WaterRegen Summit propõe novas estratégias para enfrentar a crise hídrica

Com debates sobre regulação, inovação, governança e participação social, o encontro destacou a necessidade de integrar diferentes setores para garantir a dispo…
A segurança hídrica e a regeneração dos recursos naturais estiveram no centro dos debates do WaterRegen Summit 2026, realizado nos dias 16 e 17 de junho, no Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo (SP). O encontro reuniu especialistas, representantes do setor público, empresas, academia e organizações da sociedade civil para discutir soluções inovadoras, modelos de governança, regulação e estratégias capazes de ampliar a disponibilidade de água e fortalecer a resiliência diante dos impactos das mudanças climáticas.
Com o propósito de transformar a forma como a água é gerida no Brasil e no mundo, o evento destacou que a crise hídrica não é apenas uma questão ambiental, mas também um desafio social, econômico e estratégico.
“A água deixou de ser apenas um recurso ambiental para se tornar um dos maiores riscos operacionais e estratégicos das empresas no Brasil e no mundo. Secas extremas, mudanças no regime de chuvas e exigências regulatórias cada vez mais rigorosas estão impactando diretamente a continuidade dos negócios. O WaterRegen Summit foi criado para mudar esse jogo”, ressaltou Everton de Oliveira, diretor do Instituto Água Sustentável.
O evento teve como tema central o desafio de ampliar a disponibilidade de água no planeta por meio da regeneração dos ciclos naturais, retenção e melhor aproveitamento desse recurso. “O WaterRegen 2026 traz como tema central o desafio que nos convoca a todos: trazer mais água para o planeta, reter e aproveitar ao máximo cada gota e ajustar a velocidade do seu escoamento — devolver à água o seu tempo, para que ela devolva à terra a sua vida”, afirmou Rodrigo Cordeiro, CEO da NESTY Congressos & Feiras de Negócios.
Durante a palestra “Governança Global da Água: Frameworks Internacionais, Regulação e o Novo Papel Corporativo na Segurança Hídrica”, a professora Mônica Porto, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (EP-USP), abordou a necessidade de uma mudança de paradigma na gestão dos recursos hídricos.
Segundo Moônica, a solução dos desafios relacionados à água não está mais em escolher entre alternativas, no conceito do “ou”, mas sim na capacidade de integrar soluções por meio do “e”, considerando múltiplos valores e possibilidades de decisão para promover melhorias efetivas na qualidade de vida da população.
Entre os pilares fundamentais da segurança hídrica, Mônica destacou a garantia do acesso à água potável segura, de qualidade e em quantidade suficiente; o suprimento adequado para atividades econômicas e serviços essenciais, como energia, transporte, indústria e turismo; a proteção da vida, dos direitos humanos, valores culturais e usos recreativos; a coleta e o tratamento de efluentes para preservação da saúde humana e dos ecossistemas; a conservação dos ecossistemas na alocação da água; e a cooperação entre diferentes territórios e nações na gestão de recursos hídricos compartilhados.
Para o aumento da resiliência hídrica, a professoradestacou três pilares essenciais: planejamento e políticas públicas fundamentadas em estudos técnicos; regulação eficiente, com regras adequadas para uso da água e ocupação do solo, além da preparação das outorgas diante de situações críticas; e investimentos em infraestrutura capazes de tornar os sistemas mais robustos. Como conclusão, enfatizou que há amplo espaço para inovação nessas três frentes e que adaptação e preparação são atributos fundamentais da resiliência. “A informação é a base fundamental para uma boa decisão”, afirmou.
A apresentação do modelo de gestão compartilhada entre a Corsan Aegea e o município de São Lourenço do Sul (RS). O prefeito Zelmute Marten apresentou a experiência local de fortalecimento da governança participativa como instrumento para construção de uma cidade mais resiliente frente aos desafios climáticos.
De acordo com ele, iniciativas como programas de cidades verdes e resilientes, cooperação com universidades, fortalecimento da Defesa Civil e estratégias municipais alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são fundamentais para preparar os territórios para o futuro.
“Antes de executar uma obra, construímos governança. A governança é compartilhada entre prefeitura, comunidades, Aegea, Defesa Civil e demais atores envolvidos”, destacou.
A mesa-redonda “Soluções Baseadas na Natureza: Construindo Futuros com Água Positiva” reuniu especialistas de diferentes setores para debater iniciativas capazes de regenerar os sistemas naturais e ampliar a segurança hídrica.
O moderador Samuel Barrêto, do Observatório das Águas, destacou a importância do reconhecimento das soluções baseadas na natureza como estratégias fundamentais para o futuro. Representando a Aegea, Adriana Albanese ressaltou a necessidade de uma visão de longo prazo, priorizando ações como reflorestamento e o estabelecimento de parcerias entre diferentes instituições.
Já Gabriel Prudlik, da Diageo, enfatizou a importância de direcionar as iniciativas para as comunidades locais. Complementando esse olhar, Anna Luisa Beserra destacou que investir em comunidades significa também promover saúde, geração de renda e fortalecimento da educação local. Como exemplo, citou tecnologias acessíveis para produção de água potável, capazes de levar abastecimento seguro a comunidades com baixo custo operacional.
A discussão também abordou o papel da ciência, da inovação e do diagnóstico territorial. Segundo Anna, o Brasil apresenta diferentes realidades climáticas e sociais, o que exige soluções adaptadas às características de cada região. “Com o diagnóstico adequado conseguimos compreender melhor os territórios e contribuir de forma mais eficiente”, explicou.
A mesa-redonda “Diálogos com Profundidade – Regeneração hídrica no Brasil: fora do discurso, dentro da realidade”, moderada por Ana Paula Trevizan, da Quintessa, promoveu um debate sobre os desafios econômicos, regulatórios e institucionais para transformar a regeneração hídrica em ações concretas.
Ao abordar a construção de ativos ambientais e os mecanismos capazes de atrair investimentos, Denise Agustinho, da Basac, ressaltou a importância de avançar de uma visão econômica tradicional para uma abordagem baseada na economia ecológica, reconhecendo o valor dos rios, dos solos, da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, incluindo o papel do trabalho humano na recuperação ambiental.
Representando o Governo do Espírito Santo, Juliana dos Reis destacou que a diversidade de agendas relacionadas à água deve ser encarada como uma oportunidade, já que o tema está diretamente conectado às discussões sobre clima, segurança hídrica, adaptação, mitigação e estratégias de desenvolvimento dos estados.
Na perspectiva regulatória, Luis Fernando Magalhães, da O2eco Tecnologia Ambiental, chamou a atenção para o desafio de transformar o potencial inovador do país em soluções efetivamente aplicadas, apontando a necessidade de maior aproximação entre inovação, conhecimento técnico e os processos regulatórios.
Encerrando o debate, Samuel Barrêto destacou que a implementação de soluções envolve múltiplas camadas institucionais e depende da articulação entre setor público, setor privado, comitês de bacias e sociedade. Para ele, a liderança, a clareza das competências e a cooperação entre os diferentes atores são elementos indispensáveis para que as soluções cheguem aos territórios e gerem resultados concretos.
A regeneração dos ecossistemas, a integração entre ciência, inovação, governança e participação social demonstram que enfrentar a crise hídrica exige ações coletivas, planejamento de longo prazo e o compromisso de todos os setores da sociedade.












