Perda de água poderia abastecer 77 milhões de brasileiras

O Brasil desperdiça 39,53% da água tratada, volume que poderia abastecer 77 milhões de brasileiras, agravando a crise hídrica e o acesso à água potável.
O Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria GO Associados publicou o “Estudo de Perdas de Água 2026 (SINISA, 2024): Desafios na Eficiência do Saneamento Básico no Brasil”, que traz o panorama do problema ambiental, econômico e social da ineficiência no controle de perdas de água no Brasil. Com o agravamento das mudanças climáticas, o Brasil ainda tem cerca de 33 milhões de habitantes sem acesso à água potável, e desperdiça 39,53% da água tratada antes mesmo que ela chegue às torneiras das famílias. O levantamento aponta que o volume de perdas físicas em 2024 (cerca de 4,4 bilhões de m³) equivale a 4,8 mil piscinas olímpicas desperdiçadas por dia ou 16,2 milhões de caixas d'água para uma família de cinco pessoas por dia ou a 4,5 vezes o volume do Sistema Cantareira ao longo de um ano.
O levantamento foi elaborado a partir de dados públicos do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA, ano-base 2024) e compreende uma análise do Brasil, de suas cinco macrorregiões, das 27 Unidades da Federação e dos 100 municípios mais populosos do país (incluindo as capitais dos estados), que figuraram no Ranking do Saneamento de 2026.
A perda de água acontece por diversos motivos, como vazamentos, erros de medição e consumos não autorizados, que impactam negativamente o meio ambiente, à receita e os custos de produção das empresas, deixando mais caro o sistema como um todo, além de prejudicar, em última instância, todos os usuários. No Brasil, o Ministério das Cidades editou a Portaria MCID nº 788, de 1º de agosto de 2024 (Portaria 788/2024), revogando e substituindo a Portaria nº 490, de 22 de março de 2021 (Portaria 490/2021), anteriormente editada pelo então Ministério do Desenvolvimento Regional. A Portaria 788/2024 passou a estabelecer metas para os indicadores de perdas na distribuição e perdas por ligação. Segundo o normativo, os municípios beneficiados por recursos públicos federais ou financiamentos com recursos da União deverão apresentar indicadores iguais ou inferiores a 35% e 303,0 L/ligação/dia até 2025; 30% e 263,0 L/ligação/dia entre 2026 e 2032 e 25% e 216,0 L/ligação/dia a partir de 2033.
Os 4,4 bilhões de m³ desperdiçados em 2024 seriam suficientes para abastecer aproximadamente 77 milhões de brasileiros em um ano ou mais de um quarto da população do País em 2024. Com o cenário de mudanças climáticas, os desafios para a disponibilidade hídrica nos mananciais se tornam cada vez mais evidentes. As perdas reais afetam diretamente os custos de produção e a demanda por água. Neste sentido, um elevado nível destas perdas equivale a uma captação e a uma produção superiores ao volume efetivamente demandado, gerando as seguintes ineficiências:
A situação de perdas no Brasil apresenta significativas diferenças quando se comparam suas diversas macrorregiões. É possível concluir que Norte e Nordeste são as mais carentes e que devem enfrentar os maiores desafios para reduzirem seus índices de perdas. Além disso, essas regiões também são aquelas que possuem os piores indicadores de atendimento de água, de coleta e de tratamento de esgotos. De 2020 a 2024, a macrorregião que mais apresentou piora foi a Nordeste, com aumento de 0,46 ponto percentual. Por outro lado, observa-se melhora na macrorregião Norte, com redução de 1,79 pontos percentuais no mesmo período. A análise comparativa dos indicadores estaduais de perdas na distribuição evidencia a variação do desempenho entre as unidades federativas, identificando padrões regionais, diferenças estruturais entre os sistemas de abastecimento e potenciais implicações para a eficiência operacional dos prestadores. A leitura do indicador permite uma compreensão mais abrangente do estágio de controle de perdas no País. A análise evidencia um padrão de maior ineficiência concentrado principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país. Estados como Alagoas (66,90%), Roraima (65,97%), Pará (57,33%), Maranhão (56,68%), Acre (56,48%) e Sergipe (55,10%), apresentam níveis de perdas superiores a 55% do volume distribuído, significativamente acima da média nacional (39,53%). Por outro lado, estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país, como Goiás (27,61%), Mato Grosso do Sul (30,60%), Distrito Federal (31,55%), São Paulo (32,15%), Paraná (33,11%) registram indicadores inferiores a 35%. Neste indicador, merece destaque o estado do Piauí, que possui a menor média entre os estados (24,61%), e Tocantins, com a quinta menor média entre as unidades da federação para este indicador (31,58%).
O indicador médio computado na amostra foi de 35,56% em 2024, o que representa uma piora em relação aos 31,09% computados em 2023. Dos 99 municípios considerados, apenas 20 possuem níveis de perdas na distribuição menores que 25%. Os dados mostram ainda que 14 municípios têm perdas na distribuição superiores a 50%. É possível observar uma forte concentração dos melhores desempenhos nos estados do Sudeste, que concentram 12 dos 20 municípios com menores índices de perdas na distribuição. Municípios como Suzano (1,27%) e Santos (5,35%), apresentam níveis significativamente inferiores à média nacional.
Por outro lado, os municípios com piores resultados estão majoritariamente localizados nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para Parauapebas (PA), com 70,68%, e Maceió, com 64,05%. Além disso, outras cidades de diferentes regiões também apresentam perdas significativas, com destaque para Belo Horizonte, com 68,29% e Várzea Grande (MT), com 59,03%. Somente doze dentre os 100 municípios mais populosos do Brasil atendiam às metas da Portaria 788/2024 simultaneamente em 2024, indicando haver um longo caminho a ser percorrido na busca pela redução das perdas de água.
Apenas quatro das 27 capitais, Goiânia, São Paulo, Campo Grande e Teresina, apresentaram valores inferiores à meta de 25% estabelecida pela Portaria 788/2024. A média das capitais foi de 39,30%. Estima-se que as capitais brasileiras percam anualmente cerca de 2,3 bilhões de m³ de água, dos quais aproximadamente 0,9 bilhão de m³ (40%) correspondam a perdas aparentes (comerciais), enquanto 1,4 bilhão de m³ (60%) refiram-se a perdas reais (físicas). Considerando-se apenas estas últimas, o volume desperdiçado equivale a cerca de 1.517 piscinas olímpicas por dia, ou a mais de cinco milhões de caixas d’água de 750 litros. Para calcular os ganhos econômicos ao País pela redução de perdas, o estudo apresentou uma análise de três cenários: o otimista, o realista e o pessimista. Cada um deles responde à média nacional do nível de perdas a ser alcançada em 2033: 15% (cenário otimista), 25% (cenário realista) e 35% (cenário pessimista). Tomando como referência o Cenário Realista, é possível constatar que existe um potencial de ganhos brutos com a redução de perdas de água de R$ 47,3 bilhões até 2033. Caso sejam considerados os investimentos necessários para a redução de perdas, o benefício líquido gerado pela redução de perdas é da ordem de R$ 23,6 bilhões em 10 anos.
A melhor gestão e eficiência nos sistemas de distribuição estão diretamente ligadas à universalização do saneamento básico. Combater as perdas é, antes de tudo, garantir o acesso pleno à água para todos os brasileiros, proteger os mananciais e responder aos efeitos das mudanças climáticas com a infraestrutura que o país já tem, mas ainda desperdiça. O estudo evidencia que as perdas de água permanecem em níveis elevados no país. Em 2024, as perdas na distribuição foram de 39,53%, enquanto as perdas por ligação foram de 349,09 L/dia/ligação, valores significativamente superiores aos parâmetros de eficiência estabelecidos pela Portaria 788/2024, de 25% e 216 L/ligação/dia, respectivamente. As desigualdades regionais permanecem como um dos principais desafios para a universalização dos serviços de saneamento básico no Brasil, e as regiões Norte e Nordeste seguem concentrando os indicadores mais elevados de perdas de água.
Em uma realidade que já se faz presente, os efeitos das mudanças climáticas refletem em impactos diretos no acesso à água potável. A redução das perdas contribui para mitigar a necessidade de expansão de mananciais e aumenta a resiliência dos sistemas de abastecimento em um contexto de crescente pressão sobre os recursos hídricos. Além disso, menores níveis de perdas tendem a ampliar a sustentabilidade econômico-financeira dos prestadores, reduzindo pressões sobre tarifas futuras e liberando recursos para investimentos em expansão, manutenção e melhoria dos serviços. Para tanto, é necessário priorizar essa agenda com a implementação de programas que unam eficiência e inovação e, consequentemente, acelerar o ritmo dos investimentos para que o Brasil atinja a meta de 25% em perdas na distribuição até 2033, conforme previsto pela Portaria 788/2024. "Seguimos perdendo, a cada ano, água suficiente para abastecer populações inteiras, enquanto milhões de brasileiros ainda não têm acesso a esse recurso básico e essencial para a vida. Estamos falando de um volume capaz de atender 77 milhões de habitantes, número que representa mais de duas vezes a quantidade de pessoas sem acesso ao abastecimento de água no país. São casas que ficam sem abastecimento, rios que secam uma sobrecarga em todo o sistema de distribuição que recai, inevitavelmente, sobre os habitantes. Reduzir perdas de água é uma escolha de gestão que impacta diretamente a qualidade de vida da população e a saúde dos nossos mananciais, especialmente em um cenário em que as mudanças climáticas já pressionam a disponibilidade hídrica e tornam a eficiência no uso da água ainda mais urgente. Em um ano eleitoral, esse debate precisa chegar às propostas de saneamento integrado, porque não há universalização possível sem eficiência na distribuição da água que já produzimos”, afirma Luana Pretto, Presidente-Executiva do Trata Brasil. Para Gesner Oliveira, Sócio Executivo da GO Associados, a redução das perdas de água deixou de ser apenas uma agenda de eficiência operacional no setor de saneamento básico e passou a ocupar um papel estratégico na adaptação climática dos municípios. “Em um contexto internacional em que parte do setor privado e de governos tem abandonado compromissos ambientais, torna-se ainda mais importante fortalecer políticas públicas capazes de conciliar a expansão do atendimento às populações ainda sem acesso ao abastecimento de água e aos serviços de coleta e tratamento de esgotos com segurança hídrica e preservação ambiental. Nesse sentido, reduzir perdas significa utilizar de forma mais racional a água já captada e tratada, diminuindo a pressão sobre os mananciais, reduzindo custos operacionais e aumentando a resiliência dos sistemas de abastecimento frente a eventos climáticos extremos”, comenta Oliveira.












