Debate reúne especialistas para discutir resíduos sólidos

Debate reuniu representantes da indústria, mineração, saneamento e gestão pública para analisar os desafios da transição energética e da economia circular
As transformações necessárias para o avanço da gestão de resíduos sólidos e da transição energética no Brasil estiveram no centro de debate promovido pela Revista Saneamento Ambiental nas dependências da empresa Método, reunindo especialistas, empresários, consultores e representantes da indústria para um diálogo qualificado sobre inovação, sustentabilidade, regulamentação e desenvolvimento econômico.
Com mediação de Eugenio Singer, o encontro promoveu reflexões sobre os desafios estruturais da destinação de resíduos, a valorização econômica dos rejeitos e o papel estratégico da integração entre setor público, iniciativa privada e sociedade civil.
Entre os participantes estiveram Estela Testa, Fabricio Soler, José Mateus Bichara, Hugo Marques, Flávio Vasconcelos e José Valverde Machado Filho. Durante a abertura do encontro, Eugenio Singer destacou a importância de promover espaços integrados de discussão capazes de reunir diferentes agentes do setor em busca de soluções compartilhadas. Segundo ele, a governança moderna exige processos participativos e decisões construídas coletivamente, especialmente diante de temas complexos como resíduos sólidos, mineração urbana, recuperação e transição energética.
Resíduos como ativo estratégico
Ao abordar o panorama histórico da gestão de resíduos no Brasil, José Valverde Machado Filho ressaltou que o país ainda enfrenta heranças de um modelo ultrapassado de descarte, baseado apenas na coleta e aterramento do lixo. Para ele, o desafio contemporâneo está em transformar resíduos em ativos estratégicos por meio de tratamento, recuperação e reaproveitamento.
Valverde destacou que o Brasil avançou significativamente em legislação e segurança jurídica voltadas à gestão de resíduos sólidos, mas ainda necessita de monitoramento, regionalização e fortalecimento de políticas públicas. Segundo o especialista, soluções consorciadas e integração regional serão fundamentais para evitar o colapso dos sistemas municipais de gestão.
Outro ponto enfatizado foi a necessidade de valorização da chamada “mineração urbana”, especialmente na recuperação de metais raros presentes em equipamentos eletrônicos e placas recicláveis, além do aproveitamento de rejeitos minerais associados aos minerais críticos da transição energética.
Construção civil e reaproveitamento de resíduos
O CEO do Grupo Método, Hugo Marques, trouxe ao debate reflexões sobre os gargalos enfrentados pela construção civil no reaproveitamento de resíduos. Segundo ele, embora a engenharia brasileira possua capacidade técnica para desenvolver soluções eficientes, ainda existem fragilidades conceituais e dificuldades operacionais que limitam a valorização dos materiais descartados.
Hugo destacou os desafios relacionados à estabilização e reutilização de resíduos da construção dentro do setor de agregados, bem como as possibilidades de recuperação de pavimentos asfálticos em rodovias e vias de serviço. Para ele, o avanço depende da criação de padrões técnicos, segurança operacional e estímulos econômicos capazes de viabilizar novas rotas tecnológicas.
O papel da mineração na gestão de resíduos
A relação entre mineração e resíduos sólidos também ganhou destaque no encontro. O geoquímico ambiental e CEO da Hidrogeo, Flávio Vasconcelos, enfatizou que a mineração brasileira historicamente não possuía classificação normativa específica para resíduos minerais, realidade que começou a mudar a partir de 2020 com a criação de grupos técnicos da ABNT voltados à regulamentação do tema.
Segundo Flávio, a expectativa é que, a partir de 2027, novas diretrizes incluam formalmente os resíduos sólidos da mineração dentro das normativas nacionais, estabelecendo responsabilidades técnicas e critérios mais rigorosos para gestão e classificação.
O especialista destacou ainda o potencial econômico associado aos rejeitos minerais e aos chamados minerais críticos, fundamentais para a transição energética global, reforçando que inovação, regulamentação e viabilidade econômica precisarão caminhar de forma integrada.
Logística reversa, regulação e financiamento
Ao longo do debate, Fabricio Soler trouxe uma análise sobre a evolução da política nacional de resíduos sólidos e os desafios ainda existentes na implementação prática da legislação.
Segundo Soler, enquanto os setores de água e esgoto apresentaram avanços relevantes nos últimos anos, a gestão de resíduos sólidos ainda enfrenta dificuldades estruturais, principalmente nos municípios brasileiros. Ele destacou que muitos sistemas de cobrança permanecem vinculados ao IPTU, o que compromete a destinação adequada de recursos para operação dos serviços.
O especialista também defendeu a ampliação da logística reversa, o fortalecimento do custeio das embalagens e a profissionalização da gestão municipal, ressaltando que os municípios não necessariamente precisam operar aterros próprios, desde que existam operadores privados qualificados e estruturas eficientes de fiscalização.
Representando a indústria de equipamentos e soluções tecnológicas, Estela Testa ressaltou que o Brasil possui capacidade tecnológica e industrial para avançar na área de resíduos sólidos, embora o setor ainda esteja atrás dos investimentos observados em água e esgoto.
A executiva destacou sua participação na IFAT, uma das maiores feiras internacionais de tecnologia ambiental, ressaltando o forte interesse internacional pelo mercado brasileiro. Segundo ela, a indústria nacional está consciente da necessidade de inovação e busca avançar dentro das possibilidades econômicas e regulatórias do país.
Estela também chamou atenção para os números da reciclagem na Alemanha e para o potencial econômico que a valorização dos resíduos pode representar para o Brasil nas próximas décadas.
Perspectivas para 2050
No encerramento do debate, os participantes apresentaram reflexões sobre o futuro da gestão de resíduos sólidos no Brasil até 2050. Entre os temas abordados estiveram recuperação energética, biogás, plantas de separação mecânica, tratamento regionalizado e novos modelos industriais de triagem.
José Mateus Bichara destacou que o futuro dependerá da capacidade de enxergar o lixo como matéria-prima e não apenas como passivo ambiental. Para ele, o fortalecimento da indústria de equipamentos e o investimento em tecnologias de triagem serão fundamentais para consolidar uma nova economia circular no país.
Já Estela Testa reforçou que a regulamentação brasileira já existe e que o próximo passo será criar condições econômicas para escalar os projetos em nível nacional. Fabricio Soler acrescentou que inovação sem aplicação prática não transforma realidades, sendo necessário alinhar indústria, regulação, gestão pública e investimento privado.
Ao final, Eugenio Singer reforçou que os avanços do setor dependerão da capacidade de integrar inovação, políticas públicas, governança e propósito coletivo, promovendo conhecimento e articulação entre todos os agentes envolvidos na cadeia de saneamento e gestão ambiental.







