Investimento em saneamento bate terceiro recorde consecutivo e alcança R$ 29,1 bilhões

Desde a implementação do marco legal, foram realizados 70 leilões de concessões que contrataram mais de R$ 227 bilhões em investimentos, com outros 31 projetos ainda em estruturação.
O setor de saneamento básico alcançou em 2024 o terceiro recorde anual consecutivo de investimentos, com R$ 29,1 bilhões aplicados em água e esgoto, crescimento de 9% em relação aos R$ 26,3 bilhões registrados em 2023. Os dados integram o Panorama da Universalização do Saneamento 2026, apresentado na segunda-feira, 10, pela Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon), e confirmam a intensificação dos aportes na infraestrutura desde a sanção do marco legal do saneamento, em 2020.
A associação atribui a trajetória de alta diretamente ao novo arcabouço regulatório. Desde a implementação do marco legal, foram realizados 70 leilões de concessões que contrataram mais de R$ 227 bilhões em investimentos, com outros 31 projetos ainda em estruturação. Essa nova fase prevê aporte adicional de R$ 32 bilhões para beneficiar 636 municípios, alcançando aproximadamente 11,9 milhões de brasileiros.
Capital privado dobra de peso e chega a metade dos municípios
O motor dessa expansão é a mudança na composição dos investimentos. Em 2020, quando o marco legal foi sancionado, a iniciativa privada respondia por 15,1% dos aportes setoriais. Em 2024, esse percentual saltou para 32,4%, mais que o dobro em quatro anos, evidenciando a atração de recursos privados para expansão e modernização dos serviços. A presença territorial acompanhou o movimento: as empresas privadas atuam em 2.720 municípios até junho de 2026, o equivalente a 48,8% das cidades brasileiras, seja de forma exclusiva ou em parceria com companhias públicas.
Na prática, o ciclo de leilões transferiu para contratos de concessão obrigações de investimento com metas e prazos definidos, um modelo que blinda os aportes contra oscilações orçamentárias e ciclos políticos, e que explica por que o setor conseguiu emendar três recordes anuais consecutivos.
Investimento se converte em infraestrutura, mas tratamento de esgoto segue em 52%
O levantamento mostra que os aportes já se refletem na expansão física das redes. Com base na Pnad Contínua, o número de domicílios com acesso à rede de abastecimento de água chegou a 68,3 milhões entre 2019 e 2025, alta de 14%, enquanto o de domicílios conectados à rede de esgoto cresceu 20%, atingindo 56,4 milhões. A regularidade também melhorou: os domicílios com disponibilidade diária de água passaram de 52,8 milhões para 60,5 milhões, avanço de 15%.
O retorno ambiental do investimento, porém, ainda é parcial. Embora o volume total de esgoto tratado tenha subido 5% de 2023 para 2024, apenas 51,8% do esgoto gerado no país recebeu tratamento em 2024. O dado indica que boa parte dos aportes recentes ainda está concentrada em coleta e expansão de rede, e que a próxima fronteira de investimento do setor está nas estações de tratamento.
Metas de 2033 exigem aceleração
O Panorama também dimensiona a distância até as metas do marco legal: 99% da população com acesso a água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033. Até agora, a universalização do atendimento de água foi alcançada por 780 municípios, que concentram 32% da população estimada, enquanto a meta de esgoto foi atingida por 321 municípios, correspondentes a 20% da população prevista.
A insegurança informacional é outro fator que pesa sobre as decisões de investimento. O relatório identificou 1.107 municípios sem dados que permitam avaliar sua capacidade de alcançar as metas de água e 1.431 sem informações equivalentes para esgoto. Entre os municípios sem metas contratualizadas, 34% não possuem plano municipal de saneamento e 62% não responderam ao Sinisa. Sem planejamento local estruturado, esses municípios têm mais dificuldade de atrair projetos e acessar as modelagens de concessão em curso.
Emprego e renda como efeito do ciclo de investimentos
Os aportes recordes também se traduzem em atividade econômica. A força de trabalho do setor cresceu 6,9% ao longo de 2025, alcançando 165.425 trabalhadores contratados. Em remuneração, as empresas desembolsaram R$ 28,6 bilhões em salários e benefícios no ano, média de R$ 6.595 por trabalhador, valor 74% superior ao salário médio da economia brasileira (R$ 3.783) e equivalente a aproximadamente quatro salários mínimos.
Segundo Christianne Dias, diretora-presidente da Abcon, o marco legal transformou a universalização de "uma meta distante em um processo em andamento". Na apresentação dos dados, a executiva defendeu a estabilidade regulatória como condição para sustentar o ritmo: "os dados mostram que a gente saiu de uma inércia no setor, mas que os desafios ainda existem para serem enfrentados. Precisamos que o saneamento encontre espaço na agenda política do governo".
O recado do Panorama é duplo: o modelo pós-marco legal provou capacidade de mobilizar capital em escala inédita, mas o volume atual, mesmo recorde, ainda precisará crescer para fechar a conta da universalização em sete anos.












