SANEAMENTO

Equatorial avança para assumir 30% da Copasa por até R$ 7,9 bilhões

Equatorial avança para assumir 30% da Copasa por até R$ 7,9 bilhões

Subsidiária do grupo de energia e saneamento foi a única proponente da alocação prioritária, a R$ 49,03 por ação.

 A privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) entrou em sua fase decisiva. Em fato relevante divulgado na noite de 3 de junho, assinado pelo diretor financeiro e de relações com investidores, Adriano Rudek de Moura, a companhia confirmou que a Gerais Saneamento S.A. — veículo controlado pelo Grupo Equatorial — foi definida como Investidora de Referência Finalista no processo de oferta pública de distribuição secundária de ações ordinárias da estatal.

A proposta da Equatorial prevê investimento de R$ 49,03 por ação na chamada Alocação Prioritária, o que corresponde a R$ 5,6 bi pela totalidade dessas ações. No mesmo pedido de investimento, a empresa manifestou interesse em uma eventual alocação adicional de até 48 milhões de ações remanescentes da oferta profissional. Caso essa fatia complementar se concretize, o montante total máximo do investimento pode alcançar quase R$ 7,9 bilhões.

A Copasa destacou ainda dois pontos centrais do processo: não houve potenciais investidores com o segundo maior investimento por ação, ou seja, a Equatorial foi a única proponente qualificada nesta etapa, e que o anúncio encerra o procedimento de definição dos investidores de referência finalistas, abrindo caminho para a participação do público em geral.

Único lance, acima do piso

O valor oferecido pela Equatorial ficou cerca de 3,8% acima do preço mínimo de R$ 47,23 por papel, definido pelo governo de Minas Gerais ao reapresentar os documentos da oferta no fim de maio. A reação do mercado foi imediata: as ações da Copasa (CSMG3) dispararam mais de 13% no pregão de quarta-feira, negociadas perto de R$ 60.

A operação é estruturada como uma oferta secundária, em que o Estado de Minas Gerais atua como acionista vendedor. Isso significa que os recursos arrecadados vão diretamente para o caixa do governo estadual, e não para a Copasa. Inicialmente, estão sendo ofertadas pouco mais de 171 milhões de ações ordinárias da companhia.

A disputa chegou a contar com outro interessado. No fim de maio, a Aegea — em consórcio montado com sócios como Equipav, o fundo soberano de Singapura GIC e a Itaúsa — também havia formalizado proposta para ocupar o posto de investidor âncora. Após a mudança de parâmetros e a suspensão temporária do processo, motivada por valores abaixo do piso então não revelado, a segunda concorrente desistiu da empreitada, deixando a Equatorial como única proponente.

Como fica a estrutura societária

Pela modelagem da desestatização, o investidor de referência ficará com até 30% do capital social da Copasa. O Estado, que detém pouco mais de 50% das ações, pretende ainda pulverizar outros 15% no mercado por meio de um bookbuilding — processo em que investidores indicam quantidade e preço para a formação de uma cotação de referência — e manter uma participação residual de cerca de 5%, além da golden share, que preserva poderes especiais previstos na legislação e no estatuto social. Ao final, aproximadamente 65% das ações permaneceriam em circulação no mercado.

Vale destacar uma nuance importante apontada por analistas: ainda que tenha apresentado o único lance, a vitória da Equatorial não está plenamente assegurada. Se o bookbuilding dos 15% terminar com precificação superior à proposta do investidor âncora, há o risco de que o bloco seja diluído na Bolsa e o sócio estratégico acabe desclassificado.

O modelo também prevê um acordo de não concorrência: o investidor de referência se compromete a não atuar em atividades que concorram diretamente com os serviços de saneamento básico da Copasa em território mineiro — abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos — enquanto detiver essa condição e por até dois anos após eventualmente deixá-la.

A Equatorial e o saneamento

A entrada da Equatorial na Copasa amplia a aposta do grupo no setor. Originalmente uma holding multi-utilities com forte presença na distribuição e transmissão de energia em estados como Alagoas, Amapá, Goiás, Maranhão, Pará, Piauí e Rio Grande do Sul, a empresa estreou no saneamento ao arrematar, em 2021, a concessão da antiga Caesa, no Amapá, por meio do Consórcio Marco Zero (Equatorial Participações e SAM Ambiental).

A operação, conduzida pela Concessionária de Saneamento do Amapá (CSA), envolveu outorga de cerca de R$ 930 milhões, contrato de 35 anos e investimentos previstos da ordem de R$ 3 bilhões para universalizar água e esgoto nos 16 municípios do estado, atendendo aproximadamente 750 mil habitantes nas áreas urbanas. A experiência amapaense, porém, também acumula críticas: desde o início da concessão, a tarifa de água na região passou por sucessivos reajustes, ponto que costuma ser levantado por opositores das desestatizações do setor.

Cenário político e judicial

A privatização da Copasa tramita em meio a forte controvérsia. A gestão do governador Mateus Simões pretende usar os recursos arrecadados em obras de infraestrutura, no contexto das contrapartidas à adesão do estado ao Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag). No campo jurídico, PT e PSol acionaram o Supremo Tribunal Federal contra a emenda constitucional estadual que suprimiu a exigência de referendo popular para a alienação do controle da companhia, enquanto o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) manteve acompanhamento próximo das etapas do processo.

Conforme o cronograma do prospecto preliminar, o período de reserva da oferta tem início nesta sexta-feira (5 de junho), quando os investidores da oferta não profissional poderão registrar seus pedidos de reserva, de forma irrevogável e irretratável, junto às instituições consorciadas. A coordenação da oferta está a cargo do BTG Pactual (líder), Itaú BBA, Bank of America, Citi e UBS BB.

Está prevista, ainda, a realização de assembleia geral extraordinária para deliberar sobre o novo estatuto social, a composição do conselho de administração e do conselho fiscal da companhia, além do protocolo, na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da oferta pública de aquisição (OPA) destinada às ações em circulação. A Copasa informou que manterá o mercado atualizado sobre os desdobramentos da operação.

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