Candidatos com multas ambientais recebem, juntos, R$ 253 milhões em crédito rural

Candidatos com multas ambientais ativas receberam R$ 165 milhões em crédito rural, segundo levantamento do Greenpeace Brasil.
Um levantamento realizado pelo Greenpeace Brasil constatou que 25 candidatos das Eleições 2026 foram autuados e receberam, juntos, R$ 253,6 milhões em crédito rural entre 2013 e 2016. Destes, 17 permanecem com multas ativas que somam R$ 11.272.461,61 e, apesar disso, foram beneficiados com crédito rural no valor total de R$ 165 milhões. A análise tem como base o cruzamento de dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Banco Central do Brasil (Bacen), e alerta para o fato de que a existência de autuações ambientais não impediu o acesso a financiamentos do crédito rural, que contam com recursos públicos e taxas de juros subsidiadas. Os dados completos do levantamento estão https://public.flourish.studio/story/3823034/.
O Greenpeace identificou 137 candidatos de 21 partidos com pelo menos uma multa ambiental aplicada entre 22 de julho de 2008 e 31 de agosto de 2026. As autuações somam R$ 161,5 milhões, dos quais R$ 84,2 milhões correspondem a multas que permaneceram ativas no período analisado, sem pagamento, cancelamento ou prescrição. As infrações contra a flora, categoria que abrange ocorrências relacionadas a desmatamento e queimadas ilegais, entre outras, concentram a maior parte dos valores, seguidas por irregularidades ligadas ao controle ambiental, licenciamento, fauna e pesca.
Entre os 25 candidatos autuados que acessaram crédito rural, o Partido Liberal (PL) concentra R$ 118,1 milhões, o equivalente a 46,5% dos R$ 253,6 milhões concedidos. O Partido Socialista Brasileiro (PSB) aparece em seguida, com R$ 69 milhões, ou 27,2% do total - juntas, as duas siglas respondem por quase três quartos dos recursos destinados ao grupo analisado. Confira a lista completa https://public.flourish.studio/visualisation/30368289/ das siglas dos candidatos beneficiados. Os financiamentos foram direcionados para operações de custeio, que totalizaram R$ 120,7 milhões, e de investimento, com R$ 105,4 milhões; outros R$ 27,5 milhões foram liberados para comercialização. Entre as atividades financiadas estão lavouras, aquisição e manutenção de animais, compra de máquinas e equipamentos, pastagens, bovinocultura, estocagem e aquisição de ativos operacionais.
No tocante às multas ambientais, as candidaturas a deputado estadual e deputado federal reúnem o maior número de nomes: 68 concorrentes às assembleias legislativas e 47 à Câmara dos Deputados. Também foram encontrados registros entre candidatos a senador, governador, vice-governador e 1º e 2º suplentes ao Senado. Quanto aos partidos, seis concentram mais da metade dos nomes identificados: o Partido Liberal (PL) lidera a relação, com 20 candidatos, seguido pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), com 15; Podemos, com 13; e Novo, Partido Social Democrático (PSD) e Republicanos, com 10 cada. “Fechar as lacunas nas regras do crédito rural é urgente para impedir que dinheiro público continue financiando quem já foi autuado por desrespeitar a legislação ambiental, e é ainda mais grave, neste contexto, que haja candidatos se beneficiando dessas brechas. O que vemos é um ciclo vicioso em que legisladores e executivos atuam para afrouxar e adiar regulações, reduzir a efetividade da fiscalização ambiental e desenhar licenciamentos sob medida em benefício próprio ou para a sua base eleitoral. Nas eleições de 2026, antes de votar, o eleitor precisa saber quem comete infrações e quem está usando o poder para proteger e facilitar crimes ambientais”, explica a coordenadora de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, Cristiane Mazzetti.
No relatório Bancando a Extinção: bancos e investidores como sócios no desmatamento, publicado em 2024, o Greenpeace Brasil defende que o Banco Central e as instituições financeiras adotem critérios ambientais mais rigorosos na análise das operações. Entre as recomendações estão considerar todos os tipos de infração, e não apenas os embargos por desmatamento, e vincular as restrições ao CPF do proponente, independentemente do imóvel em que a irregularidade tenha sido registrada. A organização também recomenda o acompanhamento contínuo da situação ambiental dos beneficiários após a liberação dos recursos.


