

O programa de saneamento está inserido em um contexto de ampliação geral dos recursos para a saúde indígena. O orçamento do setor saltou de R$ 1,5 bilhão em 2022 para R$ 2,9 bilhões em 2025, um aumento de 93%. É o maior volume de investimento já registrado na área, e o saneamento ocupa papel central nessa estratégia, dado seu impacto transversal: aldeias com acesso a água tratada e esgotamento adequado têm menos internações, menos surtos e melhores indicadores nutricionais.

Infraestrutura de saúde acompanha o avanço do saneamento

Paralelamente às obras de saneamento, a rede de infraestrutura de saúde nos territórios também está em expansão. Foram assinadas ordens de serviço para 22 novas Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSI) em sete estados (CE, MA, MT, PA, PR, PB e SC), com investimento de R$ 20,7 milhões pelo PAC. A meta até 2027 é entregar 109 novas UBSI — 42 já estão concluídas e 67 em construção. No total, a rede de edificações cresceu 128%, de 38 para 87 estruturas, e em 2026 todos os estados do Brasil passaram a contar pela primeira vez com unidades de saúde indígena.

A ampliação da infraestrutura física vem acompanhada de reforço profissional. O número de médicos nos territórios subiu de 188 para 731 entre 2022 e 2025, alta de 288%. No território Yanomami, a equipe de saúde triplicou, passando de 690 para mais de 2.130 profissionais. Atualmente, 69% da força de trabalho nos DSEI é indígena.

Atendimento especializado chega a regiões remotas

Além do saneamento e da infraestrutura, o programa Agora Tem Especialistas vai levar cerca de 12 mil atendimentos a aproximadamente 650 aldeias, por meio de cinco expedições com equipes de clínica médica, pediatria, ginecologia, oftalmologia e dermatologia. Carretas de saúde da mulher também percorrerão Santarém (PA), Pacaraima (RR), São João das Missões (MG) e Barra do Garças (MT) com foco em diagnóstico precoce de câncer de mama e colo do útero.

Na frente de emprego e qualificação, foram abertas 150 vagas no Primeiro Emprego Indígena e 110 no Jovem Aprendiz para indígenas de 14 a 22 anos.

Um desafio que vai além da saúde

O cacique Raoni Metuktire, presente no evento, lembrou que saúde e território são indissociáveis para os povos indígenas. "Precisamos cuidar da nossa saúde, mas também proteger nossas terras", afirmou. O saneamento, nesse sentido, é um elo fundamental: aldeias com infraestrutura básica adequada têm melhores condições de permanência e resistência nos seus territórios.

O Brasil conta hoje com 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas, 388 polos base de saúde, 70 Casas de Saúde Indígena e 1.003 UBSI espalhadas pelo país.

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Saneamento vive momento de otimismo

O capítulo do saneamento básico no Brasil é muito sério e perturbador, porque um país com nossa pujança e potencial econômico ainda possui 100 milhões de brasileiros que não têm acesso à rede de esgoto e 35 milhões estão sem acesso à água potável. O Instituto Trata Brasil calcula que em todo território nacional, a cada dia, são lançadas 5.622 piscinas olímpicas de esgoto não tratado em solo, córregos, rios, mar e demais cursos d’água, enquanto de acordo com especialistas da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), para cada R$ 1 investido pelos governos em saneamento básico há uma economia de R$ 4 em despesas com o sistema de saúde do País. O fato é que existe uma relação de causa efeito entre saneamento básico e saúde pública e por isso a situação do saneamento tem reflexos imediatos nos indicadores de saúde. Como se pode verificar nas estatísticas, a taxa de mortalidade infantil, em 2017, no Brasil foi de 12,8 mortes por 1 mil nascidos vivos. Enquanto isso no Japão, naquele mesmo ano, morria no primeiro mês de vida 1 bebê para cada 1,1 mil recém-nascidos. E há outros números a avaliar. O indicador que leva em consideração a cobertura por saneamento atual e sua evolução recente - o Índice de Desenvolvimento do Saneamento – na atual fase é inferior não só às médias da América do Norte e da Europa, mas também às de alguns países do Norte da África e Oriente Médio, populações de renda média bem mais baixa que do Brasil. Isso pode sugerir que a pauta do saneamento não tem sido devidamente mensurada e trabalhada como deveria e que algo precisa ser feito com mais empenho no futuro próximo para o bem do País. Os últimos levantamentos apontam que o Brasil ocupa apenas a 112ª posição no ranking de saneamento entre 200 países pesquisados. Nações menos desenvolvidas economicamente que o Brasil como Equador, Chile, Honduras e Argentina registraram índices de saneamento muito superiores aos do Brasil, segundo o Instituto Trata Brasil e Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Possivelmente, as políticas públicas nesses Estados pan-americanos têm sido mais atentas ao problema e aos respectivos desdobramentos sociais e sanitários. Pesquisadores de engenharia de saúde pública da Fundação Nacional de Saúde interpretam que se houver qualidade e quantidade adequada de água, diminuirão as doenças que têm veiculação hídrica, ou seja, com aquela água que está vinculada à transmissão de doenças por conter microrganismos ou bactérias. Entre elas figuram especialmente a diarreia e a esquistossomose. Hoje, a diarreia causa 1,9 milhão de mortes infantis anualmente pelo mundo. O fato é simples: se as doenças como estas forem reduzidas também será diminuída a frequência de visitas aos médicos e aos serviços de saúde públicos, o que significa um declínio nos gastos com determinadas enfermidades graves. Atualmente, conforme dados revelados por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, do total das doenças diagnosticadas na população brasileira, 4,2% têm origem na falta de saneamento básico. Apesar de o saneamento ser considerado por muitos como uma atribuição municipal, o serviço tem sido delegado a empresas estaduais. Mas já temos competição no setor, o que é um avanço. No momento, mais de 30 milhões de habitantes, em cerca de 320 municípios, são atendidos por empresas privadas. Na verdade, o que interessa não é essa discussão, mas servir bem ao cidadão. É urgente a necessidade de se aumentar os investimentos para fortalecer sistemas de saneamento básico e, também, elevar a oferta de serviços de qualidade. Não há como negar a nossa triste realidade, entretanto faço parte de um grupo otimista e entusiasmado. Vivemos um momento no qual desponta a oportunidade única para ver, de maneira clara, que o aumento da produtividade e o uso de recursos privados são essenciais para dar aos cidadãos mais saúde e qualidade de vida. Hoje, há um ambiente favorável à universalização do acesso ao saneamento e uma concordância sobre a gravidade do problema que compromete saúde, renda e bem-estar dos brasileiros. Nosso desafio é colocar à disposição do Brasil capacidade técnica para por em execução projetos de qualidade para o setor, contando com o conhecimento e habilidade de técnicos multifuncionais. Sabemos que é possível oferecer aos governos saídas com o avanço da tecnologia. Devemos enfatizar, no entanto, que nossa indústria já dispõe de soluções e inovações tecnológicas, que serão de suma importância para o desenvolvimento do saneamento no País. Não se pode perder de vista de que quanto mais o saneamento sofrer atraso no Brasil, haverá mais mortes, doenças e indignação. Uma boa saída ou melhoria será encontrada em breve, como também é certo que experimentaremos a ampliação dos sistemas de saneamento com água limpa e esgoto tratado para todos os cidadãos, independentemente da região do Brasil. Isso porque investir em saneamento é garantir altas taxas de retorno social. Como disse Henri Bergson, diplomata francês, Nobel de Literatura, “o futuro só nasce no momento em que é vivido”. Os brasileiros querem água potável, coleta e tratamento de esgoto. Então, não há como finalizar nossa reflexão sem grande otimismo, confiança e previsão de boas perspectivas. No saneamento básico, o futuro começa agora. *Estela Testa é engenheira e presidente do SINDESAM - Sistema Nacional das Indústrias de Equipamentos para Saneamento Básico e Ambiental

3 de março, 2020