SANEAMENTO

Cedae inicia obra de R$ 1,35 bilhão da ETA Novo Guandu para reforçar segurança hídrica do Rio

Cedae inicia obra de R$ 1,35 bilhão da ETA Novo Guandu para reforçar segurança hídrica do Rio

Cedae inicia construção da ETA Novo Guandu, obra de R$ 1,35 bilhão que produzirá 7,5 mil litros de água tratada por segundo e beneficiará 3 milhões de pessoas na Baixada Fluminense e Zona Oeste do Rio.

A Cedae deu início, nesta semana, à construção da Estação de Tratamento de Água (ETA) Novo Guandu, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A obra, orçada em R$ 1,35 bilhão, vai produzir 7,5 mil litros de água tratada por segundo na primeira fase e deve beneficiar cerca de 3 milhões de pessoas na Baixada Fluminense e na Zona Oeste da capital. O prazo de conclusão está previsto para abril de 2030.

A nova unidade é a peça central do Sistema Novo Guandu, conjunto de obras orçado em R$ 2,5 bilhões que, segundo a companhia, representa o maior investimento em infraestrutura de saneamento já realizado no estado do Rio de Janeiro. Além da ETA, o sistema inclui duas estações elevatórias — uma de água bruta e outra de água tratada —, uma adutora de água tratada de 3,9 quilômetros, um tronco distribuidor de 1 quilômetro e o reservatório Novo Marapicu, que vai armazenar 55 milhões de litros e se tornará o maior depósito de água da Cedae.

Redundância para proteger o abastecimento de 12 milhões de pessoas

A lógica por trás do projeto não é apenas ampliar a oferta de água, mas criar uma rota alternativa de produção para toda a Região Metropolitana. Hoje, a Região Metropolitana depende fortemente da atual ETA Guandu, que segundo a Cedae atende cerca de 9 milhões de pessoas e responde por aproximadamente 80% do abastecimento de água potável metropolitano. Quando operar em conjunto com a estação já existente, a ETA Novo Guandu elevará a capacidade combinada para 50 mil litros por segundo, suficientes para atender 12 milhões de pessoas em toda a Região Metropolitana.

O risco de depender de uma única grande estação ficou evidente nos últimos dias. Em 22 de outubro, um reparo emergencial em uma tubulação do Sistema Guandu obrigou a Cedae a reduzir a operação da ETA para 50% da capacidade, afetando bairros da Zona Oeste, Centro, zonas Norte e Sul da capital, além de sete municípios da Baixada Fluminense. No dia seguinte, mesmo após a conclusão do serviço, a estação ainda operava com 73% da capacidade, e as concessionárias de distribuição estimaram até 72 horas para a normalização completa do fornecimento após o reparo. Episódios como esse reforçam o argumento técnico da Cedae de que uma segunda grande estação de produção reduz a vulnerabilidade do sistema a panes, secas prolongadas e eventuais contaminações de mananciais.

Essa estratégia de duplicar estações de tratamento interligadas, segundo a Cedae, já é prática consolidada em grandes metrópoles como Los Angeles, Chicago, Nova Iorque, Paris, Londres, Pequim, Tóquio, Sydney, Toronto e Cidade do México, onde a redundância operacional funciona como camada extra de segurança hídrica diante do crescimento populacional.

O que dizem os dirigentes da companhia

Para o presidente da Cedae, Rafael Rolim, a obra tem caráter estrutural para o planejamento hídrico do estado. Segundo ele, a construção do sistema Novo Guandu é um passo fundamental para garantir a segurança hídrica do Rio de Janeiro por mais 50 anos, além de resolver um problema histórico na Baixada e servir como redundância operacional da ETA Guandu. Rolim também associou o projeto a quatro pilares que, na avaliação da companhia, sustentam a expansão das grandes metrópoles: segurança hídrica, ambiental, energética e jurídica.

Já o diretor-técnico e de projetos da Cedae, engenheiro Humberto de Mello Filho, destacou a dimensão da obra e seu papel defensivo diante de cenários climáticos adversos. Segundo ele, a redundância entre Novo Guandu e a atual ETA Guandu vai aumentar a capacidade de produção de água e proteger o abastecimento diante de desafios como mudanças climáticas, secas prolongadas, enchentes e possíveis contaminações de mananciais.

Sistema projetado para crescer

O desenho da ETA Novo Guandu é modular: a capacidade inicial de 7,5 mil litros por segundo pode ser ampliada ao longo do tempo até atingir 24 mil litros por segundo, acompanhando o crescimento populacional e o aumento da demanda por água na Região Metropolitana. A diferença entre a capacidade máxima projetada e a produção atual da ETA Guandu representa um incremento potencial de 20 mil litros por segundo no sistema como um todo, o equivalente ao abastecimento de milhões de novos consumidores nas próximas décadas.

A magnitude da obra aparece nos números divulgados pela companhia: serão utilizados 213 mil metros cúbicos de concreto e 1,9 milhão de sacos de cimento — volume que, segundo a Cedae, equivaleria à construção de quatro estádios do Maracanã —, totalizando 92,5 mil toneladas de cimento. O canteiro vai mobilizar mais de 900 trabalhadores e envolve a instalação de 5.835 metros de adutoras e tubulações ao longo dos oito anos de duração total do projeto.

Obras já em andamento desde 2024

Apesar do anúncio desta semana marcar o início da construção da ETA propriamente dita, partes do Sistema Novo Guandu já estavam em execução havia mais de um ano. Levantamento da revista especializada Grandes Construções mostra que etapas como a terraplanagem para o reservatório Novo Marapicu, a drenagem das vias de acesso e a aquisição de tubos de aço para adutoras e troncos já haviam sido concluídas, enquanto a complementação das obras do reservatório — orçada separadamente em R$ 749,6 milhões — já estava com 82% de execução física. Em paralelo, a Cedae também toca uma reforma dos filtros da ETA Guandu atual, contrato de R$ 311,8 milhões com o Consórcio Guandu Filtros, formado pelas empresas Passarelli Engenharia e Construção, Enfil Controle Ambiental e Nexxus Engenharia e Consultoria, já com mais da metade do serviço concluído.

O projeto também passou pelo crivo do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. Em um primeiro edital, de cerca de R$ 1,7 bilhão para a construção da estação, o TCE-RJ chegou a suspender a licitação após identificar que mais da metade do valor da contratação estava alocada em itens sem composição de preços devidamente detalhada. A Cedae reagiu afirmando que o edital já havia sido revisado conforme orientações técnicas do próprio tribunal e seguiu com os ajustes necessários para destravar o certame — processo que resultou no contrato atual, fechado em R$ 1,35 bilhão para a construção da estação.

Além dos recursos próprios e de contratos específicos, a Cedae também estruturou, junto à Caixa Econômica Federal, uma linha de financiamento bilionária destinada à modernização dos sistemas de produção, adução, reservação e distribuição de água nos municípios da Baixada Fluminense — um programa mais amplo de recuperação da infraestrutura hídrica da região, do qual o Sistema Novo Guandu é o componente mais visível e estrategicamente mais relevante.

O novo arranjo do saneamento fluminense

A obra também ilustra a divisão de papéis consolidada no saneamento do Rio de Janeiro desde a privatização da Cedae, em 2021. Naquele ano, o governo estadual leiloou os serviços de distribuição de água e coleta de esgoto da companhia em quatro blocos, hoje operados por três concessionárias privadas: Águas do Rio, do grupo Aegea, responsável pelos blocos 1 e 4; Iguá Saneamento; e Rio+Saneamento, que assumiu o bloco 3 e atende bairros da Zona Oeste da capital e municípios do interior fluminense. Com a mudança, a Cedae deixou de ser a prestadora direta de água e esgoto na maior parte do estado e passou a atuar como produtora atacadista de água tratada, papel que exerce nos sistemas Guandu, Imunana-Laranjal, Acari e Ribeirão das Lajes, entre outros, fornecendo o insumo que as concessionárias distribuem ao consumidor final.

É justamente nessa interface entre produção e distribuição que a redundância do Novo Guandu ganha peso regulatório: qualquer instabilidade na produção da Cedae — como a verificada no reparo emergencial de outubro — se propaga imediatamente para a operação das três concessionárias, que respondem perante a Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio de Janeiro (Agenersa) pelas metas de continuidade e qualidade do fornecimento previstas em seus contratos de concessão. Ampliar a capacidade de produção e criar uma segunda grande estação interligada à ETA Guandu é, do ponto de vista da Cedae, uma forma de reduzir o risco sistêmico que recai sobre as concessionárias e, em última instância, sobre os 12 milhões de usuários atendidos pelo sistema na Região Metropolitana.

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