Corsan investe R$ 1,88 bilhão e redesenha operações para recuperar rios

Com investimentos bilionários, companhia redesenha operações para reduzir vulnerabilidades e assegurar continuidade dos serviços em cenários de crise, em programa com abrangência de 55 municípios
A reconfiguração do saneamento básico no Brasil ganha novos contornos diante da intensificação das mudanças climáticas. No Rio Grande do Sul, a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) tem adotado uma estratégia que alia expansão da infraestrutura à resiliência hídrica, com o objetivo de recuperar rios, garantir o abastecimento e enfrentar eventos extremos cada vez mais frequentes.
O novo modelo de atuação da companhia parte de um diagnóstico claro: não basta ampliar redes de água e esgoto — é necessário assegurar que esses sistemas permaneçam operacionais mesmo em cenários adversos, como enchentes e estiagens severas. Nesse contexto, surge o Plano de Resiliência Hídrica, considerado o principal eixo de transformação do setor no estado.
Com previsão de investimento de aproximadamente R$ 1,88 bilhão e abrangência em 55 municípios, o plano incorpora o risco climático como variável central no planejamento do saneamento. A proposta representa uma mudança de paradigma: o foco deixa de ser exclusivamente a expansão da cobertura e passa a incluir a capacidade de resposta e adaptação das estruturas diante de crises ambientais.
Entre as medidas adotadas, destaca-se a realocação de 91 unidades operacionais para áreas fora de zonas de inundação, reduzindo a vulnerabilidade das instalações. A estratégia também inclui a perfuração de poços profundos como fonte alternativa de abastecimento, reforçando a segurança hídrica em situações emergenciais.
Outro ponto relevante é o fortalecimento da interligação entre sistemas e a ampliação da capacidade de reservação. Essas ações permitem maior flexibilidade operacional, possibilitando a transferência de água entre regiões e minimizando riscos de desabastecimento. Paralelamente, a modernização das estações de tratamento e a criação de redundâncias operacionais aumentam a robustez da infraestrutura.
A tecnologia desempenha papel estratégico nesse processo. Sistemas de monitoramento em tempo real, com uso de sensores e telemetria, permitem antecipar falhas e otimizar a gestão dos recursos. Além disso, a formação de estoques estratégicos de equipamentos fortalece a capacidade de resposta em situações de emergência.
Apesar do avanço na agenda de resiliência, especialistas ressaltam que a recuperação dos rios depende diretamente da ampliação da coleta e do tratamento de esgoto. A redução da carga poluente é condição indispensável para a melhoria da qualidade dos corpos hídricos, reforçando a necessidade de integração entre expansão e eficiência operacional.
A iniciativa da Corsan reflete uma tendência global: o saneamento básico passa a ser compreendido não apenas como infraestrutura essencial, mas como ferramenta estratégica de adaptação às mudanças climáticas. Eventos extremos, como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, evidenciam a urgência de sistemas mais resilientes e preparados para cenários de instabilidade.
Nesse cenário, o redesenho do saneamento sinaliza um avanço importante na gestão dos recursos hídricos, ao integrar sustentabilidade, inovação e planejamento de longo prazo. Mais do que obras, trata-se de uma mudança estrutural que busca assegurar não apenas o fornecimento de água, mas também a preservação ambiental e a qualidade de vida da população.
