Dois projetos brasileiros em relatório da FAO sobre recuperação de biomas

Um relatório da FAO destaca dois projetos brasileiros de restauração de biomas, incluindo a iniciativa do povo indígena Xukuru na Caatinga de Pernambuco.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) divulgou o relatório sobre o “Estado das Florestas no Mundo”, de 2026 lançado hoje, 28 de setembro, onde governos de 91 países prometeram restaurar de 190 milhões de hectares de florestas. O relatório contém 18 estudos de cases, sendo que dois deles envolvem o Brasil. Um dos projetos é liderado pelo povo indígena Xukuru, que vive no interior do Estado de Pernambuco. O grupo já conseguiu restaurar 91,7 hectares nas montanhas Ororubá, um ecossistema rochoso no bioma da Caatinga. Os indígenas priorizam áreas com significado sagrado e espiritual e que tenham potencial de recuperação. O foco é a restauração biocêntrica, uma técnica baseada no conhecimento ancestral indígena, de acordo com a qual as necessidades dos seres humanos não são consideradas mais importantes do que as de outros seres vivos.
Os Xukuru devolveram pedras às formações rochosas e construíram barreiras para retardar o escoamento da água, reter sedimentos e acumular matéria orgânica, melhorando a umidade do solo e criando condições para a regeneração natural. A estratégia tem apoio da FAO e dá sinais visíveis de recuperação ecológica, incluindo o retorno da fauna e da flora e o ressurgimento de fontes de água. O segundo projeto é o Pacto Trinacional da Mata Atlântica, que reúne Argentina, Brasil e Paraguai para responder a uma necessidade urgente de restauração em larga escala. Atualmente, a Mata Atlântica possui menos de 30% da sua cobertura original, após séculos de expansão agrícola, pecuária, urbanização e extração de madeira. O projeto aposta em um sistema de governança de baixo para cima, onde múltiplos atores, setores e regiões integram o conhecimento e as necessidades de populações rurais e povos indígenas.
O foco é a criação de “paisagens multifuncionais”, que articulam a restauração de ecossistemas com atividades produtivas, segurança alimentar, desenvolvimento rural e melhoria dos meios de subsistência. A iniciativa tem um forte componente tecnológico. Anualmente, são produzidos mapas de alta resolução das mudanças na cobertura e no uso da terra, utilizando imagens de satélite e computação em nuvem.
O estudo da FAO também reconhece avanços na legislação brasileira, e cita a Lei 12.651, que estabelece obrigações juridicamente vinculantes de restaurar a vegetação nativa em áreas de preservação permanente e reservas legais. Tais obrigações são operacionalizadas pelo Decreto nº 8.972, de 2017, que institui a Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa. A meta desta política é restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030.
O diretor-geral da FAO, Qu Dongyu afirmou que a restauração de florestas e paisagens é mais do que uma prioridade ambiental, “é um investimento estratégico em sistemas agroalimentares resilientes e desenvolvimento rural”. As florestas cobrem cerca de 32% da superfície da Terra, armazenam 714 gigatoneladas de carbono e abrigam até 80% da biodiversidade. No entanto, estima-se que 489 milhões de hectares de floresta foram perdidos entre 1990 e 2025 devido ao desmatamento. Além disso, mais de 460 milhões de hectares estão degradados em todo o mundo. Todos os anos, cerca de 127 milhões de hectares de floresta são afetados por incêndios, com danos adicionais causados por insetos, doenças e eventos climáticos severos. Segundo a FAO, restaurar mais de 1 bilhão de hectares de terras degradadas poderia gerar US$ 1,8 trilhão por ano em benefícios, incluindo aumento da biodiversidade, melhor regulação da água e solos mais saudáveis.












