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BIOMAS

Amazônia tem secas mais longas e mudanças nas chuvas

Amazônia tem secas mais longas e mudanças nas chuvas

Estudos do Inpe revelam que a Amazônia já enfrenta secas mais longas e alterações nas chuvas, antecipando cenários futuros e elevando riscos ambientais.

Dois estudos recém-publicados liderados por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que a Amazônia brasileira já começa a registrar cenários até então projetados para as próximas décadas, com estações secas mais longas e alteração no padrão de chuvas. O quadro pode se intensificar rapidamente, elevando riscos à biodiversidade, ao reabastecimento de reservatórios naturais de água e ao funcionamento da floresta se não houver políticas integradas e iniciativas de combate às mudanças climáticas. Os trabalhos, baseados em modelos climáticos que incorporam a dinâmica regional, também funcionam como um alerta para este ano e o próximo, quando há a possibilidade de um “super El Niño”. Caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial, o fenômeno pode, em sua versão mais intensa, elevar a temperatura em mais de 2 °C acima da média, provocando grandes alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

O resultado de uma das pesquisas indica prolongamento da estação seca na Amazônia de quatro para até seis meses, com aumento de déficit hídrico superando -150 milímetros (mm) no período. Publicado no International Journal of Climatology, o artigo aponta maior instabilidade climática e mais eventos extremos fora do padrão sazonal, além de crescimento da degradação da floresta associada ao fogo. O outro trabalho está na edição de março da Perspectives in Ecology and Conservation, e analisa a seca registrada entre 2023 e 2024 na Amazônia, período em que o Brasil também foi fortemente afetado pelo El Niño. Os achados mostram um crescimento médio de 9% nas áreas queimadas e 19% nos alertas de degradação florestal, com até 4,2 milhões de hectares impactados por fogo no pico da seca. Evidenciam, assim, que o ciclo seca-fogo-degradação está se fortalecendo, reduzindo a capacidade do ecossistema de se restabelecer. “Há alguns anos, quando começamos a discutir cenários climáticos para a Amazônia, muitas vezes esse futuro era visto como algo distante nas conjunturas mais pessimistas. Porém, estamos observando que os extremos de anomalia mais pessimistas estão acontecendo no presente. Quando comparamos os dados de hoje com as projeções, vemos o quão crítica vai ficando essa situação à medida que incluímos cenários pessimistas na análise climática”, resume a engenheira ambiental e sanitarista Débora Dutra, doutoranda em sensoriamento remoto no Inpe e primeira autora dos dois artigos.

A bióloga Liana Anderson, orientadora de Dutra e pesquisadora no Inpe, destaca o papel dos cientistas diante da dissonância entre as evidências científicas dos impactos das mudanças climáticas nos ecossistemas e as respostas para a sua mitigação e contenção. “Estamos em um momento crucial, com metas nacionais e internacionais a cumprir até 2030. Se colocarmos os esforços nessa direção, temos condição de atingi-las. É preciso pensar na conexão entre meio ambiente, desenvolvimento e economia como uma tríade indissociável, seja pelo lado da exploração ou pelo preço a ser pago pela reconstrução após os impactos. Acho que essa crise climática abre oportunidade de repensarmos caminhos e como acelerar iniciativas sustentáveis, que busquem qualidade de vida, justiça social e ambiental. Existe mobilização da comunidade científica para contribuir e mostrar alternativas. A questão é quem está disposto a escutar o que vem sendo estudado ao longo das últimas décadas”, conclui. A pesquisadora lidera o laboratório TREES TRopical Ecosystems and Environmental Sciences ao lado do pesquisador Luiz Aragão, também um dos autores dos artigos.

Na pesquisa publicada no International Journal of Climatology, os cientistas utilizaram uma métrica que vem sendo trabalhada por Aragão desde 2007 – o máximo déficit hídrico acumulado (MCWD, na sigla em inglês), considerado um indicador-chave de estresse hídrico nos ecossistemas tropicais –, aliada a dados da fase seis do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, que fornece uma estrutura padronizada para a modelagem climática alinhada às avaliações dos Caminhos Socioeconômicos Compartilhados (SSPs) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas. O estudo foi conduzido no sudoeste da Amazônia, abrangendo o Acre e parte dos Estados do Amazonas e de Rondônia. Abrigando áreas com mais de 90% de cobertura florestal, a região está sob forte pressão de desmatamento. Os resultados mostram que, em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, há uma intensificação dos déficits hídricos durante a estação seca na Amazônia, sobretudo na porção sudoeste da floresta. As projeções indicam estações secas mais longas e intensas, com aumento do estresse hídrico entre junho e setembro e déficits que podem ultrapassar -21 mm/mês até o fim do século no cenário mais pessimista.

Esse agravamento tende a produzir impactos diretos sobre a floresta, com maior mortalidade de árvores, degradação florestal e perda de biodiversidade, além da redução da capacidade da Amazônia de atuar como sumidouro de carbono, reforçando um ciclo de retroalimentação entre degradação e aquecimento global. Para aprimorar as projeções futuras e as avaliações de risco climático na região, os pesquisadores sugerem, entre outros pontos, a adoção de análises integradas que incorporem mudanças no uso da terra, anomalias na circulação atmosférica e interações entre incêndios e secas. Na pesquisa que analisou a seca extrema de 2023 e 2024, o grupo mapeou e quantificou o estresse hídrico, a degradação florestal e a dinâmica do fogo, identificando implicações para a gestão ambiental. O estudo chegou à conclusão de que a seca intensificou a interação entre déficit hídrico, incêndios e degradação, com o fogo cada vez mais associado à debilitação da floresta em pé, e não apenas ao desmatamento. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo. De acordo com o trabalho, os resultados destacam a necessidade de uma governança integrada do fogo, reunindo indicadores climáticos aos sistemas de alerta, fortalecendo a coordenação institucional e incorporando a degradação florestal nas estratégias de mitigação e adaptação.

Sob a coordenação de Anderson, Dutra vem estudando há alguns anos os impactos do fogo na floresta amazônica e publicou um artigo sobre queimadas no município de Boca do Acre, no Amazonas. Desde o ano passado, as pesquisadoras integram a iniciativa “Fogo em Foco”, uma parceria entre forças operacionais de combate e prevenção de fogo (como o Corpo de Bombeiros Militar de diversos Estados) e instituições de pesquisa. Para marcar o lançamento do programa, o laboratório TREES, a Rede Brasa de pesquisa e a Liga dos Corpos de Bombeiros Militares realizaram um evento em outubro com a divulgação do relatório “Fogo em Foco 2024-2025” e do artigo internacional State of Wildfires 2024-2025. Segundo Anderson, em abril foi autorizada a continuidade desse trabalho conjunto com os bombeiros para 2026. “Essa aproximação é uma forma de aliar o que a ciência consegue entregar com a realidade de quem atua na ponta, tanto em estratégias de prevenção quanto de combate. Tentamos costurar ciência e ações na sociedade. Mas ainda há um ponto em que precisamos avançar, que é a magnitude do impacto econômico e o quanto isso significa para o desenvolvimento do país”, diz a pesquisadora. Por isso, Dutra decidiu mergulhar no tema e vai trabalhar em sua tese de doutorado com dados sobre o potencial das perdas econômicas derivadas do fogo, discutindo não só questões florestais, mas também saúde e impactos sociais.

Ela recebe bolsa da FAPESP, que também apoiou os dois artigos por meio de outros cinco projetos, incluindo o Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI). Os artigos Dry-season water deficits in the Southwestern Amazon under high emissions e Intensification of drought-associated wildfires challenges actions for Amazonia’s sustainable development podem ser lidos, respectivamente, em https://rmets.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/joc.70331 e https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2530064426000295.

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