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SANEAMENTO

CEOs de concessionárias privadas debatem avanços e desafios do setor

CEOs de concessionárias privadas debatem avanços e desafios do setor

Para CEOs, apesar dos avanços registrados nos últimos anos, é preciso expandir os investimentos para atingir a universalização dos serviços de água e esgoto até 2033

Abrindo o segundo dia de trabalho do 9º Encontro Nacional das Águas (ENA), CEOs dos principais grupos privados que atuam no saneamento afirmaram que apesar dos avanços registrados nos últimos anos, é preciso expandir os investimentos para atingir a universalização dos serviços de água e esgoto até 2033, conforme determina a Lei 14.026/20. Estiveram presentes nesta mesa: Rogério Tavares, Vice-Presidente de Relações Institucionais da Aegea Saneamento; Marilene Ramos, Diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Águas do Brasil; Roberto Barbuti, Presidente da Iguá e Presidente do Conselho de Administração da Abcon Sindcon (Associação e Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto); Paulo Roberto, Presidente da GS Inima e Samanta Souza, Diretora de Relações Institucionais da Sabesp. A moderação foi conduzida por Christianne Dias Ferreira, Diretora-Executiva da Abcon Sindcon.

Christianne Ferreira informou que desde a aprovação do Marco do Saneamento, a participação do setor privado em concessões de saneamento nos municípios brasileiros passou de 5% para 30% e, na visão da Abcon, as companhias privadas podem se tornar protagonistas na universalização dos serviços de água e esgoto.

Marilene Ramos iniciou contando que o Grupo Águas do Brasil trabalha no setor de saneamento há mais de 25 anos e relatou a s transformações nas cidades onde a concessionária atua: “temos vários cases de sucesso, como o da Águas de Juturnaíba, através da Prolagos, na região dos lagos, no Rio de Janeiro. Quando a empresa assumiu os serviços na região, acabou com a “indústria dos carros-pipa”, reverteu o processo de degradação do sistema lagunar, especialmente da Lagoa de Araruama, a maior lagoa hipersalina do mundo, inovando com a coleta em tempo seco para modificar essa situação”. Marilene também citou o caso de Niterói, onde a população oceânica não tinha água e em três anos a concessionária universalizou a cobertura de água e de coleta e tratamento de esgoto – “com os serviços prestados, a Praia de Icaraí se tornou balneável na maior parte do ano, considerando a influência que sofre da Baía de Guanabara. Isso mostra a transformação, quando um concessionário é regido por um contrato com metas, bem regulado, com eficiência na gestão comercial e também, se for o caso, com penalidades pelo descumprimento do acordo”, prosseguiu a representante do Grupo Águas do Brasil.

Ela lembrou que em 2016, quando o BNDES começou os processos de estruturação dos projetos para fazer concessões de saneamento, com os acordos firmados com os Governos dos Estados, “a ação acabou redundando em duas medidas provisórias para alterar a Lei do Saneamento, que caíram, mas depois deram origem à Lei nº 14.026, de 2020, que destravou os processos”. Hoje já são 54 leilões realizados e mais de R$ 240 bilhões em investimentos contratados e outorgas sendo pagas. “Com isso, praias poluídas voltaram a ser balneáveis no Rio de Janeiro. Em Rio das Ostras, onde temos a concessão do Bloco 3 da Cedae, duplicamos a estação de tratamento de água em um ano e implantamos uma adutora de 12 Km para acabar com o problema da falta de água na cidade”. É essa dinâmica que o setor privado traz para a melhora dos índices de cobertura no Brasil – “mas é claro que o setor privado não irá resolver tudo sozinho. Existem diversos desafios com o poder público Federal e com os governos estaduais ou municipais para permitir a continuidade desse processo de transformação e acredito firmemente que iremos mudar o cenário do saneamento no Brasil”, concluiu Marilene.

Samanta Souza, que atua há 27 anos no setor de saneamento, 25 dos quais na Sabesp e os outros dois no Governo do Estado de São Paulo, onde fez parte do processo de desestatização da companhia de saneamento de São Paulo. Agora de volta à Sabesp, na Diretoria de Relações Institucionais e Sustentabilidade, ela afirma que o Marco Legal do Saneamento teve um papel muito importante em São Paulo, “pois foi um grande impulsionador de segurança jurídica para promover o processo de desestatização dentro da empresa, que trazia bons resultados em seus 51 anos de existência, mas que dentro de um mercado público, sofria dificuldades na questão da captação, alavancagem e disponibilidade de recursos para investimentos. A possibilidade de atuar sem as ‘travas’ do setor público nos trará muita celeridade”.

O contrato atual da Sabesp prevê R$ 250 bilhões de investimentos até 2060. Até 2029, para alcançar a meta de universalização do saneamento dos 371 municípios contratualizados, serão investidos R$ 70 bilhões nos próximos cinco anos. Mas o maior desafio para a realização desses investimentos, na visão de Samanta, está na capacidade da cadeia de suprimentos. Ela citou ainda que pautada pela nova legislação, a Sabesp teve oportunidade de fazer contratos bastante robustos, com segurança jurídica e com a inovação de manter a discricionariedade da regulação, reduzindo assim o número de pedidos de ajustes compensatórios nos contratos ou reequilíbrio econômico-financeiro de contrato.

Para o futuro, Samanta diz que atender os 371 municípios já é um grande desafio com os R$ 70 bilhões de investimentos previstos – “para tanto, a parceria entre público e privados é essencial. Com o poder público nos apoiando para avançar e dando condições de melhores contratos e flexibilização de atuação, acredito que será possível alcançar em 2033 a tão sonhada universalização dos serviços. Estamos num bom caminho” e encerrou sua fala dizendo que a Sabesp tem interesse em expandir seu mercado, mas que neste momento a companhia está focada no planejamento e na operacionalização da universalização dos municípios que já atende.

Rumo à expansão e melhoria dos serviços

Paulo Roberto, da GS Inima, foi um dos pioneiros a atuar como concessionária privada parcial de tratamento de esgoto em Ribeirão Preto (SP), isso em 1995. Em sua trajetória profissional ele pode acompanhar a evolução e o crescimento do setor, e disse que com o Marco Regulatório, a participação privada pode se tornar mais ampla. Em 2007, como Presidente do Conselho da Abcon Sindcon, ele disse que havia a esperança de que com a Lei nº 11.445 o setor pudesse avançar – “mas pouca coisa aconteceu. A regulamentação só veio em 2010. Ainda assim o setor privado persistiu em seus propósitos”. À frente do Conselho da Abcon, Paulo Roberto já considerava a meta de buscar em 10 anos um total de 30% de participação das concessionárias privadas no País. “Isso demorou um pouco mais, mas estamos chegando lá, com grande capacidade técnica e profissional para atuar no saneamento, além, é claro da capacidade de alavancagem de recursos”, prossegue Paulo Roberto. Ele conta que em 1995 as dificuldades de financiamento eram enormes e a maior parte dos investimentos feitos pela Ambient em Ribeirão Preto foram bancados com recursos dos acionistas da companhia. O primeiro financiamento via BNDES só veio em 2001. A concessão de Ribeirão Preto irá completar 30 anos em setembro de 2025 e Paulo Roberto está lá desde o início.

Vencidos esses obstáculos, o Presidente da GS Inima acredita ser possível chegar a 50% de participação de mercado das concessionárias privadas de saneamento no Brasil, em curto espaço de tempo – “o setor mudou bastante e o saneamento virou pauta nacional., graças ao trabalho realizado pela entidade junto ao Ministério das Cidades e com o Senado. Nosso maior desafio é atingir a universalização dos serviços conforme previsto no decreto e espero que, faltando dois ou três anos para expirar a data estabelecida, não haja prorrogação no prazo”.

Saneamento Social

Há sete anos na Aegea, Rogério Tavares construiu uma longa trajetória no setor de saneamento, atuando na área de financiamentos na Caixa Econômica Federal. Segundo ele, “a Aegea foi uma das empresas que apostou que o saneamento no Brasil tinha que mudar, com gente capaz de fazer as coisas acontecerem, para resgatar uma enorme dívida social que o país tem, especialmente junto a pessoas mais pobres, mais vulneráveis. Essas pessoas formam a base da pirâmide, onde 75% ganham até um salário-mínimo, de acordo com o último estudo efetuado pela Abcon. Temos que resolver o saneamento no Brasil do ponto de vista de quem não tem acesso aos serviços de forma adequada, que sofrem com a intermitência no fornecimento etc. E, considerando os que não têm nada, vemos que temos uma dívida enorme para pagar”.

Como companhia, a Aegea entende que pode e deve contribuir para o resgate dessa dívida. Mais que ofertar um serviço de qualidade de água e esgoto, é preciso ofertar um serviço que as pessoas possam pagar – “na medida do possível, temos contribuído para o desenvolvimento das comunidades mais vulneráveis onde estamos entrando”, garantiu Rogério.

A Aegea iniciou sua atuação em 2010, com a concessão da Prolagos, atendendo cinco cidades da Região dos lagos (RJ) – Búzios, Cabo Frio, São Pedro da Aldeia, Iguaba e Arraial do Cabo, mais a concessão de Campo Grande (MS). A Prolagos foi comprada da Águas de Portugal e a Águas de Guariroba, na região Centro-Oeste, foi adquirida da Águas de Barcelona – “operadores estrangeiros que não estavam conseguindo performar”. Nestas seis cidades a companhia atendia pouco mais de 1,4 milhão de pessoas. Agora, no final de 2024, considerando o leilão do Piauí vencido pela companhia, a Aegea passará a atender mais de 760 cidades no Brasil, em 15 estados da União. A maior concentração dessas cidades está no Rio Grande do Sul, por conta do controle acionário da Corsan. Em Piauí, a companhia irá operar em 224 cidades, além de Teresina, onde já estavam. A novidade é que o novo contrato inclui toda a área rural no objeto da licitação. Um grande desafio pois não há como pensar eventualmente em soluções de redes. Acredito que quase sempre as soluções serão individuais”.

Voltando para o panorama inicial, em 14 anos a Aegea sai de seis para 760 municípios atendidos. No final de 2016 contava com cerca de 4 mil colaboradores, operando em pouco mais de 50 cidades – hoje já são 20 mil funcionários para atender as 760 concessões. Um crescimento exponencial alavancado a partir do Marco Regulatório, que permitiu leilões como o da Corsan, da Cedae (em blocos), e as PPPs da Cagece, no Ceará, e do Mato Grosso do Sul. “Mas o coroamento desse processo começou em 2016, durante o Governo Temer, quando o TCU resolveu estudar o que estava acontecendo com os gastos públicos em saneamento, onde o ponteiro dos indicadores permanecia estagnado. Se gastava dinheiro, mas a evolução da cobertura dos serviços não acontecia”, conta Rogério, lembrando que a partir desse momento vieram as Medidas Provisórias até se chegar à Lei 14.026/20. Naquela época, o BNDES, junto com a Ministra Marina Silva, já considerava a ideia de privatização de parte das companhias públicas de saneamento. E isso fez o setor aparecer na mídia, em manchetes mostrando que saneamento é saúde e que as doenças de veiculação hídrica matam muito mais pessoas do que se tem ideia e que excluem da possibilidade de vida futura gerações de crianças que têm seu desenvolvimento cognitivo prejudicado pela falta de saneamento.

E finalizou sua fala dizendo que “não existe exatamente o melhor modelo de contrato. O modelo deve ser factível para a realidade de cada Estado, inclusive do ponto de vista político. O mais importante é que algo seja feito para a melhoria e evolução dos indicadores. Acabou a dicotomia público versus privado. Temos que trabalhar em conjunto para universalizar o saneamento”.

Decisões estratégicas

Como Presidente do Conselho da Abcon, Roberto Barbuti exaltou o papel estratégico da associação no sentido de dar um direcionamento aos seus associados e de colaborar com as demais entidades para dar encaminhamento às demandas e buscar soluções para o setor. Como CEO da Iguá, Roberto disse que as mudanças colocadas pelo Marco Regulatório, dentro de um processo organizado, trouxeram velocidade no avanço e que a eficiência de liderança também contribuiu para o novo momento.

Roberto cita que em 1995 houve o Marco do Setor Elétrico, que acabou evoluindo numa velocidade muito maior do que o setor de saneamento, por diversas circunstâncias. E fez um paralelo com o fato de a Equatorial Energia ter ganho o leilão da Sabesp. Falando especificamente da Iguá, o CEO se referiu a dois momentos estratégicos: o leilão da concessão dos serviços de produção e tratamento de água da DESO, em Sergipe (em setembro passado) e a evolução de uma PPP com a Sanepar, no Paraná, estatal que não tem planos de privatização, mas que ao longo dos anos tem feito parcerias importantes com o setor privado.

“Não importa qual seja o modelo. Temos que dar soluções e buscar eficiência, mesmo com o enorme desafio dos investimentos estimados. Somente em Sergipe, serão R$ 6 bilhões, em um momento de custo de capital elevado em todo o mundo, sem perspectiva de reversão desse quadro. O Brasil vive um ambiente de juros historicamente elevados, também sem perspectiva clara de mudança. A isso se soma o fato de termos empresas que estão alavancadas no balanço ou no plano de Capex”, disse o CEO da Iguá.

Além dos desafios de investimentos e da pressão inflacionária, Roberto também citou a questão da cadeia de suprimentos e o fato de boa parte dos clientes da concessionária terem limitações de capacidade de pagamento – “como fechar essa equação? O desafio é grande e passa pela eficiência na operação, pela atração de capital, com um plano de investimentos crível e atraente para os investidores, especialmente quando as alternativas disponíveis colocam o custo em um patamar mais elevado”.

A importância da qualificação da mão de obra também foi lembrada por Roberto, de forma a ter o mesmo alinhamento com a empresa, o que implica em uma mudança de mind set. “Nisso tudo temos pautas amplas, como a questão da nova lei da Tarifa Social, tema bastante complexo. Não se trata de ser contra ou a favor, mas de estabelecer bases que permitam que a equação feche. Se a conta não fechar em cima do orçamento público, como se percebe na realidade brasileira, infelizmente, ela vai fechar a custa de fazer menos investimentos ou de aumentar a tarifa dos outros consumidores? São muitos elementos para compor o orçamento”, prosseguiu Roberto, que citou a complicação adicional trazida pelo aumento tarifário.

A principal pauta do setor hoje, até pela necessidade de uma movimentação rápida, é a Reforma Tributária, que acabou penalizando extremamente a área de saneamento. “da forma como está hoje a legislação, a situação passa pela questão de não ter que recolher tributos estaduais e municipais, para pagar a alíquota cheia do novo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), o que pode significar um aumento de até 18% nas tarifas. A Reforma Tributária coloca em risco a sustentabilidade do nosso negócio. Como entidades, empresas e cidadãos precisamos fazer uma movimentação para mostrar que a conscientização está crescendo. Aliás, conscientização é a palavra-chave que irá nos permitir continuar avançando e acelerando os serviços. A alternativa de não ter a universalização conforme está programada, é uma opção muito cruel para nós como agentes do setor e não é justo para a população”, encerrou Roberto Barbuti.

(Por Mara Fornari)

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“Poucas matérias conseguem reunir ao mesmo tempo o desafio tanto da área social, quanto econômica. Na área social, a cobertura do saneamento apresenta um dos piores indicadores, apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, mas ainda há muito por fazer. Na área econômica, sobretudo diante da recessão que o país atravessa, precisamos do fomento de investimento público ou via parceria com o setor privado”, disse José Roberto Afonso, economista e professor da FGV, ao abrir os trabalhos da mesa-redonda “Saneamento – Investimento Social de Alto impacto”, realizada no início de maio, no Rio de Janeiro. A iniciativa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV), teve como patrocinadores as empresas Aegea e Suez, e apoio do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Primeira parte do encontro tratou de oferta, regulação, financiamento e políticas públicas. Na ocasião, o Secretário Nacional Substituto de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, Johnny Ferreira, reforçou que o saneamento avançou bastante nas últimas décadas no Brasil, mas que ainda há um grande déficit no setor, tanto em termos de oferta quanto da qualidade do serviço ofertado. De acordo com Ferreira, “quando se fala de políticas públicas é preciso ter em mente que falar do Brasil é falar em um continente: somos o quinto país do mundo em termos de extensão territorial e de população, com disparidades regionais muito grandes. O processo de urbanização foi extremo – em 1960, 45% da população brasileira viviam em área urbana; em 1970 esse número pulou para 56% e o último censo, realizado em 2010, mostra que chegamos a 84% das pessoas vivendo nas cidades. No caso do saneamento, a questão se torna mais complexa: a titularidade do serviço é municipal, há uma concentração de companhias estaduais como prestadores do serviço de água e esgoto e a relação entre os entes federados também é complexa, diferentemente de outras áreas da infraestrutura onde a participação do Governo Federal é mais firme e consolidada. O setor carece de mecanismos de cooperação entre os entes federados”. Na última década o avanço se deu na constituição de uma base legal (marco regulatório), de forma a oferecer um ambiente de investimentos e de relações entre os setores público e privado e entre o próprio setor público. Outro destaque foi a elaboração do Plano Nacional de Saneamento Básico – Plansab, aprovado em 2013, que traça metas para universalização dos serviços por um horizonte de 20 anos. Outro avanço foi a retomada de investimentos. Entre 1999 e 2002 os empréstimos para o setor ficaram travados em função de crise fiscal, uma vez que a prestação dos serviços de saneamento está muito concentrada no setor público. A partir da melhora do quadro macroeconômico, por volta de 2003, iniciou-se o processo de retomada dos investimentos, consolidada em 2007 com o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, que em suas duas etapas selecionaram R$ 95,4 bilhões para o setor, sendo a maior fatia para obras de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Deste total, R$ 92,2 bilhões foram contratados, sendo R$ 45,6 bilhões de recursos a fundo perdido do Orçamento Geral da União (OGU), já que diversas empresas de muitos estados não tinham condições de se endividar. Nos últimos 10 anos o número de ligações de água cresceu 45% - uma média de 1,6 milhão de novas ligações por ano. Ferreira explica que a ampliação da cobertura não cresceu tanto no período devido à dispersão da população no território brasileiro – “enquanto a população urbana cresceu 45% de 2001 a 2010, o número de domicílios urbanos cresceu 81,2%”. Isso tende a se estabilizar nos próximos anos, o que facilitará o processo de ampliação da cobertura. De 1970 a 2010 o incremento na rede de distribuição de água foi de 127,7 milhões de pessoas. Ainda assim, 13,8 milhões de pessoas que residem em áreas urbanas ainda não contam com rede de distribuição de água. Já a evolução no esgotamento sanitário mostra que nos últimos 10 anos o número de ligações de esgoto cresceu 77% - uma média de 1,2 milhão de novas ligações por ano. Ainda assim, 60,9 milhões de pessoas da área urbana não são atendidas com rede coletora de esgoto. Com isso, 15,6 bilhões de litros de esgoto doméstico são lançados todos os dias no solo e nos corpos hídricos sem qualquer tipo de tratamento. Hoje o Brasil trata 71% do esgoto coletado, mas em termos de volume estimado gerado esse percentual passa a 41% e a atual capacidade instalada permite um tratamento superior a isso. Muitas ETEs estão com capacidade ociosa, pois dependem da instalação de coletores-tronco. Quanto ao futuro, Ferreira salientou que o Plansab – Plano Nacional de Saneamento Básico prevê universalizar o abastecimento de água em áreas urbanas até 2023 e tratar 86% de todo o esgoto gerado no país em 2033. Para tanto, serão necessários investimentos de R$ 508,4 bilhões envolvendo todas as fontes: recursos federais, estaduais, municipais e da iniciativa privada. Em 2014, foram investidos R$ 12,2 bilhões em água e esgoto, segundo mostra o SNIS. Em termos de mecanismos e alternativas de financiamento, o secretário substituto da SNSA cita como fontes as tarifas, operações de crédito interno (recursos FGTS e BNDES) e participação acionária, entre outras, e lembra os problemas que o setor tem de acessar linhas de crédito – “das 26 companhias estaduais de água e esgoto, que operam em 80% dos municípios e atendem 70% da população, somente 13 conseguiram acessar recursos do BNDES ou da CEF nos últimos 10 anos”. 55% de todo o crédito disponibilizado ao setor ficaram com apenas três empresas nesse período. Em suas considerações finais, Ferreira lembrou aos presentes os avanços do setor nos últimos anos, mas pontuou que problemas de gestão e governança impactam negativamente as dimensões operacionais, financeiras, empresariais e ambientais das companhias de saneamento. Também ressaltou que o atual ciclo de planejamento e implementação dos empreendimentos é muito longo e que o setor apresenta grande potencial para ganhos de eficiência. Como condições para a universalização dos serviços, o secretário substituto listou a efetiva implementação da Lei nº 11.445; maior cooperação entre os entes federados (União, Estados, Municípios e Distrito Federal); melhoria do ambiente de investimentos no setor; e a participação da iniciativa privada. Participaram ainda do primeiro painel Marcela Altale, advogada representante do Grupo de Estudos de Economia da Infraestrutura e Comercial com Soluções Ambientais; Luiz Firmino, do Grupo Executivo de Gestão Metropolitana do Rio de Janeiro; Irene Altafin, Consultora Especialista Sênior em Água e Saneamento do CERI – Centro de Estudos de Regulação e Infraestrutura da FGV; além de Carlos André Lima Rodrigues, da Gerência Nacional de Crédito Saneamento e Infraestrutura da CEF. A segunda parte do encontro contou com a mediação de Marcelo Neri, ex-Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e Diretor da FGV Social, que ressaltou os grandes problemas coletivos do Brasil, sendo o saneamento o “maior exemplo em termos de serviços públicos, que impõe soluções não triviais”. Na sequência, Édison Carlos, presidente Instituto Trata Brasil, reforçou que o saneamento básico no Brasil não condiz com a posição do país no ranking econômico mundial. Os indicadores do SNIS mostram que ainda 35 milhões de brasileiros não tem acesso à água tratada e 6 milhões de pessoas sequer possuem um banheiro, sendo que no semiárido brasileiro, um trabalho realizado pelo ITB, em parceria com a Unicef e a Unilever , mostra que 450 mil crianças não tem banheiro na escola. O despejo diário de esgotos na natureza corresponde a aproximadamente o volume de 5 mil piscinas olímpicas; em 2013, 407 mil pessoas foram internadas por diarreia e doenças da falta de saneamento e 53% dos casos eram crianças de 0 a 5 anos. Isso demonstra um brutal impacto no futuro do país, especialmente nas áreas de saúde, educação e produtividade. Nas cidades com maior proporção da população com acesso a rede de esgoto, as internações por doenças infecciosas são menores; a renda média das pessoas é maior, assim como o valor médio dos imóveis, isso sem citar maiores ganhos com o turismo. Para o ITB, a sociedade precisa fazer a sua parte e é necessário integrar o cidadão nessa discussão, mas “não basta acreditar que apenas recursos resolveram o problema do saneamento, sem antes resolver a deficiência da gestão em muitas companhias de saneamento”. Gustavo Pimentel, diretor de Research & Analysis da Sitawi, explicou que um dos objetivos dos investidores ou de instituições financeiras é desenvolver mecanismos para alavancar capital de forma a obter um impacto socioambiental positivo. Em alguns eventos internacionais e na linha do “não falta dinheiro”, é possível notar a emergência de mecanismos que tragam visibilidade a ativos com externalidades socioambientais positivas. No bojo das finanças climáticas, estão surgindo os “green bonds”ou “climate bonds”, que utilizam títulos de dívidas que já existem no mercado de capitais, mas de forma a instituir um “selo” para que sejam mais facilmente descoberto pelos investidores – e a emissão desses títulos já vem sendo utilizada por muitas companhias de água e saneamento. O desafio está em criar mecanismos mais ajustados para remunerar a performance e atrair investidores. Hamilton Amadeo, CEO da Aegea, uma das empresas patrocinadoras da mesa-redonda, trouxe uma visão mais tática da questão saneamento. O grupo atua no setor em quatro referências: tecnologia, parcerias – “uma das maneiras de enxergar a ‘solução’ para o problema”, bancabilidade – “não é uma solução, mas sim o começo de tudo – se os investimentos não forem implantados, não há negócio”, e o relacionamento com o usuário. Segundo Amadeo, as empresas privadas de saneamento não estão aqui para tomar o lugar de ninguém e sim para complementar os serviços. A Aegea atende atualmente 4 mil

16 de maio, 2016