RECURSOS HÍDRICOS

Pegada hídrica da produção de leite demanda novas estratégias de gestão hídrica no campo

Pegada hídrica da produção de leite demanda novas estratégias de gestão hídrica no campo

Pesquisa brasileira e alemã analisa pegada hídrica na produção de leite e identifica estratégias para reduzir consumo de água no campo, com variação de 299 a 1.058 litros por quilo produzido.

Pesquisadores do Brasil e da Alemanha analisaram como técnicas produtivas e cenários de aquecimento global influenciam o uso de água na atividade leiteira. O estudo, publicado na revista Science of The Total Environment, avaliou 67 propriedades em Lajeado Tacongava, no Rio Grande do Sul, por meio de 192 combinações entre práticas agropecuárias e condições climáticas, com o objetivo de identificar alternativas que aumentem a eficiência e reduzam o consumo hídrico.

As unidades avaliadas representam a maior parte da produção local, com predominância de sistemas baseados em pastagens, além de modelos semi-intensivos e intensivos — todos voltados exclusivamente à atividade leiteira. Essa diversidade permitiu identificar diferenças relevantes entre os modelos e oferecer orientações práticas ao produtor rural.

Como se mede a água do leite

Para mensurar o consumo hídrico, foi utilizado o conceito de pegada hídrica, que considera o volume total de água envolvido na produção. São três componentes: a água verde, ligada à chuva que alimenta pastagens e lavouras usadas na dieta dos animais; a água azul, captada diretamente de rios, poços ou redes para dessedentação, limpeza e refrigeração; e a água cinza, volume necessário para diluir resíduos e poluentes gerados pela atividade.

A distinção é importante porque a composição da pegada revela onde estão os gargalos. No caso do leite, a água verde responde por mais de 98% do total em todos os sistemas avaliados — ou seja, a alimentação do rebanho concentra a esmagadora maioria do consumo. A água azul representou em média 7,8 litros por quilo de leite corrigido nos sistemas a pasto, 7,5 nos semiconfinados e entre 5,4 e 6,4 nos confinados. Já a água cinza ficou abaixo de 0,12% do total.

Os números do estudo: de 299 a 1.058 litros por quilo

A pegada hídrica média observada foi de 704 litros de água por quilo de leite corrigido para teor de gordura e proteína. Mas a variação entre propriedades foi enorme — os melhores resultados ficaram abaixo de 300 litros, enquanto os piores ultrapassaram mil litros por unidade produzida. Essa amplitude revela o potencial de melhoria que existe dentro dos próprios sistemas avaliados.

Os resultados por modelo de produção:

  • Sistemas a pasto: de 299 a 1.058 litros/kg, com média de 519. A faixa mais ampla reflete a heterogeneidade da gestão — os melhores resultados a pasto superaram todos os outros sistemas, mas os piores também foram os mais altos do estudo.
  • Semiconfinados: de 656 a 965 litros/kg, com média de 580. As maiores pegadas nesse sistema estiveram ligadas a indicadores de desempenho baixos — em uma das propriedades, a produção era de apenas 15 litros de leite por vaca/dia, contra uma média de 23 litros nas demais fazendas.
  • Confinados: de 562 a 950 litros/kg, com médias entre 313 e 549. A maior eficiência reflete melhor conversão alimentar e produtividade diária por vaca.

"Independentemente do modelo de produção, se gerenciado corretamente, ele pode ser ambientalmente amigável em relação à água", destaca Julio Palhares, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste.

A média global estimada pela Water Footprint Network e pela FAO é de aproximadamente 1.020 litros de água para cada litro de leite produzido. A média de 704 litros encontrada no estudo gaúcho já se situa abaixo dessa referência internacional, e as propriedades mais eficientes (abaixo de 300 litros) demonstram que a pecuária leiteira brasileira, quando bem conduzida, pode alcançar desempenho hídrico significativamente melhor do que a média mundial.

Para efeito de comparação com outras proteínas animais, a produção de 1 kg de carne bovina demanda cerca de 15.400 litros de água na média global — mais de 20 vezes a pegada do leite. Já a produção de 1 kg de queijo exige em torno de 5.000 litros, e 1 kg de leite em pó, cerca de 4.600 litros, segundo dados de Hoekstra (2011), o que evidencia como o processamento industrial amplifica a pegada hídrica dos derivados lácteos.

Manejo eficiente: o que funciona na prática

Segundo o estudo, as combinações que geraram maior eficiência hídrica compartilharam alguns fatores-chave:

  • Para reduzir a água verde (a maior parcela), o aumento de 25% na produtividade das lavouras de milho e soja utilizadas na alimentação animal foi o fator de maior impacto. Melhorar o rendimento agrícola reduz a necessidade de área e de recursos naturais por unidade de leite produzida.
  • Para reduzir a água azul, três medidas se mostraram eficazes: diminuir o consumo de água na lavagem da sala de ordenha, aumentar em pelo menos um litro a produção diária de leite por vaca e/ou reduzir em um quilo a ingestão de matéria seca por vaca ao dia.
  • Para reduzir a água cinza, o tratamento adequado de efluentes e resíduos contribui para menor carga de poluentes e melhora os indicadores ambientais.

"Sistemas produtivos bem conduzidos e uso racional da água nas rotinas são fundamentais. Pequenas alterações operacionais já promovem ganhos importantes", afirma Palhares. A escolha de animais geneticamente mais eficientes também influencia os resultados: bovinos com melhor desempenho produtivo utilizam menos recursos por litro produzido.

Mudanças climáticas: a pressão que vem de fora da porteira

Cenários de elevação de temperatura entre 1,5 °C e 2,5 °C já demonstram aumento no consumo hídrico em ambas as frentes. De um lado, animais expostos a mais calor bebem mais água e produzem menos leite. De outro, as lavouras — especialmente o milho — apresentam menor rendimento, exigindo mais área e mais recursos para manter a mesma produção de alimento.

O aquecimento global elevou a pegada hídrica azul entre 1% e 2% nos cenários modelados pelo estudo. Embora o percentual pareça pequeno, o efeito se acumula sobre um sistema que já opera sob pressão hídrica crescente em diversas regiões do país — o Rio Grande do Sul, palco do estudo, enfrentou nos últimos anos tanto secas severas quanto enchentes históricas, evidenciando a instabilidade climática.

Apesar disso, o estudo indica que a adoção de boas práticas pode amenizar esses efeitos. "As condições climáticas alteram diretamente a demanda por água, mas a combinação de manejo eficiente e investimento em produtividade agrícola é capaz de compensar parte do impacto", reforçam os pesquisadores.

Produção eficiente é o caminho

A conclusão central do estudo é que a produtividade é o principal determinante da pegada hídrica. Quanto maior a produção de leite por vaca e melhor a conversão alimentar, menor o consumo de água por litro produzido. Isso vale para qualquer sistema — a pasto, semiconfinado ou confinado.

O produtor rural precisa estar atento às mudanças e buscar melhorias constantes. Ajustes no manejo, investimento em produtividade das lavouras e do rebanho, equipamentos adequados de ordenha e tratamento de efluentes são medidas acessíveis que, combinadas, podem reduzir a pegada hídrica em mais de 50%, como demonstram as propriedades mais eficientes do estudo.

Em um cenário de recursos hídricos cada vez mais pressionados pelo clima e pela demanda, eficiência e planejamento serão determinantes para manter a atividade leiteira viável e ambientalmente responsável. As práticas adotadas nas propriedades contribuem diretamente para metas globais como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU — especialmente os que tratam de produção agropecuária resiliente (ODS 2), uso responsável dos recursos naturais (ODS 12) e combate às mudanças climáticas (ODS 13).

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