ENERGIA

Toyota Tsusho e Toho Gas avançam com planta de biogás à base de resíduos de cana no Brasil, com apoio do governo japonês

Toyota Tsusho e Toho Gas avançam com planta de biogás à base de resíduos de cana no Brasil, com apoio do governo japonês

Toyota Tsusho e Toho Gas avançam com planta de biogás a partir de resíduos de cana-de-açúcar no Brasil, com subsídio do governo japonês. Demonstração iniciará em julho de 2028.

A Toyota Tsusho Corporation e a Toho Gas Co., Ltd. anunciaram que o projeto conjunto das duas empresas para produção de biogás a partir de resíduos de cana-de-açúcar no Brasil foi selecionado pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão (METI) dentro do programa de subsídios Global South Future-Oriented Co-Creation Project, na modalidade de grandes projetos de demonstração para países fora do Sudeste Asiático, custeada pelo orçamento suplementar do ano fiscal de 2025. Com a seleção, as companhias japonesas iniciam agora os preparativos para colocar em operação uma planta de demonstração, com início previsto para julho de 2028.

O projeto nasce de um acordo de desenvolvimento conjunto já firmado entre Toyota Tsusho, Toho Gas e a Sebigas Cótica Bioenergia Ltda., especializada em biogás e biometano no Brasil. As três companhias vêm conduzindo estudos para a construção e operação de uma planta-piloto no país, e o subsídio japonês agora recém-concedido deve acelerar essa etapa, permitindo reunir mais rapidamente o conhecimento técnico necessário para uma eventual produção em larga escala.

Como funciona a planta de demonstração

Segundo o comunicado das empresas, a planta será erguida dentro das instalações de uma usina de açúcar e etanol operada pela parceira brasileira e vai testar todo o processo de produção de biogás a partir de resíduos até então não aproveitados pela indústria sucroenergética — da coleta da matéria-prima ao pré-tratamento e à fermentação. A capacidade prevista é de 5.000 m³ de biogás por dia, volume que servirá de base para identificar condições operacionais e reunir dados voltados à futura produção em escala comercial.

Trata-se da primeira vez que Toyota Tsusho e Toho Gas realizam verificações técnicas com o objetivo específico de aumentar a produção de biogás por meio do uso de resíduos ainda não explorados em uma única usina. A operação da planta está programada para ir de julho de 2028 a janeiro de 2030.

Para viabilizar o empreendimento no Brasil, Toyota Tsusho e Toho Gas vão se associar ao Mizuho Bank e à Cótica Energia e Participações Ltda. na constituição de uma sociedade de propósito específico (SPC) no país — Sebigas Cótica Bioenergia e Cótica Energia e Participações integram o mesmo grupo empresarial, segundo as próprias companhias. A formação dessa nova empresa já foi submetida à análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que avalia a operação como um ato de concentração econômica. De acordo com reportagem do portal Energia Limpa, a planta-piloto ficará localizada em São Manuel, no interior paulista, região de forte presença da indústria sucroenergética.

Da parceria com a Ferrari Agroindústria ao projeto atual

O movimento anunciado agora é um desdobramento de um acordo mais amplo firmado em fevereiro de 2025, quando Toyota Tsusho, Toho Gas, Sebigas Cótica Bioenergia e a usina Ferrari Agroindústria S.A. (FAI) assinaram um acordo de desenvolvimento conjunto para estudar um projeto-piloto de biometano a partir de resíduos de cana, com capacidade prevista de 5.500 Nm³ por dia e início de operação estimado para 2026. Naquela ocasião, a Toyota Tsusho assumiu a liderança e a gestão geral do projeto, a FAI ficou responsável pelo fornecimento de matéria-prima, utilidades e terreno, a Toho Gas pelo desenvolvimento do mercado japonês e a Sebigas Cótica pela engenharia e tecnologia da planta.

O projeto agora selecionado pelo METI representa uma nova fase dessa iniciativa, com arranjo societário ampliado — a entrada do Mizuho Bank e da Cótica Energia e Participações na estrutura de capital — e escopo tecnológico mais específico, voltado à ampliação da produção a partir de resíduos ainda não utilizados em uma usina. As empresas afirmam que a estratégia de longo prazo seguirá com foco na demanda por combustível para mobilidade dentro do Brasil, mirando a comercialização do negócio e, no futuro, a exportação de biometano para o Japão.

Potencial do Brasil e atraso na exploração

O interesse das empresas japonesas no setor sucroenergético brasileiro não é isolado. Segundo a Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), o Brasil possui um potencial teórico de biometano estimado em 120 milhões de Nm³ por dia, dos quais o setor sucroenergético responde por quase metade — 48,9% do total, à frente dos setores de proteína animal, agrícola e de saneamento. Levantamentos recentes apontam que o setor sucroenergético brasileiro tem potencial para gerar anualmente 41,2 bilhões de m³ de biogás conversíveis em biometano, equivalente a 41 bilhões de litros de diesel, mas que menos de 2% desse volume é efetivamente aproveitado atualmente.

Apenas na safra 2024/2025, o país processou cerca de 680 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, gerando um volume estimado em 380 bilhões de litros de vinhaça — um dos principais insumos para a produção de biogás nas usinas. O Brasil já conta com 755 unidades produtivas de biogás registradas e vive, segundo especialistas do setor, uma fase de expansão entre 2024 e 2030. É justamente nesse contexto de subaproveitamento de um potencial considerado o maior do mundo que projetos como o da Toyota Tsusho e da Toho Gas ganham relevância estratégica, tanto para a diversificação da matriz energética brasileira quanto para abrir uma rota de exportação de tecnologia e de produto.

Marco regulatório do biometano no Brasil

O timing do projeto também dialoga com mudanças recentes na regulação do setor. A Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024), sancionada em outubro de 2024, criou o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano, que estabelece metas obrigatórias de redução de emissões de gases de efeito estufa no mercado de gás natural a partir do uso de biometano. A meta entrou em vigor em janeiro de 2026, com valor inicial de 1%, podendo chegar a até 10% do volume comercializado, conforme definido pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).

O Decreto 12.614/2025 regulamentou esse programa, e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou, em fevereiro de 2026, duas resoluções que estruturam a emissão do Certificado de Garantia de Origem de Biometano (CGOB) e os critérios para individualização das metas anuais de produtores e importadores de gás natural. Essas regras passam a vincular o cumprimento das metas de descarbonização à comprovação de origem do biometano, criando um mercado de certificados que tende a reforçar a atratividade de novos projetos de produção, como o anunciado por Toyota Tsusho e Toho Gas.

Estratégias das empresas envolvidas

Para a Toyota Tsusho, o projeto se insere na chamada Estratégia da Zona Econômica de Gondwana, voltada aos mercados de crescimento da África, Índia e América do Sul. A trading japonesa pretende usar a demonstração no Brasil como modelo de produção e fornecimento de biogás que, no futuro, possa ser replicado em outros países com grande disponibilidade de biomassa dentro dessa mesma zona econômica.

Já a Toho Gas, distribuidora de gás natural da região de Nagoia, no Japão, tem como meta alcançar a neutralidade de carbono em toda a sua cadeia de suprimento até 2050, e vem buscando soluções de descarbonização que incluem o biogás como uma de suas frentes de atuação, ao lado de outras tecnologias de fornecimento energético neutro em carbono.

Os valores do subsídio concedido pelo METI e o montante total de investimento previsto para a planta de demonstração não foram divulgados pelas empresas até o momento.

Artigos Relacionados