DESCARBONIZAÇÃO

Preço do carbono na Europa recua 20% e acende alerta para o Brasil

Preço do carbono na Europa recua 20% e acende alerta para o Brasil

Queda nas licenças de emissão no sistema europeu expõe pressões políticas e econômicas e influencia o debate sobre a estruturação do mercado regulado de carbono no Brasil.

O valor cobrado por tonelada de dióxido de carbono (CO₂) no mercado europeu de emissões recuou cerca de 20% neste ano, um movimento que chama atenção não só por sua magnitude, mas também pelos fatores que o impulsionaram e suas possíveis repercussões fora da Europa.

Esse recuo aconteceu em um contexto de pressão política crescente sobre o Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia (ETS, na sigla em inglês), um dos pilares da estratégia climática da região. Autoridades e representantes de setores industriais vinham debatendo abertamente a necessidade de revisar ou mesmo intervir no funcionamento do mercado de carbono, sob o argumento de que os custos associados às licenças de emissão poderiam comprometer a competitividade de atividades intensivas em carbono.

O ETS funciona segundo um regime de cap and trade: o governo europeu estabelece um limite máximo de emissões para setores como o energético e a indústria pesada, que precisam adquirir licenças para cobrir as toneladas de CO₂ que liberam. Empresas que conseguem reduzir suas emissões abaixo do teto podem vender seus créditos excedentes no mercado.

Historicamente, o sistema tem sido eficaz na redução do uso de combustíveis fósseis no setor elétrico e no estímulo a fontes de energia menos poluentes. No entanto, a transição para setores de difícil descarbonização, como o aço e o cimento, depende de um preço de carbono suficientemente elevado para tornar economicamente viáveis alternativas de baixo carbono — algo que alguns analistas consideram insuficiente nos níveis atuais.

A recente queda no preço das licenças, que estavam negociadas perto de €70 por tonelada, suscita questionamentos sobre a capacidade do sistema de manter incentivos robustos à redução de emissões se os valores não forem elevados a patamares mais ambiciosos. Por outro lado, preços mais baixos aliviam custos para setores poluentes e podem reduzir a pressão sobre bens industriais que enfrentam concorrência global.

Do ponto de vista internacional, essas flutuações europeias reverberam em mercados emergentes como o brasileiro. Além de influenciar expectativas sobre a evolução da precificação global de carbono, políticas europeias como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) — que impõe encargos sobre importações com alto conteúdo de emissões — podem incentivar países exportadores a adotar seus próprios sistemas de precificação de carbono. Esse tipo de política pode ser um fator relevante no cenário em que o Brasil começa a estruturar o seu mercado regulado de emissões, atualmente em processo de regulamentação.

Em suma, a volatilidade recente do preço do carbono no mercado europeu e as discussões políticas em torno do seu sistema de comércio de emissões não são temas isolados da economia europeia: elas influenciam debates e estratégias climáticas em outras regiões, incluindo o Brasil, que avança para consolidar seu próprio mercado de carbono com impactos econômicos e ambientais de longo prazo.

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