Goldwind e Casa dos Ventos fecham maior contrato de turbinas eólicas do Brasil para parque de 872 MW na Bahia
Goldwind e Casa dos Ventos assinam maior contrato de turbinas eólicas do Brasil para o Complexo Sento Sé na Bahia, com 872 MW de capacidade. O projeto gerará 4,5 milhões de MWh anuais de energia limpa.
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A fabricante chinesa Goldwind e a desenvolvedora brasileira Casa dos Ventos assinaram os contratos definitivos para o fornecimento de turbinas do Complexo Eólico Sento Sé, empreendimento de 872 MW de capacidade instalada que será erguido no norte da Bahia. Segundo as empresas, trata-se do maior volume de aerogeradores já contratado para um único projeto eólico no país, superando inclusive outro acordo recente entre as mesmas companhias, de 827 MW, que já havia colocado a Goldwind na liderança do mercado nacional de fabricação de turbinas.
Pelos termos do contrato, a Goldwind ficará responsável pelo fornecimento, transporte, instalação e comissionamento de 109 turbinas do modelo GWH182-8.0 MW, além da prestação de serviços de operação e manutenção por 30 anos — um contrato de ciclo de vida completo que amarra fabricante e desenvolvedora por três décadas após a entrada em operação do parque. O modelo GWH182 foi desenvolvido pela fabricante para operar em regimes de ventos de alta velocidade, característica típica do interior baiano, onde a empresa já opera outros parques.
Quando entrar em funcionamento, com previsão para 2029, segundo levantamentos do setor, o Complexo Sento Sé deverá gerar cerca de 4,5 milhões de MWh de energia limpa por ano, volume suficiente para evitar a emissão de aproximadamente 920 mil toneladas métricas de CO₂ anualmente. Parte dessa energia terá destinação pouco comum no setor eólico brasileiro: abastecer projetos de data centers que a Casa dos Ventos desenvolve em diferentes regiões do país, numa aposta que conecta a expansão da geração renovável à crescente demanda de infraestrutura digital por eletricidade confiável e de baixo carbono.
"Estamos muito satisfeitos em firmar essa parceria estratégica com a Goldwind para executarmos juntos o projeto de energia eólica de Sento Sé", afirmou Lucas Araripe, diretor-executivo da Casa dos Ventos, destacando que parte da eletricidade gerada será destinada ao fornecimento de energia renovável aos data centers em desenvolvimento pela empresa. Já Wang Hai, vice-presidente de Negócios do Grupo Goldwind, classificou o projeto como uma iniciativa estratégica fundamental para a companhia chinesa e afirmou que a fabricante trará para o Brasil a experiência já acumulada no atendimento a demandas de data centers em outros mercados.
Bahia consolida polo industrial da Goldwind no Brasil
O acordo de Sento Sé reforça a aposta da Goldwind na manufatura local. A companhia opera desde 2024 sua primeira fábrica fora da China, instalada em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, erguida sobre a antiga planta da GE após um investimento superior a R$ 100 milhões. A unidade tem capacidade para produzir cerca de 150 turbinas por ano e já emprega mais de 100 trabalhadores diretos, com potencial de gerar cerca de 5 mil empregos indiretos em toda a cadeia de fornecimento, segundo dados divulgados à época da inauguração.
Levantamentos recentes do setor indicam que a Goldwind hoje responde por 50% a 55% das turbinas eólicas em fabricação no Brasil, posição consolidada justamente a partir dos contratos firmados com a Casa dos Ventos — primeiro o de 827 MW, agora superado pelo de Sento Sé, de 872 MW. O movimento ocorre num cenário de reconfiguração da cadeia produtiva nacional: GE e Siemens Gamesa encerraram fábricas de pás e turbinas no país nos últimos anos, em meio à desaceleração do ritmo de novos projetos, abrindo espaço para fabricantes chinesas como Goldwind, Envision e Ming Yang assumirem contratos locais.
As turbinas da série GWH182 produzidas em Camaçari contam com certificação FINAME do BNDES, o que permite a projetos elegíveis acesso a linhas de financiamento baseadas em políticas públicas de fomento à indústria nacional — um fator que tem pesado na decisão de desenvolvedoras brasileiras ao fechar contratos de grande porte com a fabricante.
Bahia lidera expansão eólica do país
O estado já é o maior polo eólico do Brasil, com mais de 11 GW de capacidade instalada em operação, segundo consolidados do setor, e mantém uma carteira robusta de expansão fiscalizada pela ANEEL. Somente na região de Sento Sé, há dezenas de usinas com outorga aprovada e construção ainda não iniciada, o que projeta a área como um dos principais polos de adensamento eólico do Nordeste nos próximos anos.
Em escala nacional, o Brasil ocupa hoje a 5ª posição no ranking mundial de capacidade instalada de energia eólica onshore, atrás apenas de China, Estados Unidos, Alemanha e Índia, segundo dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica). A capacidade eólica instalada no país superou a marca de 33 GW, respondendo por cerca de 13,9% da matriz elétrica nacional conforme o painel do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Apesar do avanço histórico, o setor vive um momento de desaceleração: em 2025 o Brasil adicionou cerca de 2,3 GW de nova capacidade, ritmo inferior ao de anos anteriores, e a própria ABEEólica reconhece que o mercado tenta se recuperar de um cenário de demanda mais fraca observado desde 2022, com expectativa de retomada mais consistente dos investimentos a partir de 2027.
É justamente nesse contexto de busca por novas frentes de demanda que o movimento da Casa dos Ventos ganha relevância: ao atrelar parte da energia de Sento Sé ao abastecimento de data centers, a empresa aposta em uma nova fonte de contratação de longo prazo para a energia eólica, menos dependente exclusivamente dos leilões regulados do setor elétrico e mais ligada à expansão de cargas eletrointensivas associadas à infraestrutura digital — tendência que também começa a pautar debates sobre o primeiro leilão de áreas para energia eólica offshore no país, outra frente que especialistas do setor já associam ao crescimento da demanda por data centers no Brasil.
A Goldwind opera na América Latina há mais de 15 anos e já acumula mais de 3 GW de capacidade instalada na região, segundo balanço recente divulgado pela própria companhia. O contrato de Sento Sé, somado à expansão da fábrica de Camaçari e à certificação de financiamento pelo BNDES, indica a estratégia da fabricante chinesa de aprofundar sua presença industrial no Brasil para além do fornecimento pontual de equipamentos, buscando se firmar como parceira de longo prazo em todas as etapas do ciclo de vida dos projetos eólicos no país.
































