RESTAURAÇÃO FLORESTAL

Startup planeja recuperar 1 milhão de hectares na Mata Atlântica e Amazônia

Startup planeja recuperar 1 milhão de hectares na Mata Atlântica e Amazônia

O feito representa uma das maiores e mais longevas experiências em restauração florestal no Brasil, contudo, está muito aquém do total da área que precisa ser reflorestada no país, avalia o cientista.

Nos últimos 26 anos o professor Ricardo Ribeiro Rodrigues e sua equipe desenvolveram o Programa de Adequação Ambiental e Agrícola de Propriedades Rurais do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal (LERF) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e conseguiram atingir a marca de mais de 60 mil hectares de áreas florestais em processo de recuperação no país. O feito representa uma das maiores e mais longevas experiências em restauração florestal no Brasil, contudo, está muito aquém do total da área que precisa ser reflorestada no país, avalia o cientista. “Esse número de 60 mil hectares de floresta que conseguimos restaurar em todo o Brasil é muito representativo para o nosso programa, mas, se pensarmos na escala para o País, é muito pouco. É necessário recuperar 12 milhões de hectares com floresta. Por meio do programa, só atingimos 5% dessa meta”, disse Rodrigues em palestra durante o Fórum Brasil-França “Florestas, Biodiversidade e Sociedades Humanas, que ocorreu entre os dias 1º e 2 de outubro, no auditório da FAPESP.

Com o objetivo de aumentar a escala da restauração florestal no Brasil, Rodrigues, em parceria com outros cientistas locais com experiência na área, aderiu há três anos à proposta de uma startup brasileira, fundada por fundos de investimentos como a Lanx Capital, de Marcelo Medeiros e Marcelo Barbará, o BW, family office dos Moreira Salles, a Gávea Investimentos, do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e a Dynamo. Batizada de Re.green, o objetivo da empresa é restaurar 1 milhão de hectares na Mata Atlântica – o bioma brasileiro mais degradado – e na Amazônia e, dessa forma, capturar 15 milhões de toneladas de carbono por ano. “Aderi à iniciativa, junto com colegas como o professor Pedro Brancalion [também da USP], e levei os melhores integrantes da minha equipe”, disse.

Rodrigues comenta que na Amazônia o foco será no chamado “Arco do Desmatamento”, uma área de 500 km² onde a maior parte do desmatamento ocorre, estendendo-se do oeste do Maranhão, passando pelo sul do Pará, Mato Grosso, Rondônia e Acre. “Pretendemos transformar o arco do desmatamento em arco da restauração”, afirmou Rodrigues.

Uma das formas de remuneração dos investidores da startup é pela venda de créditos do carbono sequestrado pelas áreas reflorestadas. “Fazemos a conta de quanto cada restauração florestal acumula de carbono e vendemos essa adicionalidade”, explicou Rodrigues. A metodologia para elaborar o cálculo é baseada nos resultados de um projeto apoiado pela Fapesp e coordenado por Brancalion e do qual Rodrigues foi um dos pesquisadores principais, em que avaliaram o nível de estocagem de carbono em florestas restauradas em diferentes modelos e condições de reflorestamento. Os pesquisadores analisaram 800 parcelas de floresta, distribuídas por toda a Mata Atlântica, com uma amostragem de 70 mil árvores de 1.200 espécies. Os resultados dos estudos indicaram que as porções de floresta degradada acumulam carbono em volume quase semelhante ao de floresta conservada. “Por isso é muito interessante incentivarmos esse tipo de restauração florestal para fins econômicos, como a gente chama, porque elas permitem acumular muito carbono”, avaliou Rodrigues.

Para realizar os projetos, a startup compra ou arrenda fazendas com terras originalmente de floresta que foram convertidas em pastagens e remunera os proprietários pela concessão dessas áreas restauráveis. Um modelo desenvolvido no laboratório de Rodrigues avalia qual o melhor modelo de restauração das áreas adquiridas. “Para cada fazenda, temos a possibilidade de aplicar 60 modelos diferentes de restauração, levando em conta fatores como o potencial de regeneração natural, de estocagem de carbono, comercialização de produtos madeireiros extraídos de maneira sustentável, prestação de serviços ecossistêmicos e nível de mecanização”, detalhou Rodrigues.

A restauração é feita com espécies nativas brasileiras, como o jequitibá-rosa (Cariniana legalis), o jacarandá-da-bahia (Dalbergia nigra), o ipê-roxo-de-bola (Handroanthus impetiginosus) e o pau-brasil (Paubrasilia echinata), cultivadas no viveiro de mudas Bioflora, localizado em Piracicaba. A empresa foi apoiada pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da Fapesp. O viveiro, que produz hoje 2,5 milhões de mudas por ano de espécies nativas brasileiras, foi fundado em 1998 por uma equipe que hoje faz parte da startup, liderada por Rodrigues, e foi incorporado pela Re.green em 2021. “Conseguimos estimar os níveis de estoque de carbono para cada espécie nativa que cultivamos, em diferentes idades e ambientes, a fim de mostrar que a silvicultura também pode ser uma fonte de retorno interessante para os investidores nesses projetos de restauração florestal”, afirmou Rodrigues.

Atualmente, a empresa possui 16,5 mil hectares de área em restauração e 16,9 mil em conservação. O primeiro projeto de restauração na Amazônia foi iniciado em outubro de 2023 em uma propriedade única com 8.427 hectares restauráveis, situados nos Estados do Maranhão e do Pará. “Esse é o maior projeto de restauração de área contínua na América do Sul”, afirmou Rodrigues. As primeiras análises dos resultados dos projetos em andamento indicaram que, com os modelos de restauração desenvolvidos pela empresa, tem sido possível acumular nas áreas reflorestadas 14% a mais de estoque de carbono do que o estimado inicialmente.

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