Após dias de desabastecimento, Copasa conclui obra de R$ 74 milhões em Patos de Minas
Copasa conclui obra de R$ 74 milhões em Patos de Minas após crise de desabastecimento que deixou moradores sem água por até quatro dias e gerou multa judicial de R$ 1 milhão diários.
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A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) anunciou nesta quinta-feira (5/11) a normalização do abastecimento de água em Patos de Minas, no Alto Paranaíba mineiro, encerrando uma crise que deixou moradores de dezenas de bairros sem água potável por até quatro dias, gerou abertura de apuração pelo Ministério Público e levou a Justiça a fixar multa diária contra a concessionária. O episódio está diretamente ligado a uma obra de R$ 74 milhões em substituição de redes antigas, que a companhia classifica como solução permanente para o sistema de distribuição da cidade.
A obra por trás da crise
O investimento de R$ 74 milhões financia a substituição de 64 quilômetros de tubulações antigas de cimento-amianto por novas redes de distribuição, em obras iniciadas em março de 2025 e que utilizam o Método Não Destrutivo, técnica que permite trocar a tubulação sem necessidade de grandes escavações. Até outubro, a companhia já havia executado mais de 90% das intervenções previstas. A modernização abrange o Centro e bairros como Antônio Caixeta, Jardim Centro, Rosário, Jardim América, Aurélio Caixeta, São Francisco e Sobradinho, com benefício estimado para cerca de 160 mil moradores — praticamente toda a população urbana de Patos de Minas, distribuída por 80 bairros.
Depois de substituir a maior parte das tubulações, a Copasa entrou na etapa de descomissionamento: a desativação definitiva das redes antigas, mantendo em operação exclusivamente a estrutura nova. O procedimento é necessário porque, enquanto a transição não é concluída, algumas regiões da cidade seguem sendo abastecidas simultaneamente pelas redes nova e antiga, o que exige manobras de interligação em pontos de grande diâmetro.
Como a crise começou
A segunda etapa dessas interligações de grande porte foi realizada em 2 de novembro, feriado de Finados, com paralisação programada em 29 bairros das 7h às 13h. A companhia previa normalizar o fornecimento ao longo da própria noite, mas moradores de diversas regiões — entre elas os bairros Laranjeiras, Valparaíso e Residencial Sorriso — seguiram sem água por mais de 24 horas, em alguns casos chegando a quatro dias, com relatos de famílias sem água nem para beber e filas em bicas públicas.
A Copasa atribuiu a demora à formação de bolsões de ar nas tubulações durante o esvaziamento das redes para a obra, fenômeno que impede a passagem regular do fluxo de água mesmo com os reservatórios já carregados. Em nota técnica, a superintendente de operações Centro-Oeste da companhia, Cristiane Carneiro, admitiu falhas operacionais após as intervenções e detalhou que a falha afetou diretamente 29 dos 80 bairros do município, com 16 deles tendo o fornecimento reestabelecido nos primeiros dias e os demais enfrentando forte intermitência.
Pressão institucional: Ministério Público, Procon e Justiça
Diante da repercussão e das reclamações da população, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) registrou, em 3 de novembro, uma Notícia de Fato para apurar os problemas no abastecimento, notificando Copasa, Prefeitura de Patos de Minas e Procon municipal a prestarem esclarecimentos em 48 horas. O órgão também solicitou que fosse juntada ao procedimento a decisão de arquivamento de uma Notícia de Fato anterior, de 2025, sobre o mesmo tipo de falha — indício de que o problema não é inédito na cidade. O MPMG tratou o episódio não apenas como falha operacional, mas sob a ótica de possível violação de direitos do consumidor, dada a essencialidade do serviço, e pediu que fosse esclarecida a possibilidade de compensação financeira aos moradores prejudicados.
A pressão se intensificou e a Prefeitura de Patos de Minas ajuizou ação civil contra a Copasa em decorrência do desabastecimento, que afetava dezenas de bairros desde 1º de novembro. A Justiça deferiu integralmente o pedido de tutela de urgência da Procuradoria-Geral do Município, determinando que a concessionária normalizasse imediatamente o fornecimento, disponibilizasse caminhões-pipa com água potável e adotasse medidas para evitar novas paralisações, sob pena de multa diária de R$ 1 milhão, limitada a R$ 50 milhões em caso de descumprimento. A ação também pede abatimento proporcional nas faturas dos consumidores pelos dias sem abastecimento, além da aplicação de multas contratuais previstas na concessão.
Segundo a Prefeitura e a própria concessionária, o abastecimento começou a ser restabelecido na noite de 4 de novembro nos cerca de dez bairros que ainda enfrentavam intermitência àquela altura.
A resposta da Copasa: força-tarefa e normalização gradual
Sob pressão judicial e institucional, a Copasa mobilizou uma força-tarefa com equipes técnicas atuando ininterruptamente nas ruas da cidade, em turnos diurnos e noturnos, para eliminar os bolsões de ar e acelerar a normalização. Na tarde de 4 de novembro, a companhia informava 16 dos 29 bairros atingidos já regularizados. No dia seguinte, esse número avançou para 22 bairros com fornecimento totalmente normalizado, restando sete localidades com falhas pontuais, até a normalização completa anunciada na manhã de 5 de novembro.
A companhia explicou que, à medida que a água retorna, é esperado um pico de consumo imediato — moradores recompondo caixas d'água e reservatórios domiciliares —, o que retarda a estabilização da pressão nas regiões mais altas e nas pontas da rede. A Copasa também esclareceu que eventuais alterações na coloração da água durante o retorno do fluxo decorrem do desprendimento de partículas acumuladas nas paredes internas das tubulações, sem comprometer a potabilidade, e que o sistema conta com ventosas — dispositivos que expulsam o ar das tubulações durante os processos de esvaziamento e enchimento. A empresa reforçou ainda que as faturas consideram apenas o volume de água efetivamente consumido pelo cliente.
A etapa de descomissionamento, segundo a companhia, ainda deve se estender por cerca de seis meses, com novas intervenções programadas e comunicadas previamente à população, à medida que trechos remanescentes da rede antiga forem desligados em definitivo.
Outros investimentos da Copasa em Patos de Minas
A obra de substituição de redes é parte de um pacote mais amplo de investimentos da companhia no município. Em janeiro de 2026, a Copasa concluiu uma obra de ampliação do sistema de abastecimento de água da cidade, orçada em R$ 23,4 milhões, destinada a preparar a infraestrutura para o crescimento urbano e reduzir intermitências futuras. A companhia também investe R$ 27 milhões na ampliação da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do município, com previsão de aumento de 45% na capacidade de tratamento após a conclusão das obras.
O contexto estadual: metas do Marco Legal e mudança de controle acionário
Os indicadores de Patos de Minas se inserem num cenário estadual em que a Copasa já opera, segundo balanços da própria companhia, com cobertura de água superior a 99% em sua área de abrangência — patamar que cumpre a meta de universalização prevista no Novo Marco Legal do Saneamento. No esgotamento sanitário, a cobertura global fechou 2025 em 80,1%, ante 77,3% em 2024, ainda distante da meta de 90% até 2033 estabelecida pela legislação federal. Em 2025, a companhia também registrou redução histórica nas perdas de água na distribuição, que caíram de 38,1% para 32,4%, e investimento recorde de quase R$ 3 bilhões no ano, após já ter batido recorde em 2024 com R$ 2,17 bilhões aplicados em obras de água e esgoto.
A Copasa hoje responde pelo abastecimento de água em 636 municípios mineiros e por coleta de esgoto em 309 deles, com redes que somam cerca de 100 mil quilômetros de extensão. A companhia vive também um momento de reorganização contratual: sob controle do grupo Equatorial Energia, que assumiu a gestão da estatal mineira, apenas 41 dos 636 municípios atendidos haviam renovado contrato até 2073, enquanto outros 273 municípios com concessão apenas de água — que podem incorporar esgoto ao contrato — seguem em negociação. Levantamento do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa) mostra que ao menos 170 cidades mineiras nessa situação têm 0% de tratamento de esgoto ou não informam dados ao sistema, o que dá a dimensão do desafio de universalização que a companhia ainda enfrenta fora da capital e das áreas já consolidadas, caso de Patos de Minas no serviço de água.
Episódios como o de Patos de Minas tendem a reacender o debate sobre a qualidade da comunicação da concessionária durante obras estruturantes e sobre mecanismos de compensação a consumidores em interrupções prolongadas — tema que, segundo o MPMG, segue sob apuração formal no município.
































