ÁGUA

Crise hídrica e agricultura em pauta no Alto Tietê

Crise hídrica e agricultura em pauta no Alto Tietê

Encontro em Mogi das Cruzes reúne especialistas e produtores para discutir segurança hídrica, mudanças climáticas e caminhos para o uso inteligente da água no desenvolvimento rural.

Em um cenário em que a escassez de água desafia o campo e pressiona os custos de produção, o Sindicato Rural de Mogi das Cruzes sediou, no dia 24 de fevereiro, o encontro “Água, Agricultura e Clima na Bacia do Alto Tietê – Caminhos para o Uso Inteligente da Água, Segurança Hídrica e Desenvolvimento Local”. O evento reuniu produtores, especialistas, representantes institucionais e profissionais do setor em um debate estratégico sobre os impactos da crise hídrica na agricultura, reforçando a importância da gestão eficiente dos recursos hídricos, da adaptação às mudanças climáticas e da adoção de boas práticas agrícolas como pilares para o desenvolvimento sustentável da região.

Na abertura, o Prefeito de Salesópolis, Rodolfo Marcondes, destacou que a preservação da água deve ser compreendida como responsabilidade compartilhada. Em meio ao cenário de escassez hídrica, ele reforçou que o agricultor não pode ser tratado como vilão, mas sim como parte essencial da solução. Segundo ele, o encontro representou uma oportunidade para evidenciar que é possível produzir com responsabilidade, adotando boas práticas que conciliem produtividade e conservação ambiental.

O Diretor-presidente da FUNDAG - Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola, Orivaldo Brunini, apresentou um panorama técnico sobre as mudanças climáticas e seus efeitos diretos na agricultura. Ele explicou os mecanismos do aquecimento global e do efeito estufa, alertando para a elevação da temperatura média entre 1,5°C e até 3–5°C em cenários mais críticos, o que intensifica eventos extremos.

Chuvas intensas, ondas de calor e de frio mais frequentes, deslocamentos populacionais e mudanças de hábitos são algumas das consequências já observadas. Brunini ressaltou que tanto o excesso quanto a ausência de chuvas provocam perdas significativas na produção agrícola, tornando o setor um dos mais impactados pelas alterações climáticas.

“Estamos passando por esta crise hídrica, mas pouco se fez ou se faz. Já tivemos antes, mas a demanda não era assim elevada”, afirmou, ao enfatizar que o crescimento populacional e a ampliação das atividades econômicas aumentaram a pressão sobre os recursos hídricos.

Entre as soluções apontadas estão a adoção de técnicas de adaptação, como sistemas de alerta antecipado e monitoramento hidrometeorológico, estudos de zoneamento agrícola, além de estratégias de mitigação, como o sequestro de CO₂ e a redução dos gases de efeito estufa.

No painel “Boas Práticas Agrícolas”, os participantes discutiram a necessidade de uma mudança de paradigma na fiscalização ambiental, substituindo uma abordagem meramente punitiva por programas de incentivo à regularização, com compromisso efetivo para sanar problemas e prevenir irregularidades. Entre os desafios atuais foram destacados: Pressão urbana sobre áreas rurais e mananciais; Erosão e assoreamento; Supressão de vegetação ciliar; Uso irregular da água e Fragmentação das ações públicas.

Como caminho estratégico, foi mencionada a atuação do CONDEMAT, com a proposta de protocolos técnicos comuns, capacitação conjunta, integração das fiscalizações e foco preventivo.

Os especialistas reforçaram que é indispensável o monitoramento dos volumes e da qualidade das águas. A segurança hídrica — ponto central do debate — começa na área rural. Conhecer o solo, manejar corretamente a irrigação e acompanhar dados de monitoramento são medidas que permitem usar melhor a água disponível e reduzir desperdícios.

Também foi defendido o incentivo a práticas agrícolas de baixo impacto, que conciliem produtividade, conservação do solo e proteção dos recursos hídricos.

Ao final, Everton de Oliveira ressaltou a importância do encontro como espaço de diálogo qualificado entre profissionais e produtores, fortalecendo a integração entre ciência, gestão pública e setor produtivo.

O evento ressaltou a crise hídrica que exige planejamento, monitoramento constante, adaptação às mudanças climáticas e compromisso coletivo. A agricultura, altamente impactada pelas variações climáticas, também é protagonista na construção de soluções. Produzir com responsabilidade, preservar os mananciais e investir em conhecimento técnico são caminhos indispensáveis para garantir segurança hídrica e sustentabilidade às próximas gerações.

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