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Adaptação às mudanças climáticas deve andar de mãos dadas com os esforços de descarbonização

Adaptação às mudanças climáticas deve andar de mãos dadas com os esforços de descarbonização

Por Paulo Henrique de Mello Sant'Ana (*) Devido à inércia do sistema climático e ao fracasso sistêmico das políticas globais, a meta estabelecida no Acordo de Paris, em 2015, de limitar o aquecimento a 1,5°C está, para todos os efeitos, fora de alcance.

O clima da Terra carrega o impacto das emissões de gases causadores do efeito estufa acumuladas desde a Revolução Industrial. Parto de um diagnóstico que muitos podem considerar pessimista, mas que eu chamo de “realismo de emergência”: nosso barco civilizacional já atingiu o iceberg das emissões passadas. Devido à inércia do sistema climático e ao fracasso sistêmico das políticas globais, a meta estabelecida no Acordo de Paris, em 2015, de limitar o aquecimento a 1,5°C está, para todos os efeitos, fora de alcance.

Reconhecer essa dura realidade não é um ato de pessimismo. É a premissa essencial para sobrevivermos. A partir daqui, precisamos de um esforço de guerra em duas frentes simultâneas.

A primeira, e mais negligenciada, é a adaptação, que consiste em respostas aos riscos das mudanças climáticas para proteger a população. Ela não pode mais ser tratada como uma “reflexão tardia”, mas sim elevada ao mesmo nível de prioridade da mitigação, que se refere às estratégias de diminuição de gases de efeito estufa.

O abismo que separa a necessidade da ação é colossal: enquanto o Adaptation Gap Report do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estima uma necessidade de até 387 bilhões de dólares por ano para adaptação, o financiamento público internacional foi de apenas 21,3 bilhões de dólares. Essa lacuna não é apenas um número; são os sistemas de alerta que não são instalados, as infraestruturas que não são construídas e, no fim, as vidas que são perdidas.

A segunda frente, a descarbonização, não pode ser abandonada. Pelo contrário, deve ser intensificada com “a fúria de quem luta pela sobrevivência”. Um esforço não anula o outro; eles são interdependentes.

Para não ficarmos paralisados pelo diagnóstico, é preciso provar que a adaptação funciona. Existem roteiros pragmáticos. Há estudos de caso de sucesso, que vão da engenharia hídrica dos Países Baixos – que, além de sistema de contenção de rios, inclui intervenções para o escoamento dos rios como o rebaixamento das planícies de inundação – à resiliência urbana de Cingapura – baseada, por exemplo, na infraestrutura permeável à água da chuva. Podemos aplicar esses aprendizados diretamente à urgente reconstrução do Rio Grande do Sul. Falo mais sobre essas e outras ideias no livro que escrevi, cujo título é: “Para Além da Negação: Realismo Climático e a Virada Urgente para a Adaptação” (Amazon).

O maior entrave não é falta de conhecimento técnico ou soluções prontas. É a falta de vontade política para implementar mudanças na escala e velocidade necessárias. Quebrar essa inércia exige liderança inequívoca do poder público, que deve assumir os esforços de descarbonização e de adaptação.

Mas essa liderança não pode ser isolada. A imprensa tem o papel de manter o tema no debate público de forma contínua e qualificada, ajudando a transformar ciência em compreensão popular e urgência política. A academia deve traduzir o conhecimento em soluções aplicáveis e acessíveis às comunidades e aos tomadores de decisão. A iniciativa privada, por sua vez, precisa reconhecer que investir em resiliência climática não é custo, mas garantia de continuidade de negócios e de mercados estáveis. E a sociedade civil deve pressionar, fiscalizar e participar das decisões que moldarão o seu próprio futuro. Somente com essa convergência de esforços – coordenada, persistente e ambiciosa – poderemos transformar o realismo de emergência em ação efetiva e resultados concretos.

Sobre o Autor

(*) Professor associado na Universidade Federal do ABC (UFABC), e discute em sua obra o futuro da energia no Brasil. Colaborou com o livro “Energia do Lixo”, vencedor do Jabuti Acadêmico de 2025 na categoria Engenharia.

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Com o futuro do planeta em jogo, a necessidade de soluções sustentáveis nunca foi tão clara como agora. A mudança do clima vem se intensificando, fazendo com que a transformação dos segmentos industriais seja uma prioridade global. Em 2025, o Brasil sediará a COP30, momento em que líderes de todo o mundo se reunirão para discutir a transição energética e os compromissos de redução das emissões de gases poluentes. Entretanto, enquanto as indústrias recebem atenção central nesses debates, a construção civil - um dos principais segmentos consumidores de energia e responsável por uma significativa pegada ambiental - ainda não ocupa o devido destaque nas discussões. Em um cenário no qual o tempo é um fator bastante crítico, a modernização do setor está aquém da urgência que a crise climática exige. Tanto construções novas quanto as existentes precisam ser integradas aos esforços para atingir as metas globais de sustentabilidade, além de promover o fortalecimento de cidades mais resilientes. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), em 2050, cerca de 68% da população mundial viverão em áreas urbanas que, apesar de representarem apenas 3% da superfície terrestre, consomem 78% da energia. Isso revela um grande potencial para diminuir o consumo e as emissões. As estruturas conectadas, por definição, utilizam tecnologias avançadas para aprimorar a eficiência operacional e ambiental. No Brasil, com sua verticalização crescente, essa mudança pode ser crucial para atingir as metas de sustentabilidade. Para renovar a área de edificações, é imprescindível adotar a digitalização e a conectividade como aliadas. Juntas, elas garantem o uso automatizado de recursos e viabilizam a integração com outras infraestruturas, como redes elétricas. Com o auxílio da internet das coisas (IoT) e de ferramentas interconectadas, os imóveis alcançam um novo nível de desempenho. Um exemplo são os sensores conectados que ajustam a temperatura e a iluminação conforme a presença de ocupantes, resultando em uma queda significativa de desperdícios e viabilizando uma gestão mais eficiente. Em regiões nas quais a variação climática é acentuada e eventos extremos, como tempestades e ondas de calor, são cada vez mais frequentes, essas tecnologias se tornam essenciais. Ao integrar sistemas com fontes renováveis, como a solar, é possível criar ambientes mais confortáveis e assegurar que a produção gerada seja armazenada e utilizada adequadamente. Esses dispositivos são configurados para responder prontamente de forma a ajustar a ventilação e melhorar a qualidade do ar interno, bem como empregar sombreamento dinâmico e ativar geradores, propiciando o fornecimento contínuo durante períodos de alta demanda. A implementação de soluções em edifícios inteligentes envolve despesas iniciais, mas, ao longo do tempo, os benefícios superam os custos, resultando no controle das despesas, maior competitividade no mercado e valorização do imóvel. Ao mesmo tempo, contribui para o aproveitamento mais estratégico dos recursos urbanos. As vantagens, contudo, transcendem a questão econômica. À medida que mais projetos se tornam inovadores, cresce a procura por profissionais capacitados, impulsionando a criação de empregos e o desenvolvimento de negócios nos setores imobiliário e de infraestrutura. Com a adoção de alternativas disruptivas, os projetos do futuro vão transformar a paisagem e se tornar pilares fundamentais na construção de cidades mais sustentáveis e preparadas para os enormes desafios das próximas décadas. Patrícia Cavalcanti - diretora de Digital Energy e Power Products na Schneider Electric para América do Sul

3 de março, 2025
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5 de agosto, 2016
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COP21
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Por João Guilherme Sabino Ometto* Há uma grande expectativa de que a 21ª Conferência das Partes (COP21) da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), que ocorrerá em Paris, de 30 de novembro a 11 de dezembro deste ano, estabeleça um novo acordo para conter o aquecimento da Terra. São dois os pilares que devem sustentar o entendimento multilateral: a capacidade de cada país de reduzir emissões dos gases de efeito estufa; e adoção de medidas de adaptação que criem mais resistência dos ecossistemas e das cidades aos impactos do clima. Também é preciso desenvolver, transferir e viabilizar o uso de tecnologias em larga escala. O Brasil está se preparando para a COP21, devendo apresentar, até outubro, as suas contribuições. Um de nossos desafios é diminuir as perdas florestais. Para isso, uma alternativa é buscar financiamentos para projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD plus). Esse mecanismo permite a remuneração dos que preservam as matas. Outro enorme desafio brasileiro é aumentar a participação das fontes renováveis na matriz energética, utilizando o potencial da bioenergia, bem como a eólica e a solar. No tocante ao setor agropecuário, é preciso tornar mais robusto o Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura (ABC). Para isso, as medidas necessárias são: plantio direto, integração lavoura/pecuária/florestas, recuperação de pastagens e áreas degradadas e restauração da flora, conforme o Código Florestal. Esse conjunto de ações pode gerar reduções expressivas da emissão dos gases de efeito estufa. No entanto, deve-se ponderar que os futuros compromissos brasileiros não podem ser unilaterais. É preciso que haja obrigações também ambiciosas dos países desenvolvidos e dos emergentes. Ou seja, serão complexas as negociações da UNFCCC. Em setembro, em paralelo à Assembleia Geral da ONU, ocorrerá a Climate Summit, na qual a aprovação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, lançados na RIO+20, em 2012, conterá de maneira clara a agenda do clima. Para a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o Brasil precisa apresentar contribuições ousadas e flexíveis quanto à redução de emissões, mas compatíveis com nossa realidade socioeconômica. Entendemos, ainda, que nossos esforços no período pré 2020 devam constar das negociações. Além disso, é necessário considerar que o acesso ao mercado mundial de carbono é crucial para que diminuam as emissões dos gases de efeito estufa, buscando-se a melhor relação custo-benefício para o País. É importante que as ações unilaterais não resultem em restrições arbitrárias e injustificadas do comércio internacional. Serão inaceitáveis metas absolutas para todos os setores e o estabelecimento de taxas de carbono, que criariam penalidades para os segmentos mais sensíveis da indústria e não incentivariam as reduções de emissão custo-eficientes. É essencial criar uma agenda, entre 2016 e 2019, que permita investir e desenvolver novas tecnologias, inclusive via acordos bilaterais, com foco em ações de baixo carbono nos setores manufatureiros, mas preservando sua competitividade. O novo acordo a ser adotado em Paris poderá remodelar a arquitetura das relações econômicas entre países no âmbito das negociações sobre mudança do clima. O Brasil tem um papel relevante nesse cenário e pode criar as bases para reestruturar suas políticas climáticas com foco em medidas que promovam o desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, as contribuições nacionais a serem submetidas à UNFCCC precisam ser planejadas com cautela e fundamentadas na real capacidade do País de reduzir emissões. *João Guilherme Sabino Ometto, engenheiro (Escola de Engenharia de São Carlos - EESC/USP), é vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo São Martinho, vice-presidente da FIESP e coordenador do Comitê de Mudança do Clima da entidade.

2 de julho, 2015