Publicidade
MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Governo coloca planos setoriais em consulta pública

Governo coloca planos setoriais em consulta pública

Os planos setoriais também definem orçamentos de carbono setoriais. Ou seja, agora será possível enxergar com mais clareza como o esforço de mitigação será distribuído entre os setores dentro da meta que abrange toda a economia.

O Governo Federal disponibilizou os planos setoriais de mitigação, que entram em consulta pública a partir de 28 de julho, junto de sua Estratégia Nacional de Mitigação, peça central para o Plano Clima e para a atualização das metas brasileiras no âmbito do Acordo de Paris. Isso marca um avanço institucional relevante, pois pela primeira vez o Brasil apresenta como pretende atingir as metas da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) para 2035 de forma detalhada por setor.

Os planos setoriais também definem orçamentos de carbono setoriais. Ou seja, agora será possível enxergar com mais clareza como o esforço de mitigação será distribuído entre os setores dentro da meta que abrange toda a economia. “O Plano Clima avança ao trazer metas de mitigação detalhadas por setor, pela primeira vez desde a adoção da Política Nacional, em 2009. Não se trata de jogar um setor contra o outro, mas de buscar uma distribuição justa e custo-efetiva do esforço nacional”, diz Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa.

O plano prevê que o setor de Agricultura e Pecuária seja o principal responsável por entregar os resultados. Além dele, a Conservação da Natureza “possui papel estratégico na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e no aumento das remoções de carbono”, segundo o Plano Setorial. Conforme a Estratégia Nacional de Mitigação, esses setores relativos ao uso da terra absorverão a maior parte do esforço até 2035. Os demais setores – transportes, cidades e resíduos sólidos e efluentes domésticos – apresentaram metas menos relevantes. Já os setores de indústria e de energia preveem certa estagnação no movimento de transição, sem ambição para avançar de forma consistente.

A proposta ainda está longe de ser o que o momento exige, não apenas por uma questão de ambição mas também de coerência. O plano distribui as duas metas de emissões da NDC (uma mais alta, com 1.050 MtCO₂eq e outra de 850 MtCO₂eq) para cada setor. “Se a intenção é vender créditos de carbono (os chamados ITMOs, do Acordo de Paris), por que o compromisso nacional não pode ser explícito com o valor mais baixo? A margem entre os extremos (por exemplo, de 81 a 115 MtCO₂e para energia em 2035) fragiliza a previsibilidade e enfraquece o sinal político”, pontua Daniela Swiatek, coordenadora de Diplomacia Climática do Instituto Talanoa.

O Plano Setorial de Mitigação para Energia projeta neutralidade até 2050, com medidas como a expansão da bioenergia, do hidrogênio de baixa emissão e do armazenamento. Mas o cenário traçado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) para os próximos 10 anos é conservador e projeta aumento entre 1% e 44% das emissões até 2035. O plano define como referência as emissões líquidas de 2022 (80 MtCO₂e), o que significa que mesmo no cenário mais ambicioso, a meta para 2035 representa apenas a manutenção do status atual. No outro cenário, uma não-transição nos próximos dez anos neste setor. O Brasil, que tinha 88% de renováveis em 2024, poderá cair para até 82,7% em 2030 e, mantido esse patamar até 2035, estará regredindo em vez de liderar, principalmente devido a eventos climáticos extremos que exigem maior uso de térmicas fósseis. Em outras palavras: a crise climática causada pelos fósseis pode ser motivo para usar mais fósseis. “Usar a crise climática como desculpa para travar renováveis é dar um tiro no pé. O Plano de Mitigação vê limites, mas o de Adaptação mostra soluções. Mitigação e adaptação têm que andar juntas — não dá pra aceitar contradições dentro do mesmo Plano Clima”, ressalta Natalie.

O trecho que mais assusta é a meta de “manutenção ou aumento percentual da renovabilidade da matriz elétrica” estar condicionada à “viabilidade técnica e econômica”, considerando “os desafios impostos pelas mudanças climáticas” como um possível freio à expansão das renováveis. Ou seja: o plano que deveria impulsionar a energia limpa admite que a própria crise climática pode limitar sua ambição. “Se lermos apenas o Plano de Mitigação, ficamos com a impressão de que o país está de mãos atadas diante da instabilidade climática, a qual tem afetado sobretudo as hidrelétricas. Mas ao cruzarmos com o Plano Setorial de Adaptação do setor de energia, citado de forma tangencial no texto, encontramos outra realidade: um diagnóstico técnico claro de como eventos extremos (como secas prolongadas, ondas de calor e tempestades) ameaçam o sistema elétrico e de como o planejamento energético precisa incorporar resiliência”.

O documento de adaptação propõe integração com setores como agricultura, cidades e transportes, e apresenta ações estruturantes, como o Plano de Recuperação dos Reservatórios de UHEs. Ou seja, a vulnerabilidade do setor não deveria ser considerada um argumento para recuar. O plano setorial de energia de adaptação é um chamado para avançar com mais integração e evidência. Ao tratar a renovabilidade como um esforço que poderá ser “limitado” pelas mudanças climáticas, o Brasil enfraquece justamente seu trunfo estratégico. É preciso dizer com todas as letras: a expansão da energia renovável depende da adaptação e também é uma das formas mais eficazes de promover resiliência. Ao diversificar a matriz, reduzem-se vulnerabilidades e evitam-se emissões futuras. Outro ponto que chama atenção é que o Brasil pretende seguir relevante na exploração de petróleo. A meta para o setor de óleo e gás não é reduzir emissões absolutas, mas apenas a intensidade de carbono por barril produzido. Um tipo de eficiência que, se desacompanhada de limites à produção total, pode aumentar as emissões no agregado.

O Plano quase não dá espaço para tecnologias emergentes, como as baterias que aparecem com papel secundário - propõe-se um marco regulatório até 2030 e a instalação de apenas 800 MW até 2035, uma meta modesta diante do potencial e muito aquém do necessário para dar suporte à expansão renovável em um cenário climático instável. “O plano foca em reduzir a intensidade de carbono por barril, mas ignora o volume total de petróleo, o que pode levar a mais emissões, não menos. E aposta pouco em tecnologias-chave como baterias, quando deveria planejar a transição para o futuro, não reforçar um projeto de desenvolvimento arriscado do passado com o uso de recursos dos contribuintes”, diz Caio Victor Vieira, Especialista em Política Climática do Instituto Talanoa. O plano dialoga com o PDE 2034, mas parece mais orientado por interesses de continuidade do que por uma visão transformadora, estratégica para o futuro do País. O próprio texto do plano admite que parte da ambição possível está condicionada ao que já foi considerado viável no PDE, inclusive no que se refere a custos, cronogramas e incertezas tecnológicas.
Em um cenário fiscal cada vez mais restrito e com reservas fósseis nacionais em processo acelerado de obsolescência, ampliar a participação das fontes renováveis na matriz energética, assegurar sua operação com estabilidade por meio de sistemas de armazenamento, bem como estabelecer um marco legal e as adequadas ações para eliminar o curtailment são questões mais do que estratégicas, são uma condição imediata para garantir a segurança energética do país. Ainda há tempo e espaço para mudanças, sendo a consulta pública é uma chance valiosa para pressionar por isso.

O plano setorial de Conservação da Natureza implementou meta de desmatamento líquido zero até 2030 e iniciativas de restauração florestal como forma estruturante da mitigação. Isso está alinhado à centralidade do uso da terra nas emissões brasileiras e é coerente com compromissos internacionais, com o Planaveg e o novo Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia, o PPCDAm. Há propostas relevantes como ampliação de áreas protegidas, recomposição da vegetação nativa, promoção de sistemas agroflorestais e apoio à regularização fundiária. Mas, apesar de reconhecer o Cerrado e a Caatinga, as ações seguem concentradas na Amazônia e pouco específicas no curto prazo. Vale lembrar que o desmatamento no Cerrado é hoje maior que o da Amazônia em números absolutos, e que o perfil de perda florestal naquele bioma é autorizado ou legalizado. Isso impõe um desafio distinto, que exige estratégias próprias, atualizações normativas e maior atenção de curto prazo.

O plano do setor agropecuário traz metas ambiciosas no papel: adoção de tecnologias de baixa emissão em 72 milhões de hectares, recuperação de 40 milhões de hectares de pastagens degradadas e expansão de 5 milhões de hectares em sistemas integrados. Essas metas, porém, já constavam no Plano ABC+ lançado anteriormente e o novo plano não esclarece se há inovação ou aceleração em relação ao que já vinha sendo feito. O documento também menciona a redução das emissões de metano, tanto entérico quanto proveniente do manejo de dejetos, como resposta parcial ao Global Methane Pledge, compromisso assumido pelo Brasil de cortar 30% das emissões até 2030. Mas, até agora, as ações seguem dispersas, sem metas específicas, instrumentos regulatórios ou incentivos concretos. Além disso, as medidas de monitoramento e transparência permanecem frágeis: não está claro como serão contabilizados os resultados em campo, especialmente nos sistemas integrados e na recuperação de pastagens. Para que o setor contribua de forma justa e eficaz com a nova meta climática brasileira, será essencial transformar essas intenções em mecanismos verificáveis e com responsabilidade compartilhada.

Artigos Relacionados

Saneamento Ambiental Logo
MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Próximo presidente terá desafios para cumprir metas de Paris

O Observatório do Clima lançou recentemente o relatório “Emissões de GEE no Brasil e suas implicações para políticas públicas e a contribuição brasileira para o Acordo de Paris”, síntese dos quatro relatórios analíticos setoriais do SEEG - Sistema de Estimativas de Emissões de Gases para as emissões brasileiras até o ano de 2016. O novo documento traz uma avaliação técnica das emissões brasileiras em cinco setores e faz uma análise política da situação. Segundo o OC, o objetivo é fornecer informações à sociedade brasileira que expliquem os rumos do País em relação ao Acordo firmado em Paris em 2015. Os dados mostram a trajetória recente das emissões brasileiras e recomendações aos candidatos nas eleições de 2018. Para o OC, o maior desafio do próximo presidente é apresentar planos robustos para enfrentar os problemas das mudanças climáticas. Os compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris devem ser traduzidos em propostas concretas, já que o próximo presidente será responsável por apresentar resultados ante nossas metas obrigatórias afirma o OC. Os dez tópicos apresentados no relatório são: Definição de uma nova governança climática brasileira, que seja orientada pela ciência e os compromissos no contexto do Acordo de Paris; Suspensão de propostas e de negociações com setores do Parlamento que possam levar a retrocessos ou flexibilizações na legislação ambiental; Revisão dos compromissos do Brasil para alinhá-los às metas do Acordo de Paris para 2025 e 2030, evitando o aquecimento global além de 1,5°C; Rediscussão do papel do petróleo na economia brasileira nos próximos 20 anos e das políticas de subsídio para essa fonte fóssil de energia; Ampliação do Programa de Agricultura de Baixo Carbono (Programa ABC) e inclusão de emissões nos critérios do sistema de subsídios federais do setor; Aceleração do processo de implementação de mecanismo(s) de precificação de carbono no Brasil, a partir do diálogo entre Governo e sociedade civil; Adequação de políticas públicas e planos de desenvolvimento (em infraestrutura, energia, agropecuária e indústria) à Política Nacional sobre Mudança do Clima; Aprimoramento da gestão e planejamento da Política Nacional sobre Mudança do Clima com efetiva participação da sociedade; Estabelecimento de uma lei de responsabilidade climática que consolide pactos internos para cumprir as metas assumidas pelo Brasil e as aprofunde e, por último, a Ampliação da agenda climática do país, com direcionamento de recursos para institutos de pesquisa em mudança do clima e fortalecimento de programas locais. “Os elementos da governança climática construídos, sobretudo no governo Lula e desmobilizados nos cinco anos e meio de administração de Dilma Roussef continuaram assim na gestão Temer”, afirma o novo relatório da instituição. “O governo federal não entregou um plano de implementação da NDC brasileira, prometido para 2018, nem há noticia de que esteja sendo preparada a estratégia de desenvolvimento de longo prazo, para ações até 2050”. Segundo o OC, algumas medidas recentes representam ameaças particularmente graves à governança climática. Entre elas estão as MP’s 756 e 758, que reduziam duas áreas protegidas na Amazônia, a Floresta e o Parque Nacional do Jamanxim; a MP 759/17, que ampliou o limite de regularização para áreas griladas, permitindo legalizar ocupações ilegais de até 2.500 hectares por valores muito inferiores ao de mercado; a suspensão de demarcações de terras indígenas e o aval a projetos atualmente em tramitação na Câmara e no Senado que visam flexibilizar o licenciamento ambiental. No final de 2017, a base do governo aprovou a chamada MP do Repetro, que concede subsídios ao setor de petróleo até 2040.

17 de agosto, 2018
Saneamento Ambiental Logo
MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Dilma anuncia meta de redução de 43% até 2030

A Presidente Dilma Rousseff anunciou metas para a redução de poluentes de 37% em 2025 e de 43% até 2030, tendo como ano-base 2005 – ano que, segundo especialistas, registrou um grande volume de emissão de poluentes. Com o anúncio, o Brasil é a primeira economia em desenvolvimento a determinar uma meta absoluta. As propostas apresentadas no evento sobre sustentabilidade realizado em Nova York, Estados Unidos, servem como ponto de partida para as negociações em dezembro durante a Conferência Global do Clima (COP 21). Entre 2005 e 2012, as emissões de gases de efeito estufa caíram cerca de 40% com a redução de 80% do desmatamento. Dilma afirmou que o Brasil manterá o “horizonte” de redução das emissões, mas que ”seria um esforço inédito” manter o ritmo. “O crescimento do PIB alimenta o crescimento de emissões”, justificou. O Governo brasileiro defende que países desenvolvidos adotem metas mais rígidas que os emergentes, por terem iniciado o processo de industrialização muito antes e, portanto, emitido mais poluentes. A ONU fixou prazo final para as nações apresentarem suas metas em 1º de outubro. Os Estados Unidos estipularam meta de 32% de redução até 2030; União Europeia e Rússia determinaram 40% e 30%, respectivamente, no prazo ; o Japão quer reduzir as emissões em 25,4% até 2030, enquanto a China quer atingir o pico de emissão até 2030. A expectativa brasileira é de que até 2030 a matriz energética brasileira tenha participação de 23% de fontes renováveis – excluída a hidrelétrica.

30 de setembro, 2015