O Brasil não tem reciclado suficiente para cumprir sua própria lei

O Brasil enfrenta o desafio de expandir a economia circular e cumprir metas de reciclagem, pois a maioria dos resíduos plásticos ainda é destinada a aterros, impedindo o suprimento da demanda por matéria-prima reciclada, especialmente com a nova regulamentação para pequenas e médias empresas.
O segundo semestre de 2026 marca um novo momento para a economia circular brasileira. As exigências para recuperação e incorporação de material reciclado em embalagens plásticas passam a alcançar também pequenas e médias empresas, ampliando uma agenda regulatória que já vinha sendo aplicada às grandes indústrias. O desafio, porém, é evidente: como aumentar o uso de matéria-prima reciclada se continuamos destinando aos aterros justamente os materiais que poderiam abastecer essa demanda?
O Brasil ainda enterra riqueza. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da ABREMA, o país gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024, o equivalente a cerca de 384 quilos por habitante. Apesar desse volume, apenas uma pequena parcela retorna efetivamente ao ciclo produtivo, enquanto milhões de toneladas continuam sendo descartadas, justamente quando a indústria precisará ampliar a oferta de materiais reciclados para cumprir as novas exigências legais.
Sempre que um resíduo reciclável segue para um aterro, perdemos matéria-prima, energia, empregos e competitividade. Ao interromper a vida útil desses materiais, obrigamos a extração de novos recursos naturais, ampliando custos para a indústria e impactos ambientais que poderiam ser evitados. O problema não está apenas no comportamento do consumidor. É estrutural. A coleta seletiva ainda é insuficiente, os polos de reciclagem permanecem concentrados em poucas regiões, a logística encarece a recuperação de materiais e faltam incentivos capazes de equilibrar oferta e demanda. O resultado é um mercado que ainda não consegue fornecer e aplicar, em escala, o uso de conteúdo reciclado que a própria legislação começa a exigir.
Essa realidade transforma a economia circular em uma agenda de competitividade, não apenas de sustentabilidade. Empresas que estruturam ou se integram às cadeias de reciclagem reduzem sua dependência de matérias-primas virgens, ficam menos expostas à volatilidade dos mercados internacionais e fortalecem a segurança de abastecimento em um cenário de crescente pressão regulatória. O desperdício também tem impactos sociais. Milhares de cooperativas e organizações de catadores dependem da reciclagem para gerar renda. Ao recuperar mais materiais, fortalecemos esse ecossistema, movimentamos economias locais e reduzimos a pressão sobre aterros sanitários, cuja implantação exige áreas cada vez mais escassas e investimentos elevados.
O debate também precisa ser visto sob a ótica econômica. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estima que o modelo global atual de gestão de resíduos gera um custo de US$ 361 bilhões por ano em impactos ambientais, climáticos e de saúde pública. Em contrapartida, a adoção de práticas de economia circular pode gerar um benefício líquido anual de US$ 108 bilhões, demonstrando que recuperar materiais deixou de ser apenas uma agenda ambiental para se tornar uma estratégia de desenvolvimento. O Brasil possui uma legislação consistente para impulsionar essa transformação. O desafio agora é criar condições para que municípios, empresas e toda a cadeia da reciclagem consigam implementá-la de forma efetiva. As novas metas para embalagens plásticas representam mais do que uma obrigação regulatória. Elas indicam qual será o modelo econômico predominante nos próximos anos. Países que enxergarem resíduos como matéria-prima ganharão competitividade. Quem insistir em tratá-los apenas como descarte continuará desperdiçando recursos que já possui. O Brasil tem potencial para liderar a economia circular. Mas isso só acontecerá quando deixarmos de enterrar a matéria-prima que a própria indústria precisará para crescer.
Por Leonardo Lopes, Diretor de Operações da Yattó












